2.3 A GRANDE SOMBRA
2.3.2 Sementes que se espalham
Este conjunto de textos o levou a dar diversas palestras e, tempos depois, foi publicado com o mesmo nome, agora como livro, em francês “Aujourd'hui le Boudhisme”. A partir de então, sua irradiação foi se expandindo mais e mais, até ele ir para a América, onde lecionou Budismo na Universidade de Columbia, semeando a ideia do ‘budismo que entra na vida”.
Ao voltar “para casa”, estabeleceu mais um celeiro para sementes férteis. Dessa vez, uma Universidade, a Van Hanh University. Pôde, então, compilar os artigos anteriores e lançar outro livro, o “Engaged Buddhism” (“Budismo Engajado”).
A partir de então, Thich Nhat Hanh não parou mais de escrever e de publicar seus livros, sempre direcionando os recursos para auxiliar as pessoas das quais ele e seu grupo cuidavam. No entanto, como fora banido justamente por ter chamado a atenção por sua atitude prática, amenizando os arroubos da guerra e pedindo a reconciliação entre o Norte e o Sul (HANH, 2008), não pôde mais publicar usando seu próprio nome, adotando alguns pseudônimos, tais como Bsu Danlu e Nguyen Lang.
Assim, a história do surgimento do termo Budismo aplicado consiste na mesma tecedura de crescimento e expansão das palavras desse monge no mundo. Sua vida, como ela se apresenta, tal qual o Budismo Engajado, é uma resposta ao momento presente, de modo que conceber a prática do Budismo aplicado é, necessariamente, compreender o que é Budismo no Vietnã, perceber que só se é budista na prática, ver Thich Nhat, tocar Buda e entender que o Budismo e a vida são uma coisa só.
O primeiro significado do Budismo Engajado é o tipo de Budismo que está presente em todos os momentos da nossa vida diária. Enquanto você escova os dentes, o budismo deve estar lá. [...] você dirige seu carro, [...] Deve estar lá. [...] Você está andando no supermercado, [...] Estar lá - para que você saiba o que comprar e o que não comprar! Além disso, [...] Sabedoria que responde a qualquer coisa que aconteça no aqui e no agora - aquecimento global, mudança climática, destruição do ecossistema, falta de comunicação, guerra, conflito, suicídio, divórcio. Como praticante de mindfulness, temos que estar conscientes do que está acontecendo em nosso corpo, nossos sentimentos, nossas emoções e nosso ambiente. Isso é Budismo Engajado (HANH, 2008, p. 32).
Foi em meio ao mar “agitado” (literalmente, como se segue) que Hanh presentificou palavras-sementes, as quais, até os dias atuais, e também ao longo do tempo, foram e serão semeadas. Palavras que contêm a força de uma vida, realizada no sincero desejo de encontrar a paz para iluminar a escuridão em tempos difíceis. Há aqueles mais céticos que se perguntam,
inclusive: como dizer se há verdade na atitude do outro? O que dizer de sua sinceridade? Pode- se inferir, sim, sendo cauteloso, pela força das coisas naturais. Há que se constatar que apenas uma atitude verdadeira desse teor, no momento histórico de tamanha treva, poderia iluminar e produzir tamanho efeito. Um outro dito popular poderia servir de argumento: “É pela obra que se conhece o construtor”.
Pode-se ver o poder das palavras de Hanh quando ele organizou um programa de resgate para refugiados, através do qual conseguiu valor suficiente para adquirir um navio que coubesse em torno de mil pessoas, além de navios menores para fazer a comunicação e a entrega de suprimentos e comida. Este programa teve o nome de May Chay Ruot Mem: “Quando o sangue é derramado todos nós sofremos”. Em cada passo, vê-se coerência nas suas atitudes, palavras e ações. Quando Thich Nhat Hanh fala de Interser, é disso que ele está falando, de que tudo e todos estão ligados, e ações que aliviam o sofrimento do próximo nada mais são do que cultivar a própria felicidade.
Assim como no episódio dito acima, em que o próprio Thay experimenta em si os efeitos dos ensinamentos do Buda, o mesmo aconteceu na madrugada em que teve de retirar em alto- mar cerca de 800 refugiados da Indochina, no Golfo Sião, e “conduzi-los em segurança” para a Austrália ou o Guam. Teve de fazer o “trabalho em segredo, uma vez que a maioria dos governantes mundiais da época não queriam reconhecer a situação dos barqueiros” e sabiam que iriam “ter muitos problemas” se fossem “descobertos” (HANH, 1995, p. 120).
