3 A CAMINHADA METODOLÓGICA
4.2 As práticas pedagógicas da Educação Infantil Indígena: ações e intenções
4.2.6 Saberes profissionais e da experiência das professoras
Com o objetivo de mapearmos as práticas pedagógicas que se processam na Educação Infantil Indígena no contexto da comunidade Pitaguary, julgamos importante primeiramente trazermos dados mais específicos das professoras pesquisadas mais diretamente. Nesse sentido, os questionários revelaram, na trajetória das duas, pontos em comuns, mas também diferenças que se refletem no modo de conceber e viver a educação
infantil com as crianças. Lembrando que P1 refere-se à professora que atua na turma de creche (2 anos); e P2 a que está na turma de Pré II (5 anos).
Para o estudo, Tardif (2011) torna-se relevante ao trazer, na produção denominada Saberes Docentes e Formação Profissional as especificidades dos saberes docentes nas quatro categorias: os saberes da formação profissional; os saberes das disciplinas; os saberes curriculares; e os saberes da experiência. As questões analisadas no questionário trazem com maior ênfase discussões referentes ao saberes da formação profissional, ao revelar dados sobre a formação inicial e continuada, tempo de docência e da experiência, ao refletir questões como a relação das professoras com a cultura local.
Assim, no que se refere às questões sobre o perfil, constatamos que a P1 é uma professora com idade entre 31 e 40 anos; com religião não definida, explicitando estar “em processo de descoberta religiosa”; e se declarando indígena, com residência dentro da reserva indígena pesquisada. A P2, também apresenta a mesma faixa etária; em relação à religião, declara-se evangélica; também indígena, mas com residência fora da comunidade povo Pitaguary.
Os dados revelaram duas professoras jovens. Ambas se definindo indígenas, mas se diferenciando na localidade da residência. Esse dado é relevante, pois acreditamos que residir dentro da comunidade, implica uma relação mais direta e cotidiana com a cultura pesquisada.
No que se refere à religião temos uma evangélica e outra que não apresenta uma religião específica, mas nos revela sua preocupação com essa dimensão do ser, ao escrever que se encontra em um processo de descoberta. Mesmo o ambiente escolar sendo um espaço laico, principalmente nesse contexto, no qual o sagrado e a espiritualidade são elementos importantes da cultura indígena, a atitude do professor deve ser de respeito e valorização da diversidade religiosa. Sobre esse aspecto Ribeiro (2007) nos alerta que “[...] é insuficiente reconhecer a diversidade, não basta perceber as diferenças, mas é preciso respeitá-las, respeitando o diferente. Neste sentido a escola tem deixado a desejar” (p. 213).
Assim, a atuação dos profissionais, muitas vezes é influenciada por sua vivência religiosa. Entendemos que as práticas pedagógicas não são neutras, como afirma Freire (1996) à educação é um ato político. Dessa forma, no processo de planejamento, ação e avaliação do fazer pedagógico, o professor, banhado por sua experiência de vida, seu processo formativo e suas vivências do cotidiano, recebe influências dessas dimensões. Assim, a concepção religiosa, a identidade racial e a relação com a cultura são aspectos que influenciam diretamente na prática pedagógicas desses professores e na articulação dessas com a cultura
do povo.
Assim, outros dados que são fundamentais na escolha das práticas pedagógicas é o tempo de docência da professora na escola e na Educação Infantil. Sobre isso P1 revela que atua na escola há 2 anos e, especificamente na EI, há 1 ano e 6 meses. P2 já apresenta um tempo maior de docência, mas pouca vivência exclusiva na EI, estando na escola há 5 anos e, especificamente na EI, há 1 ano. Para uma maior compreensão do perfil dessas professoras, a entrevista trouxe como primeira indagação a relação delas com a comunidade e a escola pesquisada. Dessa maneira, as respostas afirmaram e aprofundaram aspectos descritos no questionário. Vejamos:
Minha família toda era daqui., na minha infância eu vinha para cá e está com dezesseis anos que a gente se mudou para dentro da aldeia. Sobre minha relação com a comunidade, posso dizer que eu conheço as pessoas, não dá para se relacionar com todo mundo muito bem por conta das questões políticas, a gente tem aquele grupo que se identifica mais e tal. E na escola, fez dois anos, este ano, que eu estou aqui. Eu entrei primeiro no 1º e 2º ano e depois no mês de abril do ano passado me colocaram para a educação infantil, nas turmas de Pré I e Pré II, não me identifiquei muito com estas turmas, principalmente Pré II. Além do processo de adaptação com a escola e tudo, achei muito pesado (P1).
Estou como professora da escola do povo Pitaguari faz 6 anos. Eu entrei na escola em 2014, mas só agora, este ano, que estou atuando na educação infantil, eu era do fundamental I e II. Mas durante o processo de 2014 a 2018 estive 3 anos atuando na coordenação pedagógica da escola [...] Todos os professores da escola são indígenas, a gente chama os aldeados, que são os que moram na comunidade e os desaldeados que estão fora. No meu caso eu estou fora, só quem mora na aldeia é o meu pai. Então eu sou desaldeiada (P2).
A partir do diálogo foi possível observar que a professora P1 apresenta uma relação de maior tempo com os espaços da comunidade, trazendo desde a lembrança da infância até sua relação atual como indígena aldeada. Diferente de P2, que é desaldeada, com relação estabelecida através da moradia dos pais. No entanto, P2 já traz um maior tempo de convívio com o ambiente escolar pesquisado, tendo assumido cargo de gestão e sala de aula, bem como um maior tempo de docência. Nesse processo, julgamos que as duas relações, tanto da escola com o professor, como da comunidade com o professor são fundantes para que o profissional estabeleça uma conexão da sua prática com a cultura. Dessa maneira, uma das professoras, ainda, na tentativa de estabelecer sua relação com a escola, nos relatou:
Nós trabalhamos aqui, não diferente das outras escolas, mas aqui o foco é maior em relação a comunidade. Porque a comunidade do povo Pitaguari está muito presente na escola, mas não tão positivamente, ela [a comunidade] vem nas questões de querer algo para si, mais em benefício próprio mesmo, algumas vezes não pensa nas crianças. Aí a gente precisa fazer esse trabalho, mostrando que primeiro vem o
aluno, primeiro a comunidade tem que brigar pelos direitos do aluno e a gente faz de tudo para que os pais entendam, para que os pais sejam parceiros da escola… A gente vê as vivências dos meninos não como crianças, não como crianças bem pequenas, às vezes eles se tornam até adolescentes com responsabilidades, pela fala, pelo relato e tratamento dos pais com as crianças. A gente [professores] prioriza muito em conversa com a gestão para que nas reuniões dos pais seja dito: brinque com o seu filho, respeite o seu filho... A maioria dos pais não tem o ensino fundamental completo, então o tratamento com as crianças é bem complicado, são bem grosseiros mesmo. E aí a gente trabalha nessa perspectiva de renovação dos valores, porque os pais são jovens e os valores vão se perdendo (P 2).
Com isso, evidenciamos que as experiências de vida e saberes advindos da profissão docente influenciam diretamente na definição de suas práticas pedagógicas. Assim, a visão que a professora expressa da influência da comunidade no ambiente escolar, da relação pessoal estabelecida com as vivências dessa comunidade, assim como o tempo de docência, são aspectos que constituem a constituem e definem muitas das suas práticas.