AFECTIVIDADE NA EDUCAÇÃO (EM LÍNGUAS): UM PERCURSO MULTIDISCIPLINAR
1.3 SENTIMENTOS, ESTADOS DE ESPÍRITO E HUMORES
“Can anyone have an emotion without feeling?” SOLOMON 2000:10
Face à abundância de literatura científica acerca das emoções, constata-se uma diferença paradoxa em relação aos sentimentos, situação que se parece explicar pelo facto destes serem compreendidos enquanto implicitamente relacionados com as emoções, embora numa relação desigual: “todas as emoções originam sentimentos, se estiver desperto e atento, mas nem todos os sentimentos provêm de emoções” (DAMÁSIO 1994:157).
Na verdade, a distinção entre sentimento, emoção e afecto parece ser de difícil entendimento: “quant au term « sentiment », il s’agit d’un concept qui peut avoir plusieurs acceptions. De fait, certains auteurs utilisent ce terme comme une façon de décrire tout état interne rapportable, ce que risque de nous éloigner fortement du domaine affectif ” (KIROUAC 1995:19).
De facto, nem os dicionários são muito claros na definição do termo em justaposição à emoção: “osentimento é a emoção filtrada através dos centros cognitivos do cérebro, especificamente o lobo frontal, produzindo uma mudança fisiológica em acréscimo à mudança psico-fisiológica” (Wikipedia).
Não obstante, parece não haver dúvidas quanto à integração dos sentimentos no domínio afectivo e, mais concretamente, no mundo das emoções, apesar da distinção entre emoções e sentimentos ser, por vezes, imperceptível ou mesmo inexistente. Um dos exemplos para a opacidade destes termos é referida por Jane Arnold, uma autora fortemente associada à investigação da afectividade no ensino de línguas, que constata que “the term ‘feeling’ is a synonym for emotion, although with a broader range. In the older psychological literature the term ‘affect’ was used. It is still used to imply an even
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wider range of phenomena that have anything to do with emotions, moods, dispositions, and preferences.” (ARNOLD 1999: prefácio). Nesta perspectiva, os sentimentos parecem estabelecer uma relação metonímica com as emoções.
Um dos investigadores que traz maior clareza a estas questões é novamente Damásio, que, do seu ponto de vista neurocientífico, entende que os sentimentos só podem ser compreendidos em função das emoções: “se uma emoção é um conjunto das alterações no estado do corpo associadas a certas imagens mentais que activaram um sistema cerebral específico, a essência do sentir de uma emoção é a experiência dessas alterações em justaposição com as imagens mentais que iniciaram o ciclo.” (DAMÁSIO 1994: 159). Nesta óptica, o investigador distingue três tipos de sentimentos: o primeiro, que Damásio designa enquanto “sentimentos de emoções universais básicas”, caracteriza-se por estar directamente ligado às emoções básicas respectivas, isto é, sentir-se feliz relacionado com a felicidade, sentir-se triste em resposta à tristeza, sentir-se receoso face ao medo, entre outros. Os “sentimentos de emoções universais subtis” representam os degraus, os diferentes níveis sentimentais que uma emoção pode evocar, como são exemplos a euforia e a êxtase como variantes para a felicidade, o pânico e a timidez em relação ao medo. Quanto ao terceiro tipo de sentimentos, os “sentimentos de fundo”, Damásio propõe o seguinte entendimento:
“…o facto é que experimentamos outras formas de emoção, por vezes de forma subtil, outras de forma bem intensa, que nos permitem apreciar o tom físico geral do nosso ser. Propus o termo “sentimentos de fundo” para designar a leitura deste tipo de perturbações do organismo, um termo que usei pela primeira vez em “O erro de Descartes”, e que evoca o facto de estes sentimentos não se encontrarem no primeiro plano da nossa mente. Por vezes apercebemo-nos deles muito distintamente e ocupamo-nos deles de forma específica (…) os sentimentos de fundo ajudam-nos a definir o nosso estado mental e dão cor às nossas vidas. Os sentimentos de fundo provêm das emoções de fundo, e estas emoções, embora mais dirigidas para o interior do que para o exterior, são observáveis pelos outros através das nossas vozes e da prosódia do nosso discurso” (DAMÁSIO 2003:327).
