Capítulo 1 – Considerações metodológicas
1.2. Sobre análise documental de prontuários do Setps/CPJSA
A equipe do Setps/CPJSA, em 2013, recebeu 249 processos judiciais para análise sobre violência doméstica e familiar contra meninas e adolescentes, mulheres adultas e idosas, registradas ou não com a informação “Lei Maria da Penha”, num universo de 346 solicitações novas de análises de variados temas. Em 2014, foram recebidos 350 processos judiciais referentes à população feminina vitimada, dentre 499 solicitações novas. Eventualmente, nesses dois anos, haviam solicitações consideradas “retornos”, ou seja, situações que já haviam passado por análise prévia. Esses casos de “retorno” só foram considerados para análise nesta tese se se referissem ao ano selecionado (2013 ou 2014). Se tivessem tido a primeira entrada em anos anteriores, foram excluídos da seleção.
A demanda ao Setor de Análise Psicossocial é sempre um recorte da demanda total às Promotorias de Justiça. A demanda ao Setps/CPJSA, em 2013, se referiu a cerca de 15% dos casos que entraram nas Promotorias de Justiça Especiais Criminais e de Defesa da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, no ano. Em 2014, as solicitações ao Setps/CPJSA representaram cerca de 20% da demanda às PJECVDs. Os dados produzidos pela Corregedoria do MPDFT não fazem distinção entre processos judiciais registrados por meio da Lei Maria da Penha e por outros institutos jurídicos nas Promotorias de Justiça Especial Criminal e de Defesa da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar, da Coordenadoria de Promotorias de Justiça de Samambaia, como demonstra a tabela a seguir:
Tabela 1: Entrada de Feitos Novos nas Promotorias de Justiça Especial Criminal e de Defesa da Mulher em Situação de Violência Doméstica de Samambaia
Fonte: Corregedoria Geral do MPDFT, 2015.
A equipe psicossocial, ao receber os processos judiciais com demanda de análise, chama nativamente de “prontuários” seus documentos de trabalho. Estes são uma espécie de dossiê que contêm cópias dos autos processuais, cópias de relatórios técnicos, de formulários e de questionários, resumos de entrevistas realizadas, dentre outros. Como o interesse era analisar a interlocução entre campos de conhecimento, a análise dos processos judiciais nas Promotorias de Justiça de Samambaia ficou restrita aos processos judiciais encaminhados ao Setps/CPJSA. Ou seja, aos processos judiciais acrescidos dos documentos produzidos pelo setor, tornados dossiês e denominados prontuários. Assim, não trato nesta tese dos processos judiciais que não tenham passado minimamente pelo trabalho psicossocial da equipe do MPDFT.
A seleção desses prontuários permitiu analisar os processos judiciais desde seu início (boletim de ocorrência) até a finalização (atas de audiência com decisões judiciais diversas; suspensão condicional ou informal do processo, sentença absolutória ou condenatória, arquivamento). A seleção se deu por meio dos arquivos do Setor Psicossocial para permitir análise mais completa dos atendimentos realizados na Promotoria de Justiça: foram acessados não só os relatórios técnicos, como também registros profissionais em prontuários e pastas próprias de cada processo/procedimento judicial.
A seleção se deu a partir de uma planilha de controle de entrada e de saída de processos judiciais analisados pelo Setor de Análise Psicossocial de Samambaia. Nessa planilha há as seguintes informações: a) data de entrada da solicitação; b) promotoria de justiça de procedência; c) nome das pessoas envolvidas (vítimas e autores dos fatos); d) números do processo judicial e interno ao Ministério Público; e) número do “prontuário”; f) tema do
pedido de análise referente ao processo judicial (violência contra a mulher; violência contra criança e adolescente; violência contra pessoa idosa; violência contra pessoa com deficiência; violência contra pessoa interditada; guarda e regulamentação de visitas; avaliação inicial de necessidade de interdição; análise institucional; avaliação de suspensão condicional do processo; Outros); g) se prontuário novo ou retorno; h) prazo estabelecido pela promotoria; j) local de moradia da vítima; l) profissional responsável pelo caso; m) tipo de solicitação (acolhimento de mulher em situação de violência doméstica ou estudo psicossocial); n) data do relatório.
A imagem abaixo provê visualização desses dados coletados na planilha do setor:
Imagem 1: Controle de entrada e saída de Processos do Setor de Análise Psicossocial de Samambaia
Fonte: Setor de Análise Psicossocial de Samambaia (CPJSA/MPDFT)
A seleção dos documentos do SETPS/CPJSA foi diferenciada a depender dos objetivos a serem alcançados. Em primeiro lugar, selecionei todos os pedidos referentes às meninas, adolescentes, adultas e idosas vítimas de violência para fazer perfil sociodemográfico da população feminina atendida pelo setor. Nesse caso, a análise alcançou a totalidade dos processos judiciais referentes à população do sexo feminino que deram entrada no SETPS/CPJA, que correspondem a 71,9% do trabalho demandado ao Setor Psicossocial, em 2013; e 70,1% da demanda total, em 2014, como demonstra a tabela abaixo.
Tabela 1: Relação entre universo total e processos judiciais selecionados para análise de perfil populacional das pessoas de sexo feminino atendidas pelo SETPS/CPJSA 2013 e 2014
Quantidade total de processos judiciais que
deram entrada no SETPS/CPJSA Quantidade de processos selecionados paraanálise quantitativa (perfil da população feminina vítima de violências)
2013 346 (100%) 249 (71, 9%)
2014 499 (100%) 350 (70,1%)
Fonte: Setor de Análise Psicossocial de Samambaia (CPJSA/MPDFT)
Em primeiro lugar, realizei análise quantitativa, de perfil populacional da totalidade da população feminina atendida como “vítima de violência” pelo Setor psicossocial nos anos de 2013 e 2014. Apresento esse perfil por faixa etária, por situação sócio-ocupacional, por inserção profissional, por escolaridade e por renda. Apresento da mesma forma, o perfil sócio- demográfico e de escolaridade de homens e mulheres atendidos como autores/autoras de violência, tal como referidos nestes mesmos casos. Comparando o perfil sócio-demográfico dessa demanda atendida pelo Setor Psicossocial (Vítimas do Sexo Feminino e Autores) com os dados populacionais censitários coletados pela Companhia de Planejamento do Distrito
Federal (CODEPLAN) nas regiões de Samambaia e do Recanto das Emas, permito-me inferir que o perfil das vítimas e de agressores parece seguir o perfil sócio-demográfico e de escolaridade do local em que moram.
Como há, nos prontuários, alta taxa de não informação no que se refere à raça, à renda individual e familiar das pessoas atendidas no MPDFT, indico a necessidade de mais cuidado na coleta desses dados, por parte de servidores públicos, de modo que se venha a conseguir obter evidências empíricas sobre os processos de vitimização e de criminalização sobre a população geral.
Apresento os dados do perfil racial da população atendida tal como aparece nos “prontuários”. Ainda que sabedora do alto grau da taxa de não informação, entendo que são reveladores da necessidade de melhoria da qualidade da coleta dos dados. Como os dados coletados do perfil racial pelo SETPS são escassos e não permitem inferência, apresento os dados gerais da CODEPLAN para a localidade. É possível presumir que o perfil racial dos atendidos tenha forte relação com o perfil racial dos dados populacionais coletados pela CODEPLAN, já que o perfil sócio-demográfico e de escolaridade dos atendidos acompanha de perto o perfil sócio-demográfico e de escolaridade da população local.
A partir da planilha da totalidade dos atendimentos dos casos femininos vitimados por violência, foi possível indicar quantitativamente a distribuição das violências contra mulheres judicializadas registradas por meio da Lei Maria da Penha e por meio de outros institutos jurídicos. Também foi possível apresentar as dificuldades em realizar tal levantamento quantitativo de dados. Seguramente, foi possível apresentar os dados dos vínculos entre autores e vítimas de violência, assim como os dados referentes à escolaridade e à faixa etária das pessoas envolvidas.
Para análise quantitativa dos processos judiciais referentes a todas as vítimas do sexo feminino utilizei os seguintes referenciais de coleta de dados: a) uso ou não da Lei Maria da Penha no registro da ocorrência; b) grau de escolaridade; c) faixa etária; d) renda individual e familiar; e) raça e cor anotadas nos processos judiciais; f) local de moradia; g) informações sobre encaminhamentos realizados pelo Setor Psicossocial; h) vínculos entre as pessoas envolvidas nas situações de violência; i) inserção no mercado de trabalho; j) tipo de atividade desenvolvida no mercado de trabalho; l) exemplos de profissões narradas por vítimas e autores de violências.
feminina atendida pelo Setps/CPJSA, em 2013 e 2014, separei os processos segundo a presença da informação de uso ou não da Lei Maria da Penha. Destes, selecionei 24 dossiês para análise qualitativa documental nessa tese: 12 para o ano de 2013 e 12 para o ano de 2014. Esta seleção não pretendeu obedecer a critérios probabilísticos e representativos. Utilizei uma forma de seleção não probabilística, mas que fosse indicativa, obedecendo a critérios mínimos de duas formas consolidadas de “amostragem não probabilística”21.
Combinei livremente a proposta de uma “amostragem por quotas” (o mesmo número de processos para cada ano e o mesmo número de processos por mês), e uma “amostragem por escolha racional”: os documentos escolhidos deveriam não somente terem sido registrados com a temática “violência contra a mulher” por meio da Lei Maria da Penha como terem passado por todos os procedimentos técnicos considerados necessários pela equipe psicossocial, incluindo relatório técnico escrito. Como o objetivo inicial era conhecer como a equipe psicossocial havia se posicionado em cada processo judicial, não poderiam ser selecionados processos sem relatório técnico para esse fim.
Tal seleção foi feita em duas etapas. Uma primeira seleção foi feita, mês a mês, selecionando um prontuário que tivesse tido entrada no setor psicossocial relativo a Lei Maria da Penha, a partir do número do prontuário e da temática descrita na planilha do setor (“violência contra mulher”). Após esta seleção inicial obtive 12 “prontuários” referentes a cada ano. Não havia, contudo, me certificado se continham ou não relatórios técnicos, ou se continham “certidão” (documento usado para finalizar a análise de um processo quando não se consegue realizar procedimentos técnicos).
Assim, decidi descartar sete prontuários inicialmente selecionados do total, pois não tinham relatório técnico e realizar uma segunda etapa. Voltei à planilha e selecionei, a partir da listagem outros prontuários referentes aos meses de entrada de cada um dos prontuários descartados. Nessa segunda parte da seleção arbitrária, utilizei somente os campos “tema”, “data do relatório técnico” e “tipo de documento”, na planilha. Fiz a seguinte combinação: o primeiro processo, naquele mês específico, que estivesse listado como “violência doméstica contra mulher” e contivesse a informação “relatório técnico” era selecionado.
Um processo judicial finalizado com “certidão” permaneceu na análise qualitativa. Fora
21 De acordo com Marina Marconi e Eva Lakatos (2003; 2002), o processo de amostragem não-probabilística se refere a uma forma não aleatória de seleção. Ou seja, a mostra não pode ser submetida a certo tratamento estatístico. Nesse sentido, sempre há parcela de subjetividade de pesquisadores na construção da amostragem. A amostragem não-probabilística pode diminuir as chances de generalização estatística de resultados. Entretanto, pode ser útil para montar a imagem da realidade acessada.
um processo selecionado no primeiro momento, combinando a ideia de ser um processo por mês, que contivesse a temática requerida. Não o procurei ou escolhi, mas o retive na análise, sabedora de que ele adicionaria informações relevantes diante de um interesse específico: era um processo judicial que envolveu debate e tensão entre a Promotoria e o Juizado e que ora retornava para análise no setor psicossocial. A quantidade de informações no dossiê de Josibel22 era grande.
O processo judicial referente ao caso de Josibel continha sentenças, recursos e pedido de análise psicossocial após tantos anos de judicialização (a ocorrência policial foi registrada em 2006), para saber a “situação atual” daquela mulher, o que destoava dos prontuários descartados. Diante da quantidade de informações disponíveis, pesquisei um pouco melhor sobre essa mulher e descobri rapidamente que esse processo judicial representou historicamente um avanço no que tange aos direitos das mulheres. O caso foi noticiado por portais de Direitos das Mulheres e contém publicamente trechos das decisões e dos andamentos processuais. O processo de Josibel foi relevante para decisão do Supremo Tribunal Federal de que casos de lesão corporais em casos de violência doméstica contra mulheres não estarem condicionadas à representação da vítima. O processo judicial demonstra as fissuras e disputas dentro do próprio espaço jurídico sobre como o caso deveria ser entendido, como explorarei no capítulo 423.
Esses vinte e quatro processos judiciais selecionados a partir da planilha do controle do setor, dentre os prontuários de 2013 e 2014, permitiram análise das formas de encaminhamento dos processos e das características das manifestações ministeriais e psicossociais de cada dossiê/processo (“prontuário”). Apresento análise quantitativa do conjunto destes 24 dossiês/processos, entendendo que seu resultado pode ser indicativo do que ocorre no atendimento dos casos da Lei Maria da Penha em que há solicitação pelo Ministério Público em Samambaia por manifestação do setor psicossocial. A análise quantitativa tem o caráter meramente indicativo pois se trata de amostragem não probabilística, como já sublinhado.
Contudo, os dados qualitativos que sustentam a tese são profundos: não analisam
22 A história de Josibel faz parte de um dos 24 dossiês selecionados em amostragem não-probabilística.
23 Ver, por exemplo, documentos que estavam no dossiê analisado, mas também estão na internet com pequena pesquisa baseada no nome de Josibel:
http://portalantigo.mpba.mp.br/atuacao/criminal/material/recurso_sentido_estrito_lei_maria_penha.pdf http://portalantigo.mpba.mp.br/atuacao/criminal/material/apelacao_lei_maria_penha.pdf
Ou notícias em portais não oficiais:
meramente relatórios, mas o conjunto das manifestações e comunicações ministeriais e psicossociais, das decisões e dos encaminhamentos que acompanham o desenrolar do processo. Para organizar os dados, compilei os seguintes conteúdos dos 24 dossiês (“prontuários”) por meio de um pequeno formulário com as seguintes perguntas: número do processo judicial que deu entrada no SETPS/CPJSA; data do fato registrado em ocorrência; tipo de crime registrado; finalização (último andamento processual registrado no sistema de informática do MPDFT – SISPROWEB –, em março de 2016); data da denúncia (se houver); informações da denúncia; data do relatório técnico; outros procedimentos (como encaminhamentos ou ofícios de órgãos públicos e privados); promotor(es) do caso; demais informações (conteúdos dos relatórios, denúncias, fatores que chamaram atenção da pesquisadora); outras ocorrências registradas (anteriores e posteriores ao processo judicial analisado). A tabela a seguir ilustra como foi realizada essa compilação de informações:
Tabela 2: Coleta de informações e conteúdos referentes à amostragem de processos judiciais
Número pro- cedimento MPDFT (Sisproweb) Tipo de cri- me registra- do Promotor de justiça res- ponsável Conteúdo das manifesta- ções ministe- riais registra- das no siste- ma de infor- m á t i c a d o MPDFT Último an- damento do proce- dimento judicial Suges- tões conti- das no re- latório técnico psicosso- cial Suges- tões aca- tadas pelo promotor de justiça (encami- nhamen- tos e ofí- cios envi- ados, in- forma- ções em atas de audiência) Data da denúncia (se hou- ver) D a t a d o relatório técnico psicosso- cial Outras ocorrên- cias regis- tradas Outros procedi- mentos e informa- ções rele- vantes
Adotei metodologia de pesquisa e estratégia de amostragem distinta de Sinara Gumieri Vieira (2016). A autora, em sua dissertação de mestrado, analisou processos judiciais registrados entre 2006 e 2012 em todo o Distrito Federal, a partir de amostragem probabilística aleatória e estratificada. Porém, sua pesquisa não pretende levar em consideração os contextos de produção de despachos e de relatórios, e também não contempla a compreensão dos diferentes nós relacionais que se dão no contexto do MPDFT para a implementação da Lei Maria da Penha e das diferentes interações que se dão entre profissionais e populações atendidas, como é um dos meus objetivos.
Exemplifico. Gumieri Vieira analisa principalmente os relatórios psicossociais produzidos, na sua qualidade de documento/produto, e não na sua qualidade de processo de produção de documento em situação relacional (como dito e vivido). Os relatórios que analisa são os produzidos após a intervenção da suspensão condicional do processo judicial. Estes documentos, em geral, reportam a finalização de intervenções de médio prazo (entre 3 e 6
meses). Na amostragem da autora, somente seis casos (2% dos relatórios acessados) se referiram à atuação das equipes multidisciplinares de assessoria técnica aos Juizados e Ministério Público. Provavelmente, essas equipes estavam vinculadas ao Poder Judiciário e à rede de serviços por ele acionada, e não ao Ministério Público, como é o caso dos relatórios que analiso, já que a expansão das equipes de análise psicossocial do MPDFT se deu a partir de 2013. O que quero apontar é que não só as nossas metodologias são diferentes como são distintos os objetivos de profissionais e as condições de produção dos relatórios analisados por Gumieri Vieira face aos objetivos e às condições de produção dos relatórios que analiso. Talvez por isso, ou melhor, em parte por isso, cheguemos a conclusões distintas sobre os modos de atuação efetivos dos setores psicossociais e de suas potencialidades.
Gumieri Vieira (2016), em sua pesquisa, adota abordagem teórico-metodológica muito distinta da minha. Ela nomeia sua pesquisa como arquivística. De acordo com ela:
Mas, o estatuto epistemológico do arquivo adverte: o conteúdo do que foi dito e vivido nas sessões é irrecuperável pelas páginas dos autos processuais. O que importa são os elementos discursivos dos relatórios e o que são capazes de movimentar nas práticas judiciárias, isto é, na vinculação dos sujeitos aos saberes-poderes que arbitram seus atos. […] Aplicada à emergência dos saberes psi na violência doméstica judicializada, a perspectiva foucaultiana levanta a questão: do que os relatórios psicossociais falam e o que movimentam nos processos analisados? (VIEIRA, 2016, p. 41).
Concordo com a proposta de Gumieri Vieira ao perguntar sobre o que os relatórios psicossociais movimentam. Posso dizer que, igualmente, essa é uma das perguntas de minha pesquisa. Entretanto, diferentemente desta autora, tenho como objeto o diálogo e os conflitos postos entre equipes de assessoria psicossocial (que não realizam acompanhamento na suspensão condicional do processo) e promotores de justiça, assim como as relações produzidas entre a equipe de assessoria psicossocial e a população atendida. Preocupam-me os contextos de produção dos relatórios, as relações sociais que produzem as disputas e as consonâncias entre área psicossocial e Direito nas interações entre pessoas concretas no MPDFT e com a população demandante. Para atingir meu objetivo, são necessárias não somente a pesquisa em arquivos, mas conhecer a concretude das interações entre diferentes agentes no espaço jurídico.
Em terceiro lugar, e tendo afirmado minha posição acima, e minha escolha pelo aprofundamento da análise qualitativa, explico que, para complementar meu campo de análise documental, adicionei “estudos de caso” de seis processos judiciais não contidos dentre os 24
“prontuários” descritos acima que permitissem revelar as relações sociais em processo. Esses seis estudos de caso permitiram o aprofundamento de situações complexas que revelassem problemas, dilemas, detalhes, debates sobre a procura de sentidos e indicassem modalidades de como os casos se inserem e são inseridos no diálogo entre promotoras/es, profissionais do setor psicossocial e mulheres em situação de violências demandantes da atuação jurídica por meio da Lei Maria da Penha.
O estudo qualitativo e quantitativo a partir da amostragem não-probabilística de 24 processos acrescido da análise de seis estudos de casos escolhidos intencionalmente foi realizada a partir da observação e da experiência etnográfica e de trabalho. Os seis casos foram escolhidos por que geraram tensões e desconfortos na equipe do Setps/CPJSA. Essas tensões se referem tanto às dúvidas sobre quais caminhos a equipe psicossocial deveria tomar como no que tange às discussões entre equipe e promotores/as de justiça (tentativa de influenciar decisões, marcações de audiências, debates sobre ações possíveis).
Mais especificamente, por meio desses estudos de casos, conto as histórias de Ellen (capítulo 4) e de Juliana (capítulo 5), dois casos que exigiram muito mais do que a entrevista breve de acolhimento e que ensejaram várias ações. Outras histórias selecionadas, mas não comentadas em sua integralidade são as de Elisângela (atendida em 2014), de Valquíria (atendida tanto em 2013 quanto em 2014) e de Aparecida (atendida ao longo de 2014). Somente um dos casos selecionados para análise qualitativa, que se deu nessa perspectiva de