1 A SOLIDARIEDADE NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO
2 SIGNIFICADOS DA SOLIDARIEDADE NO PROCESSO CIVILIZATÓRIO
2.1 Significados de Solidariedade na Antiguidade
As diferentes esferas da vida desses povos antigos: a política, a econômica, a social, a cultural e a religiosa – que não podem ser vistas separadas, uma vez que todas tinham um sentindo místico de ritual – com as demarcações que as caracterizaram, escrita ideográfica, formação dos primeiros impérios a partir do surgimento e desenvolvimento das cidades-estado, apontam estruturas sociais e laços familiares ou comunitários nascentes, dando-nos alguns elementos para visualizar uma socialidade em construção.
A comunidade gentílica ou clã, baseada na propriedade coletiva dos meios de produção e na inexistência de classes sociais, teve um grande impulso com a revolução agrícola, o pastoreio e a utilização de metais. Segundo Cáceres (1996), foi esse desenvolvimento técnico que exigiu novas relações sociais, fator responsável pelas transformações das sociedades primitivas e o primeiro nascedouro de relações solidárias.
A existência de comunidades diferenciadas nas principais civilizações antigas – mesopotâmicas, egípcias, hebraicas, fenícias, persas, gregas e romanas – apresentavam na sua formação características comuns: grandes invasões, revoltas internas, unidade destruída e novas em formação, tendo o poder um caráter teocrático, o político ligado ao religioso. Suas organizações sociais apresentavam-se com diferentes denominações, seguindo uma hierarquia de poder e obediência, sendo formadas por diferentes governantes. Entretanto, os escravos eram excluídos dos avanços e conquistas das civilizações e da maioria dos eventos sociais, o
que já denota nessa época a descriminação desse grupo e a ausência de relações solidárias para com o mesmo. Mas as necessidades existenciais e relações que uniam as pessoas indicavam algum tipo de sensibilidade solidária.
2.1.1 Solidariedade como partilha, compaixão e amor ao próximo
Desse processo civilizatório, segundo Cáceres (1996), duas formas de organização social caracterizavam os grupamentos: o nomadismo e o sedentarismo. O primeiro fez prevalecer um modo de vida igualitário com a propriedade coletiva dos meios de produção, sendo o produto do trabalho compartilhado por todos os membros da tribo, demarcando assim uma aproximação com um sentimento de solidariedade. O segundo, o sedentarismo, que correspondia ao surgimento da vida urbana, na qual, pouco a pouco, a propriedade coletiva ia sendo substituída pela propriedade privada, marcou a diferenciação social pelo acúmulo da produção e de riquezas, gerando a exclusão social.
Assim, um primeiro sentido de solidariedade como partilha subjaz na idéia de organização social do nomadismo, presente em alguns indícios desse conceito, como igualitário, o bem comum, o coletivo e o partilhar. Diferentemente, denotamos no sedentarismo a negação da solidariedade pela afirmação da exclusão, gerando a diferença social pelo acúmulo de riquezas.
A religiosidade predominante nessa época apresentava deuses como temor, castigo e adoração, muitas vezes defendendo interesses do poder. A religião persa, por exemplo, fundada por Zoroastro (séc VII a.C.), já continha sugestões de preceitos políticos, econômicos e morais, entre eles, a fidelidade, amor ao próximo, amizade aos pobres e hospitalidade, trazendo assim o sentimento da preocupação com o outro, mesmo que pelo temor religioso – condição essencial para a ocorrência do solidarizar-se.
Uma passagem histórica da idade antiga que teve repercussão na religião hebraica e cristã, influenciando os códigos morais e exaltando o povo a uma vida mais virtuosa e, portanto, com possibilidades solidárias, foi durante a peregrinação dos hebreus pelo deserto, após a fuga do Egito, quando “Deus” entregou a Moisés, mediador entre “ele e o seu povo”, as Tábuas da Lei contendo o decálogo, base para os dez mandamentos que hoje orientam a formação moral e ética hebraica e a cristã. Nela, encontramos de acordo com a Bíblia (1989, p. 1005) como primeiro mandamento “o amor a Deus sobre todas as coisas” e ao “teu próximo como a ti mesmos”, máximas divinas que sugerem o envolvimento do eu com o próximo, condição essencial para o solidarizar-se, que é o amor.
Várias passagens bíblicas, apesar de não se referirem a palavra solidariedade especificamente, contêm essa idéia e as suas instâncias de aplicação. No evangelho segundo São Lucas (BÍBLIA, 1989, p. 1006) ao descrever a Parábola do Bom Samaritano (10, 23-37), narra-se a indiferença de uns caminhantes para com um enfermo na estrada, diferentemente da acolhida de outro viajante, que “passando por perto enxerga-o, e teve compaixão dele, olhou- o no rosto e escutou o seu coração.” Essa expressão traduz um sentimento de comunhão, despertando o saber cuidar do outro, que é o solidarizar-se e pode ser objeto da educabilidade humana em cada um de nós em qualquer época.
Nessas expressões bíblicas – que desde a antiguidade até os dias atuais trazem influências na moral e nos princípios éticos das pessoas – vemos a tradução de sentimentos de preocupação com o outro, do enxergar o outro e acolhê-lo, da compaixão e da comunhão, despertando o saber cuidar, características da solidariedade humana, indícios conceituais que permanecem historicamente situados no seu sentido atual.
Uma outra expressão de solidariedade na idade antiga é visualizada com o surgimento da polis ou cidade-estado, base da organização política dos povos gregos. Para eles, afirma Cáceres (1996), mesmo vivendo em conflitos amenizados temporariamente por alianças entre os grupos dominantes, a pólis era o lugar onde se asseguravam os direitos e deveres, definindo-se assim, a própria cidadania. A rivalidade e a independência entre as cidades não impediam que elas tivessem mecanismos de solidariedade contra os chamados “mundos bárbaros.” Essa solidariedade expressava-se também nos chamados jogos olímpicos, as olimpíadas2 e nas alianças militares contra invasões.
No entanto, essa solidariedade excluía uma parte da população que não era considerada cidadã: servos, escravos, estrangeiros e mulheres que eram excluídos dessa participação. Havia, portanto, rudimentares relações solidárias proporcionadas pelos laços religiosos e étnicos que davam a todos os gregos um sentimento de afinidade e a possibilidade de encontros em praças públicas para debater problemas urbanos e acontecimentos. O surgimento da democracia, permitiu ainda mais a socialidade inerente aos grupos. Era de fato, uma solidariedade de grupamento, de interesses próprios, sem o sentido coletivo e de bem comum essencial na solidariedade humana.
2.1.2 Solidariedade como virtude do bem
Uma revolução filosófica que alterou a forma de pensar dos gregos surgiu no século V a.C., com os sofistas, “homens do saber”, segundo Cáceres (1996). Nos seus enunciados políticos e sociais condenavam a escravidão, defendiam a liberdade e os direitos dos homens e criticavam os preconceitos raciais dos gregos em relação aos outros povos. Seu representante mais notável foi Sócrates (1999, p. 30), que apresenta um humanismo centralizado no preceito “conhece-te a ti mesmo”, o qual:
Não constituiu uma Ciência sobre coisas ou informações voltadas para a obtenção de prestígio ou de riquezas: é o conhecimento de si mesmo, a autoconsciência despertada e mantida em permanente vigília. Bom é, assim, o homem autoconstruído a partir de seu próprio centro e que age de acordo com as exigências de sua alma-consciência: seu oráculo interior finalmente decifrado.
Na verdade, Sócrates (1999, p. 29) criou uma nova concepção de alma3 (psiquê) que passou a dominar a tradição ocidental, na qual o processo de aprender a ser é autoconstrução é autoconsciência pelo conhecimento das palavras e da virtude “[...] sendo esta que traz a riqueza ou qualquer outra coisa útil dos homens.” Suas idéias foram difundidas e ampliadas por seus discípulos, entre eles, Platão.
Platão (1999) afirma que as idéias são a essência dos conceitos e das coisas e, portanto, transcendentes ao homem, sendo extraídas da esfera dos valores estéticos e morais – O Belo e o Bom – ou das relações matemáticas – O Grande. A idéia principal de Platão é o bem na busca da virtude, desenvolvendo o amor de que é capaz, aproximando-se do mundo das essências.
O sentido de solidariedade como virtude do bem nasce das idéias de Sócrates ampliadas por Platão, como autoconhecimento ou o conhecimento de si, que traz autoconsciência, condição necessária para a sensibilidade do agir bem e ser bom como virtude. Traduzem assim atributos essenciais desse conceito.
Considerando que essas ideias filosóficas não eram comuns a todas as classes, sendo voltada para uma elite aristocrática ou de intelectuais, elas não eram popularizadas. Mas, fragmentos dessas iam impregnando o dia a dia do povo, da sua vida comunitária, delineando um agir ético e moral que ia modificando as relações sociais, encaminhando-se para novas possibilidades mais solidárias.
3 Como sede da consciência moral e do caráter, a alma que no cotidiano se manifesta mediante palavras e ações,
e que por isso, deveria ser objeto principal da preocupação e dos cuidados do homem. (SÓCRATES, 1999, p. 29).
Duas matrizes intelectuais parecem constituir no Ocidente a arqueologia da idéia de solidariedade: o estoicismo e o cristianismo primitivo. O estoicismo refere-se, sobretudo, a grande descoberta do pensamento grego: a consciência individual de si, que se cristaliza com a revolução socrática e faz do “eu” o centro de todo o comportamento humano. Com o cristianismo, sugere-se que o ser não está abandonado ao acaso, e postula uma solidariedade para além das hierarquias na vida, na morte e na ressurreição. Portanto, essas idéias de solidariedade só aparecem num estado muito embrionário.
Quando o estoicismo torna-se uma filosofia e uma moral com o Império Romano, sobretudo em Epicleto, firma-se o individualismo. E é a partir desse tomar consciência de si no mundo que se evoca essa comunidade de homens em que se constitui a humanidade. A partir do Tratado dos Deveres de Diógenes Laércio, Cícero dá uma significação mais clara desse evoluir de humanidades, de acordo com Duvignaud (2000, p. 15).
É importante, pensam os estóicos, que se saiba bem que é a natureza que faz com que as crianças sejam amadas pelos pais: é o ponto inicial donde procede a sociedade universal do gênero humano que descrevemos [...]. Donde se segue que, em geral, os homens são confiados pela natureza uns dos outros: pelo fato mesmo de ser homem, um homem não deve ser estranho a outro homem.
Segundo Duvignaud (2000, p. 18-19), vamos encontrar em Marco Aurélio, o imperador romano, o sonho de uma solidariedade como virtude muito próxima da caridade ou do amor ao próximo cristão.
‘Num sentido, o homem é o ser mais próximo de nós, de tal modo que devemos ser benfeitores e tolerantes para os homens [...]’. Habita-nos uma ‘razão comum’ que nos assegura que ‘nada pode acontecer a um homem que não seja um acontecimento humano [...] o amor ao próximo, a veracidade, a consciência, a crença, nada há de mais precioso, o que também é o caráter próprio da lei; não há, portanto, diferença entre a reta razão e a justiça.’
Desse período antigo podemos constatar que os primeiros vestígios de algum tipo de solidariedade emergiram principalmente das relações e necessidades de proteção pelas condições existenciais. A religiosidade com seus deuses, embora fosse sustentáculo ideológico para os interesses do poder, ao mesmo tempo indicava os caminhos da virtude e do bem para agradar a divindade. Os laços de família, como o primeiro espaço de uma afetividade nascente dos primeiros grupamentos familiares e das lutas pelos seus interesses, as lutas sociais de grupos excluídos que se uniam na defesa da sobrevivência e de alguma dignidade humana contribuíam para a criação desses laços afetivos.
Essa época, pela rudeza da vida e pelo instinto que ainda prevaleciam no ser humano, de uma maneira geral, comprova a existência de sentimentos e virtudes que caminham na direção de uma sensibilidade solidária que vai se alargando quanto maior é a evolução dos costumes e das pulsões das emoções, conforme defende Elias (1994) e desvelamos na evolução histórica de diferentes períodos.
Nessa análise dos significados de solidariedade do passado, os primeiros indícios de uma socialidade nascente surgem, partindo inicialmente da visão do eu como individualidade para em seguida abrir-se à idéia do nós. Ao compreender esse laço que une os homens entre si, essa força mobilizadora que agrega grupos, famílias, comunidades e idéias em torno da socialização do ser na civilização antiga, solidificaram valores morais e éticos que na efervescência de acontecimentos e mudanças sociais vão adquirindo novos sentidos ao longo da história, incorporando-se ao anterior.
No entanto, podemos inferir que nessa forma de organização social a solidariedade era entendida como solidus, que designa entre os juristas romanos laço que une entre si os devedores de uma quantia, de uma obrigação, a qual cada um é responsável pelo todo. Havia um sentido corporativista desses devedores que se uniam em relação aos credores, prevalecendo esse sentido sobre as verdadeiras solidariedades, cuja emergência naquela época não podia entender. (DUVIGNAUD, 2000).