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Separação dos Poderes e Direitos Fundamentais

2 PODER CONSTITUINTE E CONSTITUIÇÃO

3.4 PODER DE LEGISLAR E SEPARAÇÃO DE PODERES

3.4.2 Separação dos Poderes e Direitos Fundamentais

Como aludido precedentemente, a temática de uma análise minuciosa do sistema brasileiro sobre a questão da separação e do equilíbrio de poderes não pode aqui ser feita porque desborda dos limites desta investigação.

Assim, a questão que se examina é restrita à perquirição de saber se a separação dos Poderes, tal como configurada concretamente na Constituição brasileira, pode influenciar, e em que medida, na temática do exercício poder de legislar, a fim de se saber se há um poder normativo tributário que não seja subordinado ao poder de legislar. Além disso, admitindo-se que tal poder exista, releva indagar se ele pode ser exercido por outro órgão do Estado, diverso do Parlamento, como decorrência do sistema constitucional vigente, como uma espécie de competência residual, que possibilitaria o exercício do poder tributário de legislar por outros órgãos do Estado, que não o Legislativo.

Em outras palavras, importa saber se há um poder tributário de legislar, implicitamente atribuído pela Constituição Federal a outros órgãos, diferentes do Parlamento, que importaria em permissão de exercício do poder regulamentar tributário de modo originário com possibilidade de inovação da ordem jurídica por regulamento do Poder Executivo.

Além disso, também há de verificar-se se a lei do Parlamento pode delegar para o Executivo o poder de legislar, isto é, delegar o poder de inovar a ordem jurídica tributária por regulamento, como se o Executivo fosse legislador delegado.

CANOTILHO,347 ao chamar a atenção de que a Constituição Portuguesa

bem andou quando não utilizou a expressão ‘poderes do Estado’ e ter preferido a expressão ‘órgãos de soberania’, aduz que quando “... se utiliza a fórmula poderes do Estado pretende-se significar complexos orgânicos do sistema do poder político dotados de funções ditas ‘supremas’, mas separadas e interdependentes entre si. (...)

347

CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7.ed., 2ª reimpr. Coimbra: Edições Almedina, 2003, p. 542-543.

Na verdade, os poderes são sistemas ou complexos de órgãos aos quais a Constituição atribui certas competências para o exercício de certas funções.”

A separação de poderes é estruturante tanto do Estado Democrático de Direito, quanto do sistema republicano, pois onde houver lesão à liberdade ou ao Estado de Direito sempre haverá possibilidade de invocar-se o princípio da separação dos Poderes do qual o Direito constitucional brasileiro nunca se afastou.348

A competência, como já visto, diz com o limite ou dimensão da parcela de poder recebida da Constituição, com o conteúdo material de tal poder e com o procedimento de seu exercício, orientada a finalidades, tudo dentro dos parâmetros do Estado Democrático de Direito e do sistema republicano.

Como referenciado anteriormente, as normas de competência estão relacionadas com a função que é definida como uma relação entre a norma de

competência e seus fins,349 sendo por isso lícito afirmar, quando se fala em separação

e equilíbrio de Poderes, em um princípio organicamente referenciado e funcionalmente orientado.350

Como acentua CANOTILHO,351 “A atribuição de poderes ou de

competências é feita para que os órgãos constitucionais de soberania cumpram certas missões – tarefas – constitucionalmente definidas.”

348

BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 20.ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2007, p. 558. Nas palavras do autor: “De tudo quanto fica escrito, se infere a conclusão fundamental de que o velho princípio rejuvenesceu por obra de intérpretes e aplicadores de um direito constitucional da liberdade. Voltou assim a fruir a plena atualidade das ocasiões em que foi emblema de resistência a poderes autocráticos e a formas de governo havidas por usurpadoras de direitos e garantias fundamentais da pessoa humana. Onde houver, pois, lesões à liberdade e ao Estado de Direito, aí sempre haverá lugar para invocar-se a tutela do princípio e conjurar prosperem ofensas aos valores que ele representa na ordem jurídica. Nomeadamente quando se sabe que o nosso Direito Constitucional, conforme vamos demonstrar, nunca se afastou de uma aliança solene e formal com aquela garantia básica, tão bem estampada e reiterada no art. 2º da Constituição Federal vigente; (...)”.

349

CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7.ed., 2ª reimpr. Coimbra: Edições Almedina, 2003, p. 544, dissertando sobre os sentidos do polissêmico termo ‘função’ assim se expressa: “Na literatura juspublicística, os sentidos mais correntes são os de função como «actividade» ou como «poder do Estado». Estes sentidos estarão presentes na exposição seguinte, devendo, porém, observar-se que a ordenação material das funções do Estado desenvolvida na mais recente literatura apela para o conceito de função como relação referencial. A função é sempre uma relação de referência entre uma norma de competência e os fins dessa mesma norma.” 350

Ibid., p. 551. 351

A competência, como medida de poder e estabelecimento de função, como aludido anteriormente, também encontra seus lindes na configuração dos direitos fundamentais, especialmente a partir do momento em que estes deixaram de ser um mero status negativus, com sentido negatório ou sentido de direito subjetivo de defesa do indivíduo frente às intervenções do Estado, e passaram a ter também um sentido jurídico objetivo como preceito negativo de competência, de modo que a competência dos Poderes do Estado, no exercício das respectivas funções, encontra também limites precisamente nos direitos fundamentais, na medida em que estes excluem a competência estatal no que respeita ao âmbito protegido, ficando com relação a este vedada a intervenção.352

Os direitos fundamentais, como direitos do cidadão diante do legislador, significam posições que fundamentam deveres do legislador e limitam a competência

desse mesmo legislador.353

Em tal contexto, cada um dos Poderes encontra limites quer na competência, quer nos direitos fundamentais.