3 OS “PALAVRÕES” INTERSETORIALIDADE, DESCENTRALIZAÇÃO E
4.2 MINISTÉRIO DO ESPORTE E OS ORDENAMENTOS LEGAIS
4.2.4 Secretaria-Executiva do Ministério do Esporte
À Secretaria-Executiva foi criada em 2003 e tem como objetivo supervisionar e coordenar as atividades dos sistemas federais, planejamento, orçamento, organização e inovação institucional. Além disso, compete também implementar a política de desenvolvimento do esporte e de sua infraestrutura. As principais ações políticas da instituição são: Rede Cedes; Cedime (Centro de Documentação e Informação do Ministério do Esporte); Conferência Nacional do Esporte; Lei de Incentivo ao Esporte; Praça da Juventude; e Praças do PAC (TABELA 4) (BRASIL, 2011b).
Tabela 4 - Políticas da Secretaria Executiva Políticas da
Secretaria-Executiva
Objetivo/público-alvo Características
Rede Cedes Fomentar pesquisas científicas e tecnológicas para o desenvolvimento do esporte e do lazer
Criado em 2003, integra o PELC e articula com as Instituições de Ensino Superior na busca da continuidade na produção e difusão de conhecimentos voltados para o aperfeiçoamento e qualificação de projetos, programas e políticas públicas. O programa envolve centros de memória e museus, periódicos e repositório da
Rede Cedes. Cedime (Centro de Documentação e Informação do Ministério do Esporte) Fomentar centros de memória e museus que têm a função de digitalização, catalogação, preservação, restauração, conservação e disponibilização dos acervos.
Apoia os registros e difusão das publicações; publicação que contribua com o desenvolvimento científico, tecnológico e pedagógico das políticas públicas; e repositório da Rede Cedes, que funciona como espaço para preservação da produção na forma digital, garantindo a visibilidade e acesso.
Conferência Nacional do Esporte
Criar espaços democráticos em busca da legitimação do esporte e do lazer como direitos sociais.
Foram realizadas três conferências no Brasil: I Conferência Nacional do Esporte (CNE) realizada em 2004; a II CNE em 2006; e a III CNE em 2010.
Lei de Incentivo ao Esporte52
Estimular a prática esportiva entre crianças, adolescentes, jovens e adultos.
Criada na II CNE, por intermédio da lei n. 11.438/06, estabelecendo benefícios ficais para pessoas jurídicas ou físicas que estimulem o desenvolvimento do esporte nacional. A lei é voltada para clubes, federações, associações de pessoas jurídicas, com o objetivo de estimular a prática esportiva entre crianças, adolescentes, jovens e adultos. A instituição deverá atender aos seguintes requisitos para a contemplação do incentivo ao esporte: a) fins não econômicos; b) natureza esportiva; e c) um ano de funcionamento.
Praça da Juventude Levar um equipamento esportivo público e qualificado para comunidades com alto índice de exposição à violência, com o intuito de democratização e inclusão social.
Criado em 2007, as praças contam com quadra poliesportiva coberta, pistas de corrida e caminhada (salto triplo, salto a distância), campo de futebol, quadra de vôlei de praia, pista de skate, teatro, área de ginástica e centros de convivência geral e da terceira idade. As praças são classificadas como veículo para a democratização dos espaços e equipamentos para a prática de esporte e lazer, em parceria com o Ministério da Justiça. Cada praça custa em média R$ 1,7 milhão.
Praças do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)
Atender as regiões com alto índice populacional e de baixa renda, oferecendo acesso a atividades e serviços diversificados. O projeto tem a intenção de realizar uma estratégia de gestão compartilhada, contribuindo assim para o crescimento do capital humano e social.
São três modelos de praças e dimensões: 1. Praça de 700 m² (praça coberta; pista de skate; equipamentos de ginástica; Centro de Referência de Assistência Social (CRAS); salas de aula; salas de oficina; telecentro; sala de reunião, biblioteca; cineteatro/auditório com 48 lugares, e terraço); 2. Praça de 3.000 m² (CRAS); salas multiuso; biblioteca; telecentro; cineteatro/auditório com 60 lugares; quadra poliesportiva coberta; pista de skate; equipamentos de ginástica; playground e pista de caminhada); e 3. Praça de 7.000m² (CRAS; salas multiuso; biblioteca com telecentro; cineteatro com 125 lugares; pista de skate, equipamentos de ginástica; playground; quadra poliesportiva coberta; quadra de areia; jogos de mesa e pista de caminhada).
Fonte: Ministério do Esporte (2011)
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52 Em 2006 o governo cria a Lei de Incentivo ao Esporte, que garantiu R$ 300 milhões disponível para captação
Dentre as ações da Secretaria Executiva, merece destaque a Rede Cedes, que representa um avanço no campo da gestão pública, já que induz a produção e a disseminação de conhecimento em direção aos estados e municípios, com foco no aperfeiçoamento e desenvolvimento das políticas públicas de esporte e lazer. O programa conta com um acervo amplo, que serve de suporte para o avanço da ciência e troca de experiências entre gestões estaduais e municipais.
