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2.1 ORIGEM DO DOCUMENTO

2.1.3 Sínodo dos Bispos de 2012

O Papa Bento XVI anunciou, no término da Assembleia Especial para o Oriente

Médio, o Sínodo dos Bispos que se realizaria de 7 a 28 de outubro de 2012, com o tema “A

nova evangelização para a transmissão da fé cristã”.

A convocação dessa assembleia ocorreu num momento significativo para a Igreja Católica, pois durante sua realização foram comemorados o quinquagésimo aniversário da abertura do Concílio Vaticano II, o vigésimo aniversário da publicação do Catecismo da

Igreja Católica, e a abertura do “Ano da Fé”, proclamado pelo Papa Bento XVI.178

Todos os pareceres e as reflexões alcançados foram recolhidos e sintetizados no

Instrumentum Laboris, em quatro capítulos. O primeiro capítulo é dedicado à redescoberta do

coração da evangelização, ou da experiência da fé cristã: encontro com Jesus Cristo; o segundo capítulo desenvolve uma reflexão sobre as transformações que interessam à forma de viver a fé, que influenciam as comunidades e o conceito de nova evangelização; no terceiro capítulo é feita uma análise dos lugares fundamentais em que a fé cristã é transmitida: na liturgia, na catequese e na caridade. O último capítulo aborda os setores da ação pastoral especificamente dedicados ao anúncio do Evangelho.179 No final da assembleia, os bispos sinodais elaboraram uma mensagem dirigida à Igreja.

Destacou ela que, como Jesus junto ao poço de Sicar, a Igreja em nossos dias se sente

obrigada a sentar ao lado de homens e mulheres. Insistiu que “a nova evangelização responde

a uma pergunta que a Igreja deve ter coragem de se colocar, para ousar um recomeço da sua

178 SÍNODO DOS BISPOS. XIII Assembleia Geral Ordinária. A nova evangelização para a transmissão da fé

cristã. Instrumento Laboris, n. 2, 2012.

vocação espiritual e missionária”.180 Não se trata de uma questão de começar de novo, mas

“de entrar no longo caminho do anúncio do Evangelho a coragem apostólica de Paulo, que iria tão longe a ponto de dizer: ‘Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho’ (1 Cor 9,16)”.181

Constatou que os cenários social, cultural, econômico e religioso mudaram e exigem algo novo: viver a nossa experiência comunitária de fé de uma maneira renovada, anunciando-a através

de uma evangelização que é “nova em ardor, em seus métodos, em suas expressões”.182

Afirmou que “toda pessoa tem o direito de ouvir o Evangelho de Deus para o homem, que é Jesus Cristo” e sugeriu que “toda atividade da Igreja tenha uma marca evangelizadora essencial e nunca deva ser separada do compromisso de a todos ajudar a encontrar Cristo na fé”.183

Convidou-nos a não nos assustarmos com os fenômenos da globalização, mas torná- los uma oportunidade de ampliar a presença do Evangelho.

Dentre os agentes da transmissão da fé, foi dado amplo destaque à figura da família, dada a sua capacidade profética de viver os valores fundamentais da experiência cristã:

“dignidade e complementariedade do homem e da mulher, criados à imagem e semelhança de

Deus (cf. Gn 1,27), abertura à vida, partilha e comunhão, [...] atenção à educação, confiança

em Deus, fonte do amor que os une”.184

Tratou do papel da paróquia que surge, acima de tudo, como presença da Igreja, em que homens e mulheres vivem “a fonte da aldeia”, como João XXIII gostava de chamá-lo.185 Faz-se necessário, portanto, “uma revisão do programa pastoral e o estabelecimento de uma cooperação para uma Igreja particular mais comunitária”.186

Recordou, também, que a doutrina social da Igreja é parte integrante dos caminhos da nova evangelização.

Um dos redatores da mensagem final do sínodo, Dom Sérgio da Rocha, Arcebispo de Brasília (DF), divulgou um resumo da mensagem que focou em três grandes pontos: a ênfase

180 SÍNODO DOS BISPOS. XIII Assembleia Geral Ordinária. A nova evangelização para a transmissão da fé

cristã. Instrumento Laboris, n. 46. São Paulo: Paulinas, 2012.

181 LIMA, L. A. Íntegra da mensagem final do sínodo. Disponível em: <http: www.cnbb.org.br/imprensa/noticias/1

0747-integra-da-mensagem-final-do-sinodo>. Acesso em: 11 jul. 2014.

182 JOÃO PAULO II. Discurso de Abertura da XIX Assembléia do CELAM, Porto Príncipe. Disponível em:

<www.vatican.va/...ii/.../1983/.../hf_ip-_spe_19830309_assemblea-celam_po.html>. Acesso em: 01 set. 2014.

183 SÍNODO DOS BISPOS. XIII Assembleia Geral Ordinária. A nova evangelização para a transmissão da fé

cristã. Instrumentum Laboris, n. 34. São Paulo: Paulinas, 2012.

