• Nenhum resultado encontrado

2. CAPITULO

6.3 A observação participante – Controle e religiosidade

6.3.2 Rotina do trabalho e do cuidado aos usuários de drogas

A laborterapia e o trabalho em grupo, assim como a disciplina rígida associada à abstinência de drogas são critérios comuns a quase todas as comunidades ou clínicas terapêuticas (RIBEIRO, MINAYO, 2015). Esse sistema hierárquico estruturado de trabalho também vinculado à religiosidade é utilizado e preconizado pela Clínica Santa Clara.

O trabalho é feito dentro da Clínica e nos arredores do estabelecimento, principalmente nas estradas. Dentro da Clínica, o trabalho se divide em cultivo e plantação na horta comunitária, serviços gerais e de limpeza nas dependências da instituição, ajudantes de cozinheiros, além de pacientes52 em estágio avançado de recuperação que se tornam monitores nas atividades laborais e religiosas. Também se verificou a realização de trabalhos artesanais esporádicos.

Todos os afazeres diários estão diretamente interligados aos princípios de trabalho baseados nos Doze Passos. Assim, a laborterapia é apenas um instrumento para se cultivar a resignação e disciplinar o corpo, enquanto a espiritualidade é determinada pelas atividades religiosas. Como em outras comunidades e clínicas terapêuticas, o usuário de droga é visto como um sujeito anômico e de difícil disciplina. As drogas parecem demonstrar que o usuário é um sujeito fraco e antissocial.

52

Pode-se perceber que os pacientes que atingem o status de monitores são em sua totalidade, pacientes voluntários, e a partir da monitoria gozam de certas regalias, como a não necessidade de respeitar a hora de dormir.

Os impulsos, portanto, devem ser dominados e um dos instrumentos para essa dominação parte do trabalho como disciplina. As atividades visam ajustar o sujeito a um modelo social, um padrão para que o indivíduo não mais desafie a sociedade e seu arquétipo (FOSSI, GUARESCHI, 2015).

Esse padrão e disciplina ficam claros na hierarquia ligada a todo o processo laboral. Grande parte dos internos são obrigados a levantar às seis horas da manhã e o café é servido a partir das seis e meia. Majoritariamente todos os pacientes já se encontram trabalhando a partir das sete horas. Os pacientes em tratamento avançado têm a oportunidade de trabalhos fora da Clínica.

O trabalho, portanto, é realizado em várias frentes e tem a coordenação de múltiplos funcionários e também de internos voluntários considerados “recuperados”. O trabalho externo durante a observação participante consistiu na colocação de cercas a certa altura da estrada que leva para a Clínica, assim como a reforma e melhoria da estrada. Tais tarefas são confiadas a pacientes internados voluntariamente.

Independente disto, tais afazeres estão sempre entregues a uma constante vigília. Neste recorte, fica clara a interseção entre a disciplina e a vigilância respaldada por um objetivo oficial sempre reafirmado que seria reabilitar, curar e educar. Mas esta engrenagem laboral rígida gera indivíduos normatizados e não empoderados. A disciplina e a vigilância se solidificam na contramão de educar, e se traduzem em ferramentas para adestrar e condicionar os pacientes para que estejam aptos a cumprir ordens (FOUCAULT, 1987).

Internamente, tem-se outra divisão de trabalhos e a vigilância, embora presente, é substancialmente reduzida. A manutenção de toda a extensão da Clínica é totalmente feita por pacientes. Do mesmo modo, o trabalho de horta é dividido por seis a dez internos que trabalham debaixo de sol e somente param para o almoço e posteriormente para as orações da tarde.

Os afazeres relacionados ao trato dos animais, incluindo a ordenha de vacas e a alimentação de porcos e galinhas igualmente são desempenhados por internos com a supervisão onipresente dos funcionários da Clínica. Cerca de cinco a nove pacientes fazem tal trabalho. Já as tarefas relacionadas à limpeza e faxina mobilizam de seis a dez pacientes. Tais indivíduos obedecem a mesma carga horária dos outros. Por fim, temos os únicos pacientes que tiveram o direito de escolha do trabalho: os ajudantes de cozinha.

Tais pacientes são os únicos escolhidos de maneira voluntária, pois o Diretor preconiza que tais serviços sejam feitos por internos que tenham um mínimo conhecimento de culinária sobre a preparação de alimentos.

Um ponto a se destacar é o incentivo dado aos pacientes que cumprem suas tarefas em menos tempo ou de forma mais cuidadosa. A produtividade é estimulada principalmente nas tarefas ligadas à culinária, como também nos serviços de artesanato que podem gerar lucros à comunidade como abordaremos a seguir. Neste ponto, há um claro cumprimento aos preceitos da docilização do corpo preconizados por Foucault (1987), que afirma que a disciplina deve ter como fim político, tornar os corpos mais produtivos.

Vale destacar que não houve entre os pacientes a possibilidade de desistência ou abdicação de qualquer tipo de trabalho, que foi escolhido unilateralmente pela direção. Principalmente as tarefas externas foram sempre, totalmente, outorgadas. Internamente, embora com menos vigilância, a possibilidade de escolha democrática do trabalho nunca existiu. Nota-se a formação de corpos submissos, aptos ao trabalho, mas desempoderados, pois estão sempre em uma relação de sujeição (FOUCAULT, 1987).

Por fim, cabe ressaltar que existe uma grande e aguda diferença no trabalho efetuado pelos pacientes internados involuntariamente frente aos pacientes internados voluntariamente. O trabalho é bem aceito pela maioria destes últimos, sendo efetuado com retidão e ajustamento. No entanto, durante as entrevistas foi latente o descontentamento com a forma que o trabalho era imposto, e a vigilância excessiva:

E outra ((pausa na fala)) tem o trabalho né ((pausa na fala)) é um absurdo sabe ((pausa na fala)) eu sou artista plástico, faço arte e aqui tenho que pegar na enxada. Eles impõem mesmo o trabalho e não acho certo. Detesto e vou confessar ((falando baixo)) faço de má vontade mesmo. [...] O que eu penso? Penso que é absurdo e me deixa revoltado! (ENTREVISTADO 3). Não me sentia excluído pelo uso de drogas não, de jeito algum. Me sinto excluído aqui, tendo que fazer sempre o que não quero. Dá uma angústia viu (10) saber que tenho que acordar para esta porcaria toda amanhã. Trabalhar limpando privada ME exclui. Prefiro a droga (ENTREVISTADO 8). Trabalho é inclusão? Não sei bem se vai incluir não: Eu não quero ficar alimentando porco lá fora. Já basta a vida louca que eu já tinha ((risos)). (ENTREVISTADO 6)

O senhor está falando em Direitos Humanos em uma comunidade (sic) que me obriga a levantar SEIS horas e a trabalhar. Não sei onde... (ENTREVISTADO 4).

O poder ostensivo causa opressão e acaba por gerar medo de punição ou revolta frente à vigília (FOUCAULT, 1987). O trabalho surge então em todas as falas e silêncios como um obstáculo diário a ser vencido, além da insatisfação gerada pela imposição, pela ausência de alteridade e pela vigilância ostensiva.

6.3.3 Rotina e manifestações religiosas nas dependências da Clínica