A Conferência Nacional de Esporte também representou um avanço nas políticas públicas de esporte e lazer no Brasil. Na I CNE foi criado um documento sobre a Política Nacional do Esporte e Lazer, que contemplou os campos como direitos sociais que interessam à sociedade, sendo passíveis de legitimação e de serem tratados como questões de Estado, ao qual cabe a promoção de sua democratização (BRASIL, 2005).
O Ministério do Esporte em 2004, por meio da I CNE estabeleceu como ações fundamentais:
Realizar diagnóstico da estrutura esportiva e de lazer e propor ações articuladas entre os diversos níveis da administração pública e ou em articulação com a iniciativa privada e organizações da sociedade civil, para construção, modernização, revitalização, preservação, otimização e maximização de espaços e equipamentos para o esporte e lazer com segurança e qualidade, visando o interesse e necessidades da população, contemplando a acessibilidade de pessoas com deficiência e pessoas com necessidades especiais, idosas e idosos, flexibilidade de horários e utilização, descentralização e desconcentração dos espaços e equipamentos públicos e privados, tais como escolas, passeios, parques, ginásios, entidades esportivas, sem fins lucrativos e/ou econômicos, estádios, creches e universidades, instituições de longa permanência, priorizando comunidades com populações em situação de vulnerabilidade ou exclusão social (BRASIL, 2004).
Na I CNE a intersetorialidade é proposta para os diversos níveis da administração pública, no entanto, não existem objetivos concretos que integram outras áreas das políticas públicas, dos quais entendem o ser humano e a sociedade de forma integrada.
Na II CNE foi proposta uma nova estruturação do Sistema Nacional de Esporte e Lazer, com a intenção de unificar as ações de desenvolvimento dos setores, cujo objetivo central foi consolidar os campos como direitos sociais, e continuar as conquistas da primeira edição realizada em 2004. A II CNE tem como marco a conquista da Lei de Incentivo ao Esporte e a busca por qualificação do debate sobre as propostas apresentadas, garantindo a construção de um sistema eficaz, democrático e participativo (BRASIL, 2006).
O Ministério do Esporte em 2006 por meio da II CNE apresentou como proposta na plenária final:
Incentivar, apoiar e financiar políticas públicas descentralizadas e desconcentradas, que promovam a produção de conhecimento e estudos científicos visando o
desenvolvimento do lazer, da Educação Física e do esporte em suas diversas manifestações. Essas políticas deverão contemplar a iniciação científica, a criação e manutenção da infraestrutura e modernização de equipamentos para o desenvolvimento de centros, núcleos e grupos de pesquisa, preferencialmente em universidades (BRASIL, 2006).
Dessa forma, a descentralização e a intersetorialidade na II CNE são valorizadas no desenvolvimento e democratização das ações políticas, articula as parcerias entre as entidades da sociedade civil, instituições públicas e setor privado. Com o objetivo de ampliar o debate acerca do tema, desde a elaboração dos textos que servirão de suporte para as discussões nas etapas da II CNE, o Ministério do Esporte realizou, em outubro de 2005, o I Fórum do Sistema Nacional de Esporte e Lazer, reunindo representantes do esporte nacional com experiências diferenciadas, procurando contemplar o esporte em todas as suas dimensões.
Terra et al. (2009) ao analisarem a I e a II CNE asseguraram que ainda não existe um modelo social e político que reconheça o esporte e o lazer como direitos sociais, apenas um discurso falacioso que entende os campos como funcionais e remediador de problemas sociais. As “Conferências” se configuraram como forma de descentralização das discussões acerca das políticas públicas, no entanto, na prática ocorreu a centralização na tomada de decisões no âmbito municipal, estatal e nacional. Na II CNE foi destacada ainda uma possível desobrigação do Estado na garantia do direito ao lazer, buscando transferi essa responsabilidade para esfera do mercado. A desobrigação do Estado aparece dentro de um projeto neoliberal, entendendo que o Estado deve focar o projeto econômico.
Na III CNE foi elaborado o Plano Decenal do Esporte, que estabeleceu linhas estratégicas, ações, metas e compromissos em prol do desenvolvimento do esporte nos anos seguintes. A conferência teve como objetivo tornar o país uma potência esportiva mundial, uma vez que o Brasil sediará os principais megaeventos esportivos. Segundo o Ministério do Esporte participaram do processo de construção da conferência cerca de 220 mil pessoas em etapas municipais e estaduais, cujo tema central foi “Por um time chamado Brasil”, já que o país sediará a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. O objetivo central definido nessa conferência foi o de tornar o país uma potência esportiva mundial (BRASIL, 2011).