184 Id.

185 LIMA, op. cit.

186 SÍNODO DOS BISPOS. Assembleia Geral Ordinária. A nova evangelização para a transmissão da fé cristã.

no encontro com Jesus Cristo; a missão da Igreja; e a novidade de ter uma palavra específica para cada continente.187

Para Rocha os temas refletem a relevância, a amplitude e a complexidade do tema geral; sublinhou alguns deles e que receberam nova acentuação, dentre outros: o reconhecimento do “ministério” do catequista; a ordem dos sacramentos de iniciação cristã

em perspectiva pastoral; a “via da beleza” como caminho de evangelização; a “conversão pastoral” segundo o espírito de Aparecida; o papel dos teólogos na nova evangelização.188

Nicolás, padre-geral dos jesuítas, participante do sínodo, fez uma sucinta análise da assembleia, apresentando alguns aspectos positivos em três categorias e outros insuficientes. Dentre os aspectos positivos foram citados:

a) contribuições geográficas. Os bispos de países como do Oriente Médio, da África ou da Ásia, tiveram a possibilidade de apresentar o sofrimento de seus povos. A possibilidade de troca de experiências e pensamento;

b) o envolvimento de leigos e de movimentos, de maneira comprometida, nos projetos de cooperação, trabalho em rede e intercâmbio em nível internacional; e c) reflexões sobre os fundamentos, as dimensões e o significado da nova

evangelização.

Dentre os aspectos considerados insuficientes, foram elencados:

a) trata-se de um Sínodo de Bispos, não havendo espaço nem voz para o Povo de Deus. Os leigos, especialistas e observadores (auditores) não tiveram espaço;

b) era uma reunião de “homens da Igreja, que reafirmavam a Igreja”, havendo o perigo de produzir sempre a mesma coisa;

c) falta de reflexão sobre a Primeira Evangelização. A história passada tem muito a ensinar acerca de aspectos positivos e negativos;

d) a vida religiosa foi praticamente ignorada; e

187 ROCHA, S. Bispo que ajudou a escrever mensagem do sínodo dá detalhes do texto. 27 de outubro de 2012.

Disponível em: <https: novaevangelização.wordpress.com/category/sínodo-dos-bispos-2/>. Acesso em: 23 jul. 2014.

188 ROCHA, S. Sínodo dos Bispos: como terminou? 29 de outubro de 2013. Disponível em: <http://www.cnbb.o

e) o aspecto mais fraco do sínodo foi a metodologia seguida.189

No decorrer do mesmo, sobre a nova evangelização, prevaleceram acentos autocríticos por parte de vários bispos sinodais. Dom Rino Fisichela, presidente do Pontifício Conselho

para a Nova Evangelização, disse: “Encerramo-nos em nós mesmos. Mostramos uma

autossuficiência que impede que nos aproximemos como uma comunidade viva e fecunda,

que gera vocações, de tanto que burocratizamos a vida de fé e sacramental”.190

O arcebispo filipino Sócrates Villegas foi mais duro: “Por que no mundo há uma forte

onda de secularização [...] e simplesmente indiferença com relação à Igreja? O Evangelho não

pode prosperar no orgulho”.191Acrescentando: “A evangelização foi ferida e continua sendo obstaculizada pela arrogância dos seus agentes. A hierarquia deve punir aqueles que erram

entre nós”.192

Timothy Dolan, presidente da Conferência dos Bispos dos EUA, considerou: “o que

há de errado com o mundo? [...] Como escreveu Chesterton, ‘a resposta à pergunta o que dá de errado no mundo’ são duas palavras: sou eu”.193

Após o sínodo, Suess, em suas críticas, argumentou que

é sabido que o trabalho do Vaticano II começou com a rejeição dos instrumentos de trabalho preparados pela Cúria Romana. Os Sínodos representam a recuperação metodológica pré-concilar. Roma prepara um texto e envia às Igrejas locais. Essas opinam. Roma resume e filtra os textos enviados pelas bases diocesanas e faz um documento ou toma uma decisão.194

No final de seu artigo, considerou que no “retrovisor histórico pode-se dizer que a XIII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos foi uma assembléia ad intra, de uma Igreja em busca de sua identidade no passado”195 Parece que não precisamos mudar nada, “basicamente, a

189 NICOLÁS, A. Sínodo sobre a nova evangelização: luzes e sombras. Entrevista com Adolfo Nicolás em 28 de

outubro de 2013. Disponível em: <http://www.unisinos.br/noticias/515073-sinodo-sobre-a-nova-evangelização- luzes-e-sombras-entrevista....>. Acesso em: 26 jul. 2014.

190 ANSALDO, M. O mea culpa dos bispos no Sínodo. Jornal La Repubblica, 12 de outubro de 2012.

Disponível em: <http:www.ihu. unisinos.br/noticias/514518-o-mea-culpa-dos-bispos-no-sinodo>. Acesso em: 26 jul. 2014.

191 Ibid. 192 Id. 193 Id.

194 SUESS, P. A nova evangelização blindada pelo Catecismo Universal: proposições do Sínodo sobre evangelização e

transmissão da fé. Disponível em: <file:///C:/User/AppData/Local/Temp/Low/9AE4U6ZV.htm>. Acesso em: 23 jul. 2012.

paróquia missionária é a solução”.196 Questiona, então, se não precisamos mudar o rumo.