2. CAPÍTULO II – ENQUADRAMENTO TEÓRICO
2.2. SEGURANÇA, HIGIENE E SAÚDE DO TRABALHO
2.2.3. SHST E ESCOLAS
Ao falar-se de SHST e da sua relação com as Escolas, importa recuar ao ano de 2001, data em que foi celebrado o Acordo sobre Condições de Trabalho, Higiene e Segurança no Trabalho e Combate à Sinistralidade. Este Acordo, aprovado por todas as entidades ligadas ao mundo do trabalho, desde as patronais às sindicais, previa, no seu conteúdo funcional, para além de medidas de curto prazo, outras de execução a médio prazo, como é o caso da elaboração de um Plano Nacional de Acção para a Prevenção (PNAP). Este Plano, que ficou finalizado no ano de 2002, continha uma cláusula de bastante relevância no que diz respeito à interligação entre o sistema educativo e os serviços de SHST. No capítulo referente aos conteúdos do PNAP, é possível ler que o Governo e os Parceiros Sociais pretendiam o desenvolvimento de:
"medidas que assegurem uma efectiva integração das matérias relacionadas com a segurança, higiene e saúde no trabalho nos curricula escolares, incluindo a formação de professores nestes domínios." (Conselho Económico e Social, 2001: 15)
Esta ligação ao sistema educativo já se havia começado a vislumbrar no regime jurídico do enquadramento da Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho – o Decreto-Lei nº 441/91, de 14 de Novembro, a que já fizemos referência. Este, no seu artigo 16º, era bem claro ao preconizar que:
"A integração dos conteúdos de SHST nos currículos escolares deve ser prosseguida nos vários níveis de ensino, tendo em vista a adopção de uma cultura de prevenção para a vida activa, no quadro geral do sistema educativo e da prevenção de riscos profissionais." (Decreto-Lei nº 441/91, de 14 de Novembro)
De um ponto de vista mais prático, as instituições governamentais com responsabilidades na área da SHST, nomeadamente nos aspectos mais relacionados com a prevenção, não estavam paradas. O Instituto de Desenvolvimento e Inspecção das Condições de Trabalho (IDICT14) tinha já iniciado, desde 1995, algumas acções que visavam a sensibilização do meio escolar para esta problemática da SHST.
Nessa altura, o então Centro Regional do Centro do IDICT elaborou um projecto de acção tendente a proporcionar a abordagem, nas escolas dos Ensinos Básico e Secundário, de princípios básicos de prevenção de riscos profissionais. Esse projecto tinha como ponto de suporte as Escolas Profissionais que ministravam cursos de SHST e chegou a ser implementado em dezoito escolas básicas e secundárias dos distritos de Aveiro, Coimbra e Leiria. No entanto, pela falta de apoio logístico por parte da Direcção Regional de Educação do Centro, o projecto foi avançando de forma bastante intermitente, tendo acabado por ser abandonado.
Já em 1998, renasce, em algumas Delegações do IDICT, a ideia de se relançar um novo projecto-piloto dirigido à sensibilização do meio escolar. Este projecto, a que foi dado o nome de Trabalho Seguro, Melhor Futuro (TSMF), foi apresentado à Direcção Regional de Educação do Centro e à Administração Regional de Saúde do Centro, que o acolheram de forma muito favorável, tendo sido então estabelecido um protocolo entre estas entidades e o IDICT, que assumia a liderança do projecto. Com um prazo de duração de dois anos lectivos (1999/2000 e 2000/2001), começou por ter um âmbito de incidência restrito a quinze escolas dos distritos de Coimbra, Aveiro e Leiria.
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Até ao ano de 2004, o IDICT englobava duas componentes que se interligavam: a área de inspecção e a área da prevenção. A partir de meados desse ano, com a publicação do Decreto-Lei nº 171/2004, de 17 de Julho, uma divisão do IDICT deu origem à Inspecção-Geral do Trabalho (IGT), com atribuições relacionadas com a inspecção das condições de segurança no trabalho e ao Instituto para a Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho (ISHST), que tem por missão principal promover a segurança, higiene, saúde e bem-estar no trabalho.
Em Abril de 2000, ainda antes de terminado o primeiro ano de actividades, foi feita a primeira avaliação intercalar do projecto, que se veio a revelar muito positiva, opinião expressa tanto pelos parceiros como pelas escolas envolvidas. Tal atitude propiciou o alargamento a outras zonas do país, como os distritos de Castelo Branco, Guarda e Viseu. Foi também proposta a disseminação pelos distritos ligados às Direcções Regionais de Educação do Norte e do Sul, prontamente aceite por estas entidades.
O funcionamento do TSMF assentava no trabalho desenvolvido por professores requisitados ao Ministério da Educação (um ou, em casos excepcionais, dois por distrito). Esses professores, das mais diversas áreas científicas (do 1º Ciclo do Ensino Básico à História, à Biologia ou à Filosofia), tinham como missão desenvolver actividades de sensibilização com as escolas de que eram responsáveis, promover acções de formação com professores, funcionários e alunos, em resumo, apoiar e incentivar as escolas em todas as actividades passíveis de promover uma cultura de segurança no meio escolar. Cabe aqui referir que o investigador foi um dos professores que desenvolveu este projecto, nomeadamente no distrito de Aveiro, até ao final do ano lectivo de 2004/2005.
Mais do que propriamente fornecer noções sobre segurança no trabalho aos alunos, o que se pretendia era incutir nesses alunos uma cultura de segurança que os acompanhe ao longo da sua vida pessoal e profissional. Concordamos com a ideia do INSHT (2001) de que primeiro é necessário sentir, interiorizar os valores e só depois construir uma boa legislação. A noção de que a aceitação dos valores passa por uma legislação correcta não pode estar mais desadequada no caso da SHST.
O projecto TSMF chegou a ter protocolos de cooperação estabelecidos com mais de 300 escolas de todos os distritos do país, chegando a envolver, em todos os anos do seu funcionamento, aproximadamente 33000 alunos e 2600 professores de todos os graus de ensino, do pré-escolar ao 12º ano de escolaridade.
No ano de 2004, a coordenação do projecto “Trabalho Seguro, Melhor Futuro”, até então localizada em Aveiro, foi centralizada em Lisboa, onde se encontrava a Direcção do IDICT, tendo passado a designar-se por Programa Nacional de Educação para a Segurança e Saúde no Trabalho (PNESST), nome que mantém até este momento.