RMDE 253 4.4.1 P RINCÍPIOS E ESTRUTURA DO MODELO DE PRODUÇÃO DAS SÍNTESES INFORMATIVAS
5 RMDE: ENTRE OS MODELOS EM USO E O MODELO EXPOSTO
2.3 Da segunda parte do estudo
A segunda fase empírica do nosso estudo decorreu entre Novembro de 2004 e Outubro de 2005. Esta etapa da investigação foi norteada por três grandes questões de partida, orientadas para a compreensão dos factores envolvidos na implementação do modelo de agregação de dados de enfermagem e ainda, para a exploração da diversidade das necessidades e resultados de enfermagem nos diferentes grupos de clientes.
Em termos metodológicos, para além de recorrermos a dispositivos semelhantes àqueles que estudos anteriores na área utilizaram (Goossen, 2000b; Turtiainen et al., 2001), como é o caso de um desenho exploratório, de perfil quantitativo, mantivemos em funcionamento o grupo de discussão, bem como as sessões e reuniões nos diferentes centros de saúde e serviços hospitalares. Isto porque, na linha daquilo que é o paradigma que iluminou todo este trajecto, interessava-nos compreender em profundidade, na
perspectiva dos envolvidos e para além dos meros procedimentos de análise estatística, os elementos e factores intervenientes no processo de implementação do modelo de agregação de dados de enfermagem entretanto definido.
2.3.1 Objectivos
À semelhança daquilo que aconteceu na primeira fase do estudo, os objectivos que a apontamos para esta etapa da investigação guardam uma estreita relação com as questões de partida que apresentamos anteriormente. Assim, tivemos como objectivos para a segunda fase da investigação:
• Explorar os factores intervenientes no processo de implementação do modelo de agregação de dados de enfermagem;
• Descrever a diversidade das necessidades, intervenções e resultados de enfermagem nos diferentes grupos de clientes;
• Explorar as relações que possam existir entre os resultados de enfermagem e elementos do processo de cuidados, como as intervenções realizadas;
• Discutir o impacte que a informação gerada a partir do modelo de agregação de dados pode ter à escala das unidades de cuidados.
Este conjunto de objectivos constitui a declaração do rumo que a segunda fase da nossa investigação seguiu.
2.3.2 Implementação do modelo de RMDE
A implementação de um modelo de agregação de dados de enfermagem, tendo por base um RMDE, exige a criação e consolidação de um conjunto de condições para a recolha sistemática de dados, com requisitos de confiança e comparabilidade. Daqui decorre a necessidade de envolvimento e interacção do investigador com os diferentes contextos de acção dos cuidados, o que retira esta fase da investigação da simples análise “laboratorial” dos dados. Contudo, para a construção de um discurso sólido de resposta às questões de partida deste estudo, aquela análise tem que ser realizada. Por um lado, para atestarmos a funcionalidade do modelo e, por outro, porque as expectativas dos envolvidos na sua construção passam pelo contacto efectivo com o “produto” final.
2.3.3 Recolha de dados
Dentro do paradigma que sustenta esta investigação e na linha do que aconteceu na primeira parte do estudo, esta segunda fase do trabalho manteve a triangulação de métodos, quer de perfil quantitativo – O estudo Exploratório -, quer de cariz qualitativo – O Grupo de discussão.
2.3.3.1 O Estudo Exploratório
Discutimos anteriormente que o facto da inclusão de dados quantitativos, bem como de estratégias para a sua recolha e análise com o mesmo perfil, em nada vem colocar em causa a natureza paradigmática dos estudos construtivistas. A complementaridade das abordagens e o potencial que, neste caso, a utilização de estratégias quantitativas pode ter para o refinamento e reconhecimento da utilidade do modelo de agregação de dados de enfermagem, por parte dos potenciais utilizadores, constitui uma mais-valia que não deve ser desperdiçada.
A utilidade dos estudos exploratórios para os processos de refinamento e implementação de modelos de agregação de dados de enfermagem é atestada pela sua utilização nos últimos anos, por vários autores (Coenen et al., 1999; Evers et al., 2000; Goossen et al., 2001; Turtiainen et al., 2001; Park et al., 2004; Dochterman et al., 2005). Este tipo de pesquisas, reconhecendo que ainda é limitado aquilo que se sabe acerca dos fenómenos em estudo, visa obter mais informação sobre as características dos diferentes grupos de clientes em relação a vários aspectos dos cuidados, como os diagnósticos e intervenções de enfermagem.
Os desenhos dos estudos exploratórios que referimos, realizados com base na documentação de um RMDE e sem interferência dos investigadores nos dados, não implicaram controlo de variáveis, não partiram de hipóteses, nem visaram a sua testagem. Procuram antes a exploração e descrição dos eventos e, a partir daí, vislumbrar questões que mereçam estudo mais profundo. O estudo exploratório que utilizamos nesta segunda fase da investigação foi orientado pelos mesmos princípios, o que está de acordo com aquilo que a literatura caracteriza como desenhos exploratórios (Judd et al., 1991; Polit & Hungler, 1995; Fortin, 1999).
Admitimos que os resultados do estudo exploratório podem ter um alto significado para compreensão do processo de implementação do modelo de agregação de dados de enfermagem. Mas, para além disso, podem informar-nos sobre elementos que se constituem como centrais relativamente ao exercício profissional dos enfermeiros e, por força de razão, da enfermagem em uso. Na realidade, o conhecimento dos principais diagnósticos de enfermagem dos diferentes grupos de clientes, bem como das relações que se podem inferir entre as intervenções realizadas e os resultados obtidos, diz-nos muito sobre a substância da disciplina de enfermagem.