Ao elaborar o Plano Decenal do Esporte na III CNE é visível a preocupação do Ministério do Esporte com o crescimento e desenvolvimento do esporte de rendimento, com o intuito de tornar o Brasil uma potência esportiva mundial como forma de melhoramento da imagem do País. Foi possível verificar a fragilidade da participação da sociedade civil nas
decisões políticas, que não participou do processo de decisão, apenas da discussão. Foi perceptível, ainda, o distanciamento entre o que é debatido nas conferências e o que é implementado pelo governo federal.
Bonalume (2010) destacou que as conferências apontam para uma política intersetorial envolvendo os ministérios, as secretarias estaduais e municipais do esporte, da saúde, da educação, da cultura, meio ambiente, turismo, dentre outras. Nas conferências são destacadas como ação intersetorial o “Sistema Nacional de Esporte e Lazer”, tendo por base o regimento de colaboração entre União, estados e municípios. No entanto, a ação intersetorial e descentralização não tem conseguido distribuir o poder para os setores periféricos, uma vez que o processo decisório continua centralizado na sociedade política, como se verificou em Santos e Avritzer (2002), nas experiências do OP no Brasil.
Após apresentar as ações, projetos e programas do Ministério do Esporte ficaram evidentes os avanços e às tentativas de inovação na gestão pública. O setor tem desenvolvido ações que buscam garantir acesso a espaços e equipamentos de esporte e lazer, programas e projetos que buscam atender as três dimensões do esporte (educacional, participativo e rendimento), e tem implementado ações com foco na formação dos agentes sociais de esporte e lazer, como relatado no PELC.
No entanto, as ações esbarram em várias limitações, como: a dificuldade de obter recursos para a construção dos espaços e equipamentos, visto que o orçamento para os setores é o menor em comparação com outras políticas sociais; as ações políticas de esporte e lazer no Brasil desde os anos de 1940 têm focado hegemonicamente o esporte de rendimento, sendo secundário o desenvolvimento de políticas com foco na educação e garantia dos direitos sociais; e a formação dos agentes sociais de esporte e lazer é um problema para o desenvolvimento do campo, uma vez que os gestores na maioria das vezes não têm formação para atuar no setor.
Após a criação do Ministério do Esporte em 2003, foram verificadas duas correntes que atuaram na gestão pública: uma progressista e a outra tradicional. No primeiro mandato do presidente Luís Inácio Lula da Silva foi perceptível à atuação de uma corrente progressista, que criou programas com foco no esporte educacional (Segundo Tempo) e no esporte participação (PELC), buscando a criação de um Sistema Nacional de Esporte e Lazer, e novos canais de participação que permitissem a participação da sociedade civil, como no caso das conferências. No segundo mandado do presidente Luís Inácio Lula da Silva e início do mandato de Dilma Rousseff, o esporte e o lazer tenderam a uma corrente tradicional, com
consolidação da agenda dos megaeventos esportivos e na desobrigação do Estado com os direitos sociais.
Além disso, grande parte das ações, projetos e programas desenvolvidos pelo Ministério do Esporte desde 2003 se configuraram como políticas sociais, na tentativa da minimização das desigualdades, em contrapartida, não existem indicadores sociais que comprovem impactos sociais de minimização das desigualdades e acesso ao direito. Ao priorizar políticas sociais focalizadas, o Ministério do Esporte tem produzido o sujeito vulnerável, criando um estigma de uma condição social, ou de sujeitos que necessitam da proteção social.
As ações políticas do Ministério do Esporte têm concentrado, predominantemente, os jovens e adolescentes do gênero masculino e pertencentes das classes ditas em vulnerabilidade social, com destaque para os programas PELC e Segundo Tempo. Esse aspecto merece mais pesquisas, que investigue se o Estado tem utilizado de técnicas de coerção, ao propor uma política focalizada, de ocupação do tempo livre dos jovens, compreendendo o tempo livre dessa faixa etária como um “risco” para a sociedade.
Para finalizar o capítulo, longe de encerrar a discussão, pelo contrário, com o objetivo de gerar ainda mais debates, lanço o desafio de reflexão acerca das políticas públicas e sociais desenvolvidas pelo Ministério do esporte a partir dos seguintes questionamentos: o modelo de ação política desenvolvido pelo Ministério do Esporte tem minimizado as desigualdades sociais e garantido o acesso universal do acesso ao esporte e ao lazer? O Ministério do Esporte, ao focar em políticas sociais para as pessoas em situação de vulnerabilidade social fere o princípio universal dos direitos? Ao propor um modelo descentralizado e intersetorial, o Ministério do Esporte tem reforçado e se adequado as estratégias neoliberais, de desobrigação dos direitos sociais, com o discurso voltado para a retórica da participação, sem garantir a educação da sociedade civil?