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4 TRAVESTIS, HOMENS “ESTRANHOS” OU SIMPLESMENTE HOMENS?

4.4 Narrativas sobre Corpo e Saúde

4.4.1 Ser (Boy)

fez. A mãe dela aceitou de boa, é legal, ela tá sendo ela para todo mundo ver que não precisa sentir vergonha, ficar tímida ou ser o que é. Eu me senti, eu disse, eu acho que sou tipo assim e gostei” (João, 22 anos).

“Thammy se vê como homem, como ela fez a cirurgia, ela não é nem lésbica e nem homem, ela é como se diz... transexual. Na cabeça dela, ela tá a um passo de ser homem, mas na minha cabeça não, ela vai continuar sendo uma mulher […] Ela é uma mulher que quer ser homem. Se sentir, eu me sinto, e ela quer ser, tanto que fez cirurgia para chegar o mais perto de ser, ela e outra que fez cirurgia e até toma hormônio e tem barba e pelo em tudo que é canto, Tereza Brant” (João, 22 anos).

Vê-se que João tem uma lógica própria e com categorias diferentes para explicar as questões de gênero e sexualidade presentes em sua vida, em que o interlocutor se define como “meio que homem”, sendo o único desse contexto a não se identificar apenas como homem. Mas é válido ressaltar que João também se reconhece nas categorias (boy) e lésbica, questões que durante a entrevista o fizeram pensar e causaram estranhamento, o interlocutor compartilhou seu estranhamento depois de algumas perguntas minhas, “eita, eu me considero meio que homem, mas também lésbica. Eu sou tipo meio que homem lésbico, como pode isso?”. A reação foi devido a João conhecer outras categorias e dar seu próprio sentido a essas, como transexualiadade, apesar de essas não serem usadas pelos seus amigos e no seu dia a dia e também não terem sido utilizadas durante a entrevista. Mas nesse momento, a partir de seu relato, essas categorias entraram em choque para ele, o que causou estranhamento no interlocutor.

4.4.1 Ser (Boy)

A lógica e as categorias entre os homens (boys) variam muito, até porque eles se constituem em grupos que são fragmentados e não tem reivindicações em comum, um “sentimento de grupos”, atuam em contextos mais específicos e limitados, de maneira isolada, como em instituições, a exemplo do C.J. Portanto, não há uma busca de uma categoria identitária por exemplo, ou categorias que possam unir diferentes experiências, uma categoria guarda-chuva como a de “homens (trans)”, que é uma categoria política e social que pode incluir homens transgêneros, homens transexuais, transexuais masculinos, transmen, transhomens entre outros termos identitários. Mesmo assim, o termo (boy) é utilizado na presente pesquisa principalmente para facilitar a análise dois diferentes contextos.

Há interlocutores (boys) que não conhecem outros que são como eles, um deles, Mário, identificou pouco tempo antes de nossa conversa um homem (boy) na mesma escola

em que estuda, no C.J, e se surpreendeu pois dissera que se imaginava único com essa experiência. Ele sabia que existiam lésbicas masculinizadas, mas não conhecia alguém como ele que se identificava como homem, tendo corpo designado como feminino. Ele narrou a identificação do/com o outro aluno:

“Eu fiquei olhando assim, será que é um homem ou um menino, eu fiquei olhando assim, foi quando ela virou, pela camisa dá para ver o 'top', aí foi quando ela virou assim de costas, aí eu vi a blusa por baixo, aí eu fiz “oxe, é uma menina”... Só que assim, de frente mesmo, não tem como saber se é homem ou se é mulher, porque nem seio ela tem direito, o seio dela é bem pequenininho, dois carocinhos (risos), por isso que eu tava achando estranho “oxe, entrou um novato foi...”, aí foi quando ela virou assim, foi que eu vi embaixo, uma blusa, aí depois que a menina disse assim “oxe, isso é uma menina”, eu olhei, olhei, olhei... […]”(Mário, 25 anos).

“Ela se considera como homem também, cabelo cortado, roupa de homem, tem tudo de homem, vai para banheiro masculino e tudo, se eu não me engano” (Sandra/Dadinho, 21 anos).

Acima, Dadinho também descreve um amigo seu, dizendo-me o nome de registro e o nome de guerra do amigo, como é comum, descrevendo-o como um possível interlocutor para mim, mas as circunstâncias não possibilitaram que eu o entrevistasse, ele tinha mudado de número de celular e Dadinho tinha perdido o contato com ele. Ele foi o único que após eu ter explicado sobre o PTSUS ao final da entrevista, disse, “então, eu sou um homem transexual”. Mas é importante ressaltar que durante a entrevista, ele mostrou entender e ter familiaridade com o meu tema de pesquisa, descrevendo possíveis interlocutores, porém dias depois, quando o vi num evento do C.J.- que ele foi direto do curso de recepcionista que estava fazendo, estava nesse dia todo arrumado, de terno, gravata e paletó - ele me apresentou para uma aluna e perguntou se eu podia indicar interlocutores, dizendo que eu pesquisava “coisas de bissexual, transexual”.