Não tardou e outras adversidades começaram a surgir: a polícia de Cingapura recebeu ordens de ir à sua casa, confiscar seus documentos de viagem e ordenar que saísse do país em 24 horas. Não bastando, os barcos menores, com os materiais a serem entregues ao navio em que as pessoas estavam, foram impedidos de sair do porto. Além disso, o motor de uma das embarcações quebrou... Foi assim que, como um líder espiritual, Hanh mostrou o exemplo:
Naquela situação, cheguei à conclusão de que eu precisava praticar o tópico de meditação: “se você desejar a paz, a paz estará imediatamente em você”, e fiquei surpreso em perceber que estava bem calmo [...]. Não estava sendo negligente; encontrava-me num estado mental verdadeiramente tranquilo. E foi nesse estado mental que fui capaz de superar aquela difícil situação. Enquanto eu viver, jamais esquecerei aqueles segundos de meditação, minha respiração, meus passos, atentos durante aquele período de 24 horas. Se eu não encontrasse a paz no meio da dificuldade, eu jamais conheceria a verdadeira paz (HANH, 1995, p. 121-122).
Entre tantas frases-chave, pronunciadas e forjadas dentro de uma escolha consciente, o trecho acima foi feito em caracteres chineses, escrito numa luminária de papel e faz parte de inúmeros outros trabalhos de arte, poesia, contos e textos produzidos por ele, vendidos não só
com a finalidade de arrecadar fundos para os trabalhos sociais no período de guerra, mas, ainda hoje, para financiar diversos grupos cuja base de trabalho reside no Budismo Aplicado.
Outra ação de Thich Nhat Hanh que apresenta o Budismo Engajado aconteceu em 1964, quando criou a “Escola da Juventude para o Serviço Social”. Seu objetivo era o de gerar um movimento no seio da própria comunidade, para que não precisasse aguardar do governo local a resolução para os problemas da guerra. Estabeleceu-se quatro frentes de ação básicas: saúde, educação, organização e economia.
Ele e seu grupo treinaram milhares de jovens. Junto a eles, monges e monjas direcionaram-se para o campo, a fim de auxiliarem os camponeses na reconstrução de suas aldeias. Além do trabalho físico, técnico e intelectual, seus membros voluntários formavam grupos com as crianças e ensinavam-nas a ler, escrever e cantar. Com o tempo, as pessoas da aldeia começaram a se familiarizar com eles. Então, juntos, construíram uma escola, utilizando bambus e folhas de coco.
Posteriormente, além da escola, construíram uma espécie de dispensário de medicamentos básicos. Logo vieram também alguns acadêmicos de Medicina para atendê-los. Já havia também, entre eles, assistentes sociais. Ainda no mesmo período, foram organizadas cooperativas, promovendo cursos de artesanato para que pudessem ter um aumento na renda familiar. “Temos que começar por nós mesmos, das bases” (HANH, 2008, p. 35). Isto é espiritualidade aplicada ao cotidiano. É amor na prática, é Budismo Aplicado. Sem teorias estéreis, sem hierarquias autoritárias, sem prova de títulos, apenas um somando ao outro e totalizando um bem comum.
Aqueles que são tocados pela luz da mente atenta, por sua vez, resplandecem sua plena presença sobre as outras pessoas e objetos. Assim como os raios da Luz do Buda, ao alcançarem todos os outros mundos-esferas, fazem com que incontáveis Budas emitam sua luz. Quando vivemos com plena consciência, nós também irradiamos amplamente essa luz ao nosso redor e, por tal intermédio, ajudamos os demais a entrarem em contato com ela, bem como emanar a luz da própria mente atenta (HANH, 2011, p. 154).
Ninguém ali recebia salário para o trabalho, faziam pela motivação e entusiasmo gerados pela figura central de Thay, pela consciência de que a felicidade daquelas pessoas era necessária às suas vidas. Todos estavam muito feridos pela guerra. Não havia outro caminho para viver. Ao gerarem benefícios, apaziguavam seus próprios corações. Quando ensinavam as crianças a ler, a esperança renascia amorosa. Ao reconstruir as vilas, reconstruíam suas próprias vidas. Quando cantavam com as crianças, seus espíritos sorriam e se alegravam junto. A ação
pacífica e o coração aberto eram a grande recompensa, eram o “próprio reino de Deus [...]. O aqui e agora” (HANH apud BURGOS, 2008, s.p.).
Thich Nhat Hanh também diz que o Budismo Engajado está ligado ao ensinamento central do Buda, “As quatro Nobres Verdades”. Cada uma delas será tema do capítulo subsequente, mas, no que tange ao assunto presente, vale dizer que compreender o sofrimento por meio do seu enfrentamento direto, causado por tantas dificuldades na sua vivência, fez possível que tivesse a clareza e a calma para agir no cotidiano tumultuado, violento que ele abraçou. De modo que não poderia haver outro caminho para a transformação.