Apresento-te, leitor, as ementas, as entrevistas editadas e excer- tos dos diários das sessões que acompanhei durante o trabalho de campo. O estudo focou - se nas disciplinas de Interpretação: escolhi uma disciplina de cada um dos três primeiros anos dos cursos do dt - estc e do cac - eca; excluí o quarto ano do curso da Universidade de São Paulo devido a que nesse ano a disciplina funciona como um projeto de montagem na qual o aluno partici- pa. Assim, centrei o meu estudo nas disciplinas de Interpretação I, Interpretação III e Interpretação V, então orientadas respectiva- mente pelos professores Álvaro Correia, Carlos J. Pessoa e Bruno
Bravo, do dt - estc; e nas disciplinas Improvisação II, Interpretação I e Interpretação IV, então ministradas pelos docentes Maria Thais Lima, António Januzelli e Juliana Galdino, no cac - eca. As dis- ciplinas Performance Event e Intercultural Performer Trainning, orientadas respectivamente pelos professores Alexander Kelly e Phillip Zarrilli, foram escolhidas em função dos meus interesses pessoais e da pertinência que estas poderiam ter para a investi- gação. O objetivo do estudo de campo era inicialmente aferir da resposta que as instituições portuguesa e brasileira estavam a dar à afirmação da noção de performer no âmbito das práticas e discur- sos teatrais contemporâneos. Contudo, antes de iniciar o trabalho no Reino Unido, o objetivo do estudo redirecionou-se para o modo como as práticas pedagógicas articulavam a relação entre conheci- mentos conceptuais, tácitos e críticos, por um lado, e como as prá- ticas artístico-pedagógicas de cada docente se relacionavam com determinadas configurações da ideia de subjetividade. Foi após o trabalho de campo realizado que o problema da presença ganhou a centralidade que assume nesta tese.
Recolhi as ementas das disciplinas via os serviços académicos das instituições, exceto no caso daquelas que acompanhei no Reino Unido, a ementa das quais me foi dada pelos próprios docentes. Observei uma sessão por semana de cada disciplina no cac - eca, correspondendo a uma amostragem de metade das sessões di- namizadas, exceto na disciplina de Interpretação I que participei de todas as sessões (Improvisação II: 48h; Interpretação I: 90h; Interpretação IV: 48h). Observei também uma sessão por semana de cada disciplina do dt - estc, o que corresponde a um terço das aulas oferecidas, exceto no caso da disciplina da Oficina de
Criação no qual a amostra corresponde a um quarto das sessões (Interpretação I: 35h; Interpretação III: 40h; Interpretação V: 30h). A primeira disciplina que observei foi Interpretação I, no cac - eca, não tendo registos escritos significativos da experiência, em parte por ter participado ativamente das sessões; por outro lado, consegui junto de uma aluna anotações que transmitem de forma singular as percepções de um estudante das atividades desenvol- vidas na disciplina. As observações realizadas posteriormente no departamento permitiram a elaboração de anotações num caderno, que posteriormente transcrevi para o computador, constituindo os primeiros registos que efetuei. No trabalho de campo realizado em Lisboa, optei por realizar os registos diretamente no computador, o que, intensificado pela experiência já adquirida, permitiu a ela- boração