I. Raça Autóctone Equina Garrana
5. Sistemas de Exploração
O Garrano é um animal de baixo valor económico e, como tal, a sua criação só é viável num sistema de exploração de baixo custo. As características do sistema de criação do Garrano estão intimamente ligadas à região de criação da raça.
Estes animais podem ser encontrados em liberdade (sistema extensivo) ou estabulados (sistema intensivo). Os indivíduos etnicamente mais representativos da raça vivem socialmente, em manadas, num regime de liberdade quase total.
5.1. Sistema extensivo ou de pastoreio livre
Seguindo a caracterização utilizada na descrição da área geográfica, pode-se associar o sistema de exploração extensivo à “zona de criação”. Os animais que vivem em regime livre são assilvestrados, descendentes de outros animais que foram domesticados e posteriormente libertados, tendo readquirido, com sucesso, comportamentos sociais próprios da espécie (Caetano e Ferreira, 2003). Este sistema de exploração tem determinadas características que o definem perfeitamente.
No sistema de exploração extensivo, os Garranos são mantidos durante todo o ano em pastoreio livre, por serras, baldios, utilizando pastos naturais e arbóreos, matos e, deste modo, consomem uma grande variedade de alimentos especialmente na primavera (altura do ano em que os rebentos dos matos e as folhas das árvores são mais tenras) (Serôdio, 1992).
Os Garranos sempre pastorearam nas regiões montanhosas do Minho em eguadas que pastavam livres. Estas eguadas organizavam-se em haréns, em que um garanhão poderia ter até vinte éguas (Brito et al., 2011). Contudo, estes animais possuem proprietários que os reconhecem pelas várias marcas de identificação, desde as marcações a fogo, malhas brancas ou outras marcas postas pelo proprietário para facilitar a identificação dos animais.
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No sistrema extensivo, a reprodução é feita completamente em liberdade, e deste modo, com muito pouco controlo por parte do homem, uma vez que os animais apenas têm contacto com o homem uma vez por ano, na altura das concentrações para marcação dos poldros, que ocorre por volta do mês de outubro (quando os poldros têm seis a oito meses) (Serôdio, 1992). As referidas concentrações consistem na recolha dos animais em mangas de contenção (em vários pontos estratégicos de acordo com as zonas onde os Garranos mais permanecem) para posterior identificação. As manadas são detetadas pelos criadores (Figura 5) e outros ajudantes nos locais onde normalmente pernoitam, e são então conduzidas até às mangas de maneio que terminam num tronco de contenção (Figura 6).
Figura 5-Manada de garranos (fonte própria) Figura 6-Animais no tronco de contenção (fonte própria)
Já no tronco de contenção, os animais são identificados eletronicamente (Figura 7), com o número de ordem (Figuras 9 e 10) que lhes é atribuído para inscrição no Livro Genealógico de nascimentos e é feita recolha de sangue (Figura 8) para posterior análise de paternidade. São cortadas as crinas e são também desparasitados. É também neste processo que é feita a seleção dos animais e são separados os animais para venda (para carne ou para serem desbastados e posteriormente usados para trabalho) e que são levados para casa dos criadores para recria, dos que ficam no monte, normalmente no monte ficam mais fêmeas. Findas todas estas operações os animais são novamente libertados para o monte. Todos os anos, um elevado número de Garranos consegue escapar às concentrações, podendo passar anos sem entrar nas diversas mangas de maneio (Barcarena, 2012).
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Figura 7-Colocação de microchip (fonte própria) Figura 8-Recolha de sangue (fonte própria)
Figura 9-Colocção do número de ordem (fonte própria)
Figura 10-Número de ordem (fonte própria)
Este sistema tradicional de exploração dos Garranos talvez tenha sido a causa da preservação da raça ao longo dos tempos, uma vez que o facto de terem proprietários interessados em tirar rendimentos dos animais fez com que estes estivessem protegidos de lobos e ladrões (Barcarena, 2012).
Neste sistema de exploração não é feita suplementação alimentar nem existem abrigos artificiais, pelo que a seleção natural está sempre presente, pondo à prova a rusticidade destes animais que vem dos seus antepassados primitivos, em prejuízo do crescimento ou outras características produtivas. É de realçar a seleção que tem vindo a ser exercida pelos criadores através da escolha dos poldros que se destinam à substituição dos garanhões ou através da introdução de novos garanhões em determinadas zonas. A preferência dos criadores é no sentido de ter animais típicos da raça em vez de animais mais exóticos que possam ser mais bonitos, mas são sem dúvida menos eficazes nas suas funções de reprodutores e defensores da eguada (Serôdio, 1992).
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5.2. Sistema semiextensivo
O sistema de exploração semiextensivo aparece como sendo uma variante do sistema extensivo, em que por opção de alguns criadores, ou por necessidade de utilizar os animais em algumas atividades ou pequenos trabalhos agrícolas, se procede à recolha dos animais em “cortes” ou zonas mais abrigadas (“bouças” e “lameiros”) onde os animais podem usufruir de melhor alimento e abrigo durante o inverno. Nestes casos, os Garranos são suplementados com feno ou palha de milho, centeio, aveia ou cevada, com grão de cereal, farelo, batata, entre outras opções. Na primavera os Garranos são novamente soltos e deixados em liberdade no seu habitat natural (Serôdio, 1992).
5.3. Sistema intensivo ou com estabulação
Tal como no sistema de exploração extensivo, também podemos associar ao sistema de exploração intensivo ou com estabulação uma zona, neste caso, à “zona de dispersão”.
No sistema de exploração intensivo, os Garranos são criados completamente integrados em explorações agrícolas. Este sistema caracteriza-se por ter efetivos pequenos, geralmente utilizados em pequenos trabalhos agrícolas, para tiro ligeiro, carga a dorso ou como montada. Os Garranos são mantidos estabulados, por vezes com bovinos, que acompanham durante o dia em pastoreio, em pastagens semeadas ou lameiros. Os Garranos estabulados alimentam-se um pouco de tudo o que se produz na exploração em que se encontra, variando com a região. Normalmente alimentam-se de palha de cereais praganosos, palha de milho, fenos, farelos, batatas ou produtos hortícolas. No caso dos Garranos que se destinam a fins lúdicos, como corridas de passo travado, a alimentação é melhorada com grão de cereal, alimento composto comercial, ou ainda com as tradicionais “sopas de cavalo cansado”, feitas com grão ou broa de milho misturada com vinho e açúcar, normalmente fornecidas na véspera da corrida (Serôdio, 1992).
A estabulação tradicional deste sistema são as cortes, geralmente deficientes em condições higiossanitárias, arejamento, iluminação e drenagem (normalmente o pavimento é terra batida). A cama dos animais é acumulada permanentemente, apenas vai sendo acrescentada palha ou mato e depois a cama é retirada completamente algumas vezes por ano. A bebida é fornecida a balde ou em tanques fora do estábulo.
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Como consequência deste regime, aparecem animais com aprumos deficientes, notando-se melhores condições morfológicas nos animais que permanecem em locais abertos durante o dia (Serôdio, 1992).
Neste sistema de exploração, a reprodução é feita à mão, ou seja, como nos animais controlados. Utilizam-se garanhões variados, de diferentes proprietários, havendo sempre um pagamento em géneros ou dinheiro ao proprietário do garanhão. Devido à variedade da origem dos garanhões neste sistema, a população é bastante heterogénea. Efetuam-se frequentemente cruzamentos de Garranos com burros para obter muares, muito valorizados em algumas regiões (Serôdio, 1992).
A fertilidade e a produtividade não são muito elevadas, o que se pode justificar com a fraca alimentação durante a gestação e o aleitamento, o excesso de trabalho perinatal e as deficientes condições de higiene e maneio em geral. Excetuando algumas campanhas de vacinação obrigatória por causas endémicas, é raro os animais serem vacinados (Serôdio, 1992).