Existem diversos estudos sobre a linguagem utilizada no inglês de negócios (“Business English”), mas na área mais específica da correspondência comercial são muito poucos e os que há prendem-se, sobretudo, com a análise do texto em focagens parcelares e numa perspectiva comparativa relativamente a outros textos da mesma época.
Os próprios manuais sobre correspondência comercial, antes de desenvolverem conteúdos bem delineados como a forma da carta ou a apresentação de vários tipos de cartas, tecem algumas considerações gerais sobre a escrita das mesmas, que podem servir de base a reflexões de grande interesse.
Relativamente a estudos sobre este tema, destacamos vários de especial interesse, divulgados on line, em English for Specific Purposes, que abordam aspectos muito concretos da carta comercial como: estratégias de cortesia utilizadas por vários países nas cartas de candidatura a um emprego (A. Upton e Ulla Connor “Using Computerized Corpus Analysis to Investigate the Textlinguistic Discourse Moves of a Genre”); o registo e o contexto da linguagem e o estilo utilizado na carta comercial por correio electrónico (Julio C. Gimenez “Business E-mail Communication: some Emerging Tendencies in Register”); a forma como os propósitos comunicativos são atingidos através da linguagem, sendo o material de análise um conjunto de 117 cartas (fax) comerciais em inglês entre uma empresa brasileira e duas empresas europeias (V. B. M. Pinto dos Santos “Genre Analysis of Business Letters of Negotiation”). Incluído na publicação Journal of Pragmatics, analisámos um artigo pertinente sobre as diferenças retóricas entre cartas de promoção de vendas italianas e inglesas (Carla Vergaro “ ‘Dear Sirs, What would you do if you were in our position?’ ”).
particulares da carta comercial: a diferente utilização de meios padronizados na organização de cartas referentes a transacções comerciais e a circulares, incluídas em três manuais de correspondência comercial do Século XIX (Gabriella del Lungo Camiciotti “I perceive my dear friend, by your letter of the 20th inst. that you are decided on entering upon the career of commerce: Nineteenth Century Business Correspondence”); a análise do “genre”, na tradição de Swales e Bhatia, como um método eficaz não só para determinar as características que distinguem um “genre” profissional, mas ainda para reconhecer a variação rica nos efeitos discursivos que os membros de uma comunidade do discurso introduzem continuamente nos seus textos (Poul Erik Flyvholm Jorgensen “The Dynamics of Business Letters: Defining Creative Variation in Established Genres”).
Ainda integrado na colecção “Linguistic Insights”, destacamos o artigo de Bhatia, “Interdiscursivity in Business Letters”, de 2005, em que o autor reconhece a versatilidade, complexidade e dinamismo das cartas na prática profissional, o que pode levar a várias formas de hibridização.
No presente trabalho, propomos uma análise diferente da carta comercial em inglês, privilegiando uma perspectiva evolutiva. Acreditando na utilidade desta abordagem, pretendemos identificar aspectos de permanência e de mudança, questionar o seu significado e encontrar factores explicativos.
Não interessa apenas conhecer um passado, mas seguir uma linha de problematização que possa contribuir para uma melhor compreensão das características próprias desta forma de comunicação. Essa verificação passará necessariamente pela aferição de uma consistência que, a manter-se, enfatiza uma especificidade. O jogo entre unidade e diversidade e entre permanência e evolução levará a questionar factores de contextualidade que explicam uma realidade. Antes de mais, teremos em conta um quadro profissional do mundo dos negócios no âmbito do qual se integra este tipo de texto. Este quadro inclui intenções e objectivos, práticas comuns na área, uma comunidade (profissional) com
determinadas expectativas e toda uma série de factores sociais e culturais, entre outros.
A carta comercial, como objecto de estudo, transcende, pois, um mero registo de particularidades para assumir um importante carácter interpretativo à luz de novos conceitos e métodos de análise no âmbito do estudo do discurso. A relevância concreta da carta como forma de comunicação escrita no mundo dos negócios justifica esta atenção.
Apesar do avanço da tecnologia ter permitido a comunicação através do correio electrónico (“e-mail”), a carta comercial continua a ter, na verdade, um lugar determinante no mundo dos negócios. Na comunicação por correio electrónico, há características próprias que se reflectem, sem dúvida, na utilização de uma linguagem mais simples e menos formal do que a utilizada nas cartas comerciais. Alguns estudos especializados têm notado nomeadamente o uso de estruturas sintácticas simples e directas, frases curtas, formas elípticas (Julio Gimenez, 2000: 241 - 242).
A importância do estudo da carta comercial não fica, assim, diminuída. Ocupa um espaço próprio como meio de comunicação e constitui uma referência relativamente à qual se situa a correspondência por correio electrónico. Destacamos as conclusões de um estudo, segundo o qual a correspondência por correio electrónico segue, de forma significativa, as convenções padrão adoptadas pela comunicação formal de negócios (Julio Gimenez, 2000: 246). Ao contrário do que se esperaria, o avanço da tecnologia não eliminou, pois, o papel desempenhado pela carta comercial. Bhatia, em “Interdiscursivity in Business Letters”, destaca essa perenidade, associada à validade de um conjunto de características:
Although the electronic media – including the telephone, e-mail and the fax – have brought about rapid transformation in the way corporate business is conducted in more recent times, the traditional reliability and authenticity attached to business letters continue to carry considerable weight even today. (2005: 38)
A carta é um registo material que pode ser arquivado, constituindo assim uma prova palpável e segura do acordo a que chegaram as partes envolvidas no negócio. Além disso, a carta contribui para a imagem de prestígio da empresa, conseguida também através da qualidade do papel, da forma completa como se apresenta, contendo os elementos essenciais que a constituem, sendo um deles a assinatura directa dos interessados.
Neste enquadramento, antecipamos uma breve apresentação de um corpus de cartas reais em inglês que nos propomos também analisar. São documentos que nos permitem contactar com a realidade da carta comercial no mundo concreto dos negócios e aferir mais adequadamente o valor de um sentido de autenticidade.