2.3.3.1.1 Universo e Amostra
Com a excepção do Hospital de S. Marcos de Braga, que por razões da sua política interna decidiu não colaborar na recolha dos dados para o estudo exploratório, todas as
unidades envolvidas na primeira parte do trabalho disponibilizaram dados para análise e tratamento.
A amostra incluída no estudo exploratório é constituída por 15363 episódios de internamento e 73265 utentes dos centros de saúde, e resulta da análise realizada aos dados documentados nos SIE, em uso nas diferentes unidades, no período compreendido entre 1 Março de 2005 e 31 de Outubro de 2005. Cada episódio de internamento hospitalar ou cada utente dos centros de saúde representam um e um só caso, na linha daquilo que é a lógica de organização da informação no âmbito da RIS. Quer isto dizer que, no caso dos centros de saúde, independentemente do número de contactos3 que cada utente tenha com os enfermeiros, esse utente só é contabilizado uma só vez na nossa amostra. Em relação à realidade hospitalar, é contabilizado cada um dos episódios de internamento. Isto quer dizer que, se um determinado cliente entre 1 de Março de 2005 e 31 de Outubro de 2005 teve mais do que um episódio de internamento, todos esses episódios são contabilizados, para efeitos da amostra. Esta lógica de análise dos dados decorre da organização da informação na RIS, a que já aludimos, e do modelo que foi ensaiado para a produção das sínteses informativas consideradas úteis, o qual será explicado detalhadamente no quarto capítulo desta dissertação.
2.3.3.1.2 Recolha e análise dos dados
A recolha do material para o estudo exploratório exigiu que os dados relativos aos diagnósticos, intervenções e resultados de enfermagem estivessem documentados com base na terminologia da CIPE®. Os restantes dados (i.e.: programas de saúde, diagnóstico médico, data de nascimento...) foram recolhidos de acordo com os protocolos em uso na RIS. Os serviços do IGIF – Norte constituíram o repositório de todo este material, devido à salvaguarda e protecção dos dados.
Para as unidades de cuidados que utilizavam SIE em suporte de papel, foi construída uma interface, dentro da estrutura da RIS, que permitia a introdução do conjunto mínimo de dados de enfermagem de cada unidade no mesmo repositório. Esta interface foi denominada pelos serviços do IGIF – Norte como SIDE (Sistema de Dados de Enfermagem). A necessidade de utilização do SIDE implicou a realização de várias sessões de formação aos enfermeiros das diferentes unidades de cuidados. Para as
3 O conceito de “contacto de enfermagem” está incorporado na estrutura do SIE em suporte
electrónico utilizado na RIS e pode ser entendido como um sinónimo de “consulta de enfermagem”. Pretende significar um encontro entre um cliente ou grupo de clientes com um enfermeiro, tendo em vista a prestação de cuidados de enfermagem.
unidades que tinham em uso SIE em suporte electrónico (i.e.: o SAPE), foi desenvolvido um conjunto de procedimentos de extracção dos dados das respectivas tabelas do sistema de informação, com recurso às linguagens apropriadas que suportam o sistema. O primeiro passo do processo de extracção dos dados para este estudo, teve por objectivo recodificar o identificador individual de cada caso, para que, após, não fosse mais possível associar nominalmente os dados à sua origem. A irreversibilidade deste passo foi um requisito que colocamos desde o início. Por outro lado, cada uma das unidades de cuidados teve que autorizar formalmente a extracção e tratamento destes dados (Anexo 3).
Após, o material coligido foi submetido a análise, tendo por base o modelo de agregação de dados de enfermagem desenvolvido, de forma a viabilizar a produção do painel de sínteses informativas consideradas úteis, relativamente ao exercício profissional dos enfermeiros.
2.3.3.2 O Grupo de Discussão
A exploração dos factores intervenientes no processo de implementação de um modelo de agregação de dados de enfermagem, e a discussão do seu impacte ao nível das unidades de cuidados, implica considerar as opiniões dos potenciais consumidores da informação que resulta do RMDE. Por tudo isto, consideramos fundamental a manutenção em funcionamento do grupo de discussão.
Os participantes e os procedimentos de recolha e análise dos dados associados a este dispositivo mantiveram-se inalterados, relativamente à primeira fase do estudo. Contudo, realizamos apenas três sessões com o grupo, as quais tiveram por objectivo fazer o acompanhamento do processo de implementação do modelo de agregação de dados e a discussão dos seus resultados. Para isso, agendamos os encontros para o final dos meses de Maio, Julho e Outubro de 2005.
2.3.3.3 As Notas de Campo
A segunda fase empírica do estudo implicou a realização de grande quantidade de trabalho de campo. Num primeiro momento (Outubro de 2004 – Março de 2005), vimo- nos envolvidos na consolidação das condições para a recolha sistemática, regular e comparável do RMDE. Após, durante todo o período de recolha dos dados, fomos frequentemente solicitados pelos diferentes serviços e centros de saúde (particularmente os que utilizavam SIE em suporte de papel) para acompanhar o processo e discutir as experiências dos enfermeiros. A exploração e discussão do impacte da informação gerada, a partir do modelo de dados desenvolvido, foram outra das tónicas do trabalho de campo, num processo permanente de interacção com todos os participantes e
enfermeiros dos serviços.
Neste cenário, a produção de notas de campo constituiu um dispositivo metodológico bastante útil para a documentação de todo este material. O formato, lógica de produção e análise utilizadas, como não podia deixar de ser, foi semelhante àquilo que foi descrito para a primeira fase do projecto.