Entre estes sentimentos de fundo que influenciam o comportamento humano e se relacionam directamente com as emoções incluem-se a fadiga, a energia, e excitação, o bem-estar, a tensão, a relaxação, o entusiasmo, a letargia, a estabilidade e a
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instabilidade, o equilíbrio e o desequilíbrio, a harmonia e discórdia, podendo influenciar o comportamento (idem). Note-se que estes sentimentos de fundo dificilmente se distinguirão do estado de espírito ou humor, tal como analisaremos mais abaixo.
Sem estabelecer uma diferenciação categórica parecida com Damásio, Gilles Kirouac, do campo da psicologia, compreende os sentimentos enquanto ‘colorações afectivas’, evocando sensações ou percepções de agrado ou de desagrado, resultantes de uma sensação olfática, gustativa, auditiva ou visual. Mais, « il se peut aussi que ce soient des sensations qui proviennent de stimulations organiques aversives (blessures, maladies, faim ou soif) ou appétitives. Finalment, il faut noter les états basés sur une expérience antérieure et comportant une dimension d’analyse cognitive, comme c’est le cas pour la satisfaction ou la non-satisfaction par rapport à une oeuvre d’art. » (KIROUAC 1995 : 19). Esta visão, em que os sentimentos são desencadeados pelos sentidos e acontecimentos anteriores, sublinha o aspecto cognitivo implícito nestes processos.
Uma das perspectivas de maior pertinência para o nosso estudo é a de Keith Oatley, que se insere num ponto de vista sócio-construtivista, na medida em que entende que os sentimentos se referem a estados afectivos de duração bastante longa, ou melhor, disposições afectivas face a outras pessoas ou objectos (tais como simpatia ou antipatia). Nesta óptica, a função dos sentimentos é de estruturar a relação com as outras pessoas ou objectos num processo que influencia as crenças acerca dessas pessoas ou objectos. Note-se ainda que, nesta perspectiva, os sentimentos têm implicações cognitivas: “sentiments are the bases of distributed cognition (cognitions that are distributed socially, spatially and temporary). Each form is facilitated by a sentiment, and this sentiment is associated with a certain belief” (OATLEY & JENKINS 1996: 56).
No que se refere ao último conceito, o estado de espírito ou humor (mood), este parece caracterizar-se enquanto estado pela sua natureza temporal, isto é, consiste num estado emocional de longa duração, contrastando com as emoções por serem de
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duração curta (cf. EKMAN 2000, FRIJDA 2000a): “ainsi, une émotion telle la colère durera au plus quelques minutes tands que quelqu’un qui est d’humeur irritable peut le demeurer toute la journée” (KIROUAC 1995:20).
Conforme acima referido, o conceito de humor parece-nos de difícil distinção dos “sentimentos de fundo” de Damásio, na medida em que as características apresentadas pelos diferentes autores se cruzam, isto é, quer os sentimentos de fundo de Damásio, quer os humores de Kirouac, Ekman e Frijda representam estados afectivos de longa duração, sendo que ambos podem influenciar o comportamento humano. Se, por um lado, Damásio entende que o bem-estar, mal-estar, a calma ou tensão representam os referidos sentimentos (cf. DAMÁSIO 2003), Cosnier, por outro, entende estes ‘estados emocionais’ enquanto humores, pois definem-se por serem ‘colorações afectivas’ que acompanham positiva ou negativamente os momentos da vida quotidiana (cf. COSNIER 1994:4).
Esta desordem conceptual é acrescida pela visão de Michael Lewis, especialista na área da psicologia do desenvolvimento, que entende que os estados emocionais (como sinónimo para estado de espírito ou humor) são construções inferidas, tratando-se de constelações particulares de mudanças somáticas ou neurofisiológicas (cf. LEWIS 2000). Estes estados podem ocorrer sem que o organismo tenha consciência disso, ou mesmo compreenda o seu aparecimento. Lewis sublinha a complexidade do seu entendimento, reforçada pelas divergências dos diferentes pontos de vista. De acordo com este psicólogo, os diferentes pontos de vista apresentam-se de uma forma oposta e complexa. Explicitando, na visão Darwinista, um estado emocional pode ser evocado de forma automática por determinados estímulos, como é exemplo o medo face à presença de um animal perigoso (cf. DARWIN 2006). Já na opinião de Plutchik e Lewis, os estados emocionais não surgem automaticamente através do que estes autores designam como “innate ‘prewiring’”, pelo contrário, são construídos através de processos cognitivos avaliativos (cf. PLUTCHIK 1980 & LEWIS 2000). Ainda segundo Schlachter e Singer, não existem estados emocionais específicos, apenas um “general arousal” que pode ser interpretado face à situação específica que rodeia um sujeito (cf. SCHLACHTER & SINGER 1962). Noutras palavras, "in this view there is an emotional
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state, but it is only a general one” (LEWIS 2000:268). Finalmente, também se defende que não existe qualquer tipo de estados emocionais - apenas processos cognitivos que evocam emoções específicas (BOWLBY 1969, citado em LEWIS 2000). Concluindo, afirma Lewis, “these differences have important implications for any emotional development” (idem:268).
Face à problemática destas distinções se apresentar particularmente complexa, à divergência e pluralidade dos pontos de vista citados, e sobretudo tendo em conta que esta questão não é nuclear no nosso estudo, limitar-nos-emos a referenciá-la sem avançar propostas para o seu entendimento.
SINTETIZANDO
Apesar da multiplicidade dos entendimentos e abordagens, cristaliza-se o consenso da afectividade dizer respeito ao domínio das emoções, dos sentimentos, dos estados de espírito, humores e estados emocionais, sendo que a discussão acerca das implicações afectivas sobre o comportamento humano teve início na Antiguidade Clássica.
A discussão sobre as questões afectivas e suas implicações no comportamento humano evoluiu ao longo dos séculos envolvendo especialistas, investigadores e autores de diferentes campos disciplinares (medicina, filosofia, ciências, história, literatura, psicologia, entre outros), criando cada vez mais ramificações, reflectindo-se nas concepções e reflexões teóricas, por um lado, e nos trabalhos empíricos, por outro. Na verdade, o entendimento da afectividade está altamente associado à respectiva disciplina que o estuda, como por exemplo a relação das emoções com determinadas doenças na medicina ou as suas implicações cognitivas nas ciências de educação.
A revisão da literatura evidencia um entendimento global de emoções básicas ou universais e emoções secundárias ou sociais, embora com algumas diferenças quanto às suas componentes. Os sentimentos, por sua vez, intrinsecamente ligados às emoções, parecem representar os aspectos fisiológicos das emoções.
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Quanto aos estados de espírito, humores ou estados emocionais, estes são compreendidos enquanto ‘palcos de actuação’, de longa duração, para o ‘teatro das emoções’, de pouca duração.
Tendo em conta que o nosso estudo se situa na DL, em que a preocupação com a dimensão afectiva se prende sobretudo com as implicações cognitivas e o comportamento do aprendente, importa fechar o nosso campo de visão, aproximando-nos da nossa área de estudo de uma forma gradual. Assim, pretende-se, no próximo ponto, apresentar a emergência e os desenvolvimentos das teorias acerca da relação entre afecto e cognição, sempre tendo em conta as questões que nos ocupam, no sentido de melhor compreender esta relação complexa e multifacetada.