4.2 A coordenação de Alimentação Escolar em Canindé
4.3.2 Sobre Educação Alimentar e Nutricional EAN
A Lei 11.947/2009 institui que a Educação Alimentar e Nutricional deve perpassar o currículo escolar. Assim, a escola assume papel central na condução de boas práticas alimentares que possam ajudar os aprendizes a fazerem boas escolhas, a partir da sua cultura alimentar, respeitando seu gosto individual e favorecendo a inclusão de alimentos regionais no cardápio da alimentação escolar. Entendemos a EAN como um “[...] campo de conhecimento e de prática contínua e permanente, transdisciplinar, intersetorial e multiprofissional que visa promover a prática autônoma e voluntária de hábitos alimentares saudáveis” (BRASIL, 2012, p. 23). O Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para as políticas públicas estabelece ainda que a prática
[...] da EAN deve fazer uso de abordagens e recursos educacionais problematizadores e ativos que favoreçam o diálogo junto de indivíduos e grupos populacionais, considerando todas as fases do curso da vida, etapas do sistema alimentar e as interações e significados que compõem o comportamento alimentar (BRASIL, 2012, p. 23).
Como essa discussão adentra o campo escolar e ao mesmo tempo é intersetorial, envolvendo diferentes perspectivas de atuação em diferentes áreas do saber, incluindo, nesse rol, o campo da nutrição e a ação de seus profissionais, era preciso entender se essa discussão estava sendo construída junto aos sujeitos escolares ou se havia alguma ação, mesmo que embrionária, sobre o assunto no município de Canindé.
A escolha de levantar essa discussão a partir da comissão é pelo fato de que nela está a responsável técnica pela nutrição que, segundo a resolução do Conselho Federal de Nutrição - CFN de nº 465/ 2010, entre outras coisas, o nutricionista é responsável por
[...] propor e realizar ações de educação alimentar e nutricional para a comunidade escolar, inclusive promovendo a consciência ecológica e ambiental, articulando-se com a direção escolar e com a coordenação pedagógica da escola para o planejamento de atividades com o conteúdo de alimentação e nutrição (Art. 3; inciso iv, CFN, 2010). Sobre isso, Dona Petúnia relata que, por parte da comissão, não há nenhuma intervenção com relação à EAN; os funcionários que estão lá não dão conta de fazer mais essa tarefa, pois há muita coisa de logística para resolver, e eles também não são qualificados para tal empreitada. Na comissão, há apenas uma nutricionista que planeja o cardápio para cento e quarenta escolas e, assim, sequer consegue realizar a vistoria em todas elas. A nutricionista
somente visita as escolas quando há alguma reclamação ou denúncia, nunca realizando um trabalho de prevenção.
Consta no sítio oficial do FNDE que atualmente são atendidos pelo PNAE de Canindé mais de quatorze mil alunos. Para o Conselho Federal de Nutrição, para esse contingente de alunos seriam necessários, no mínimo, 05 profissionais de nutrição no quadro técnico, com o mínimo de 30 horas de trabalho semanais. Na comissão de alimentação de Canindé, consta apenas 1 coordenador de logística, 1 nutricionista e 2 assistentes administrativos que ajudam na entrega dos produtos e na prestação de contas. Dessa forma, constata-se uma inadequação na quantidade dos profissionais perante às exigências legais e à gestão local do PNAE.
Essa defasagem na comissão de alimentação escolar de Canindé é agravada pelo fato de a responsável técnica não ser concursada, mas somente contratada. Isso inviabiliza, inclusive, a continuidade de qualquer ação que possa ser feita pela profissional, visto que não goza de estabilidade no seu cargo e não se sabe até quando ainda ficará no município.
Dona Petúnia relatou também que as necessidades das escolas são tão primárias que ainda se tentam sanar as dificuldades de, pelo menos, receber uma alimentação adequada e prover a nutrição dos alunos. Assim, não há espaço para a condução de projetos de EAN. Ao ser indagada se as escolas já tinham solicitado essa discussão pela comissão ou se houve alguma tentativa de propor questões sobre isso, ela prontamente responde que não, e que a preocupação principal é se chegam ou não alimentos para as escolas.
Apesar de um dos princípios da EAN ser “promover a oferta de alimentação adequada e saudável na escola” (BRASIL, 2012), percebe-se que, apesar dos esforços, essa discussão é quase que desconhecida pelos agentes da comissão. Indagados sobre o estudo e a discussão do material ofertado pelo FNDE que auxilia na formação sobre o assunto, eles disseram conhecer, mas que ainda não tinham se detido sobre o material. Dona Petúnia foi a única que se manifestou que tinha lido algumas publicações, mas também não tinha estudado e pouco conseguia aplicar aqueles princípios no seu trabalho em Canindé.
A realidade de atuação desses profissionais é contrastante do que foi estabelecido na sua formação enquanto estudantes e do que se esperava sobre suas atuações. Dona Petúnia, mais de uma vez, relatou a frustração de não conseguir colocar em prática os princípios gerais da Nutrição, do que aprendeu na faculdade, do que é o certo a se fazer. Ela, muitas vezes, percebeu-se apenas fazendo cálculos manualmente, com a preocupação preponderante de atender o mínimo necessário para a alimentação escolar. Apesar do município de Canindé entrar
com uma contrapartida financeira, como mencionou, os recursos ainda são insuficientes, se a profissional for atender todos os princípios da legislação sobre o assunto.
Como parte das escolas tem problemas estruturais, quando falta água para adicionar à alimentação que vai para as escolas da zona rural, como nos afirmou diversas vezes Dona Petúnia, fica até complicado levantar uma discussão de Educação Alimentar e Nutricional, apesar dessa temática ser contemporaneamente uma das mais importantes para a sociedade.