Após conversarmos, vi que Dadinho mesmo tendo se identificado durante a entrevista com o termo “homem transexual” - depois de minhas explicações, por causa da demanda que ele apresentou - ele não adotou essa categoria para si. Esse fato é fácil de entender uma vez que em seu meio, as pessoas não costumam utilizar esses termos para se referir a homens e não costumam separar gênero e sexualidade de uma forma mais evidenciada como se tenta fazer na academia e movimentos sociais; então, nesse contexto, categorias que envolvem gênero e sexualidade são usadas de outra forma, em que o aspecto biológico muitas vezes é privilegiado.

De acordo com os relatos, o fator biológico, para esse grupo, é o principal fator determinante da designação do outro: se tem corpo visto como feminino e se relaciona com

mulheres, mesmo que se identifique como homem, também é lésbica, se tem corpo interpretado como masculino e se relaciona com homens, mesmo que se identifique com mulher, é chamado também de 'gay', travesti ou transexual, termos usados para definir a mesma pessoa. Mas ao definir alguém como transexual ou travesti os termos usados aparecem comumente no masculino e como sinônimos, mesmo quando se referem, ao que para mim, são mulheres que estão transicionando - se referem como: “o travesti”, “o transexual”, “meu amigo gay”. E foi relatado, por profissionais e interlocutores, que as mulheres (trans) do Centro da Juventude, mesmo que queiram ser reconhecidas como tais, também atendem por “frango”, “veado” e termos semelhantes, contudo, não atendem pelo seu nome de registro, que mostraria um não reconhecimento da sua identidade de gênero, da sua mulheridade, elas preferem o nome social adotado ao nome de registro, porém aceitam termos que se relacionam a identidade e a homossexualidade masculina.

O mesmo acontece com os homens (boys) do Centro da Juventude, eles se identificam como homens, porém aceitam ser reconhecidos e alguns se reconhecem sexualmente como lésbicas, porque tem corpos designados como femininos, e é assim que muitas vezes são vistos, apesar da identidade de gênero. Abaixo, uma narrativa de um interlocutor, que relata seu encontro e desencontro com uma pessoa que ele se sentiu atraído, com uma diferente categoria de gênero e sexualidade que a dele, exemplifica bem o que foi exposto.

“Parada gay eu já fui já, é muito bom, eu já fui já para uma parada gay né, mas assim, tem mulher, que não é mulher, é homem, que, com uma delas eu bati logo a fita e... que vergonha do caramba. Oxe... eu fui ficar com uma pessoa pensando que era uma mulher, era um travesti. Mas o quê, Carol, eu pensava que era uma mulher, Carol. […] Ele pensava que eu era um homem e eu pensava que ele era uma mulher, e.... e aí que rolou um clima né... caramba, eu não ia nem te dizer isso, sabe... (risos), eu fui pro banheiro tomar banho, quando eu tiro a roupa... vou contar não essa parte, eu não vou contar não, não, não (risos). Mas, Carol, eu fiquei morta de vergonha, e aí, eu inventei uma desculpa né, eu disse que estava menstruada né, aí eu vesti a roupa e vim me embora […] Não, foi assim, eu fui, ela pensava que eu era um homem pô, aí bateu a química, aí eu cheguei pra essa pessoa e eu “e aí, pra gente se conhecer?”, agora, toda, todinha de mulher, até a voz, aí ela “tá certo”, eu disse “conhece”, aí ela apertou a minha mão, aí dei dois beijinhos nela, aí já marcou pro motel, aí eu pensei “danou-se”, “tá, quando terminar aqui a gente vai”, ela “tá certo”, aí chegou lá... (risos), aí ele chegou pra mim e disse “eu pensava que tu era um homem”, aí eu disse “e eu pensei que tu era uma mulher”, aí eu peguei, vesti minha roupa e fui me embora pra casa. Mas foi assim, no outro dia eu fiquei rindo dentro de casa” (Mário, 25 anos).

Embora, a (trans) da situação narrada tivesse feito modificações corporais, como cirurgias para implante de silicone, uso de hormônio feminino, além de toda a performance de gênero feminina, mas não fez a transgenitalização - como o interlocutor contou-me, o aspecto biológico prevaleceu para ele, vejo que menos por ela ter o pênis e mais porque seu corpo e sexo de nascimento foi designado como masculino, por ter nascido “biologicamente homem”.

A referência no feminino também ocorre quando os interlocutores citam personalidades como Thommy e Tereza Brant.

Voltando à temática sobre modificações corporais, várias questões contribuem para que mesmo que haja ou houvesse um desejo de realizar modificações e cirurgias, esse desejo não aparece como necessidade, ou como prioridade em seus projetos de vida da mesma forma como com alguns homens (trans), sendo pela desistência de realizar modificações corporais, como João, falta de informação ou informações erradas e/ou insuficientes, como Paulo, ou por crença religiosa, como Mário. Assim também ocorre com homens (trans), que de forma geral, nem todos desejam fazer modificações corporais, ou se desejam não apresentam como algo que está como prioridade em suas vidas. Mas todos os interlocutores buscam manter uma aparência com roupas, acessórios e cortes de cabelo considerados masculinos.