No contexto do estaleiro, após o estudo apresentado com a identificação das possibilidades da ocorrência de impactos ambientais do complexo industrial em terra e das embarcações docadas, constata-se que as atividades que ocorrem em um dique de manutenção, por serem realizadas a céu aberto, com difícil controle dos efluentes tóxicos provenientes dos jateamentos dos cascos são a principal fonte de contaminação.
Embora, há alguns anos, seja proibido o uso de TBT em pequenas embarcações e que muitos fabricantes estejam desenvolvendo tintas com outras opções de biocidas, no tratamento das águas geradas, este composto deverá constar nas exigências futuras, uma vez que, conforme relatado neste estudo, ainda existe em 70% das embarcações. De acordo com os estudos efetuados, também há evidências deste potencial efeito prolongado para o TBT, permanecendo nos sedimentos depositados pelas névoas e lascas de tintas nas vizinhanças, nos fundos do mar adjacente ao dique e nas rotas dos navios.
Além disso, há o fato de os tratamentos de efluentes serem realizados apenas para obedecer às legislações, estipulando-se que seu descarte não altere o enquadramento das águas do corpo receptor, fato que não garante o total tratamento dos efluentes, uma vez que para consegui-lo, deveria ser conhecida a sua caracterização, sendo desconhecidas e variáveis muitas das substâncias contidas no efluente. Outro aspecto a ser observado, é que estes efluentes não são contínuos, possuindo a particularidade de apresentarem qualidades diferentes em cada operação.
Após a caracterização, será fundamental a simulação do tratamento das águas residuárias, necessitando levar em consideração que deverão ser executadas diferentes
simulações, devido ao aporte de efluentes e resíduos variáveis, uma vez que, depende da etapa de trabalho que está sendo executada no interior do dique. Estas águas, toda vez que forem tratadas, irão apresentar mudanças na qualidade, o que irá dar origem a um sistema de tratamento descontínuo.
Em relação à simulação, esta poderá ser iniciada pela precipitação química, já que, devido à presença de metais, provavelmente será utilizada em uma das etapas do tratamento definitivo. Nesta fase, deverá ser observado que há probabilidade da ocorrência de outras reações e precipitações, não previstas inicialmente, pois existem diversos contaminantes inseridos no efluente, não identificados antecipadamente.
Além do problema, analisado sob o ponto de vista de contaminantes, há o foco da quantidade, isto é: o grande volume de águas residuárias geradas durante as chuvas, pois estas, durante o seu fluxo, efetuam o carreamento dos resíduos e dos demais efluentes gerados nos processos industriais. Outra forma de contaminação ocorre com o enchimento do dique, uma vez que as águas são bombeadas das bordas do cais, área contaminada por resíduos em suspensão e transportadas para o interior da doca. Nesta última atividade, com a implantação de BMPs e com a constante limpeza do dique, serão minimizadas as transposições de sedimentos.
Após os estudos dos diferentes processos de tratamento de efluentes químicos implantados em estaleiros internacionais, pode-se concluir que os dois componentes diferenciais nos tratamentos ainda são o TBT e os aditivos químicos, pois o primeiro é tão persistente e ainda são utilizados nas grandes embarcações, e o segundo, existente nas fórmulas das composições das tintas marítimas, geralmente, é inacessível, por se constituir em segredo industrial.
Pela pesquisa realizada, devido à grande variabilidade das características das águas residuárias, para o caso do Arsenal, recomenda-se o tratamento parcial, compreendendo os tratamentos preliminar e primário, com o recolhimento prévio dos sólidos grosseiros e, principalmente, lascas de tintas em suspensão, instalando caixas de areia mecânicas, seguidas de caixas separadoras de água e óleo, para, então, acessar o sistema de tratamento primário, incluindo as clarificações químicas dos efluentes e a precipitação dos metais. Após estas etapas, deverá ser realizado o descarte na rede pública, onde será dado o prosseguimento do tratamento.
Em relação ao tratamento primário, para um conhecimento mais preciso das substâncias que compõem o efluente, deve-se montar um protótipo com um “by pass” das águas residuárias e, constantemente, monitorar o fluxo. Com a coleta desses efluentes,
deve-se estabelecer um tratamento padrão e organizarem-deve-se planilhas de acompanhamento, com informações diárias sobre todas as operações ocorridas no dique, relativas a cada atividade, na qual sejam anotadas as ocorrências comuns e alertadas as situações em que as operações fujam das atividades usuais do dique, tais como no caso em que houver atracação de embarcação, proveniente de local diferente das origens dos navios que usualmente são docados, anotando-se, por exemplo, o tipo de tinta incrustante, corrosivas, ou anti-congelantes retiradas do seu casco, os aditivos aplicados, os vazamentos ocorridos, as águas residuárias descartadas e, principalmente, o fluxo completo percorrido pelas águas de resfriamento.
Como já destacado, após verificar a complexidade da realização do tratamento para o descarte na baía, sugere-se o tratamento preliminar com separador de água e óleo seguido pelo físico- químico, garantindo a retirada de metais, e a seguir, descarte na rede pública, fato que possibilita o tratamento biológico em uma grande estação de tratamento, que terá micro-organismos capazes de eliminar os compostos orgânicos remanescentes.
Processos de tratamentos biológicos podem remover contaminantes originados na limpeza dos cascos, resíduos que têm outros efeitos sobre o ambiente (por exemplo, produtos químicos solúveis de anti-incrustantes), porém, segundo Frenzel (2003), a mais rentável forma de realizar este tipo de tratamento será quando conseguir descartar em um sistema de esgotos público, após ter sido retirada uma parte dos resíduos e sólidos em suspensão.
Para o caso de estaleiros situados em áreas fora do alcance de redes públicas, caso do estaleiro a ser construído na Baía de Sepetiba, o tratamento deverá ser estudado considerando-se a viabilidade técnica e econômica de aquisição de robôs nos trabalhos de carenamento, fato que segrega bem os efluentes, e/ou considerando-se a instalação de uma ETEI bem equipada, com remoção de TBT, indicando-se a oxidação por UV ou a remoção por carvão ativado.
Em alguns projetos de estaleiros no Brasil, já há a preocupação de, na etapa de enchimento do dique para a saída da embarcação, derivar 20% das águas superficiais superiores para sistema separador de água e óleo. No caso dos óleos pesados, deverão ser retirados junto com os resíduos sólidos.
Para o resfriamento dos equipamentos, ressalta-se é prejudicial para o navio a aspiração e utilização das águas do mar, poluídas por esgoto, contendo nitrogênio amoniacal, pois este corroi as redes de cobre das embarcações atracadas ou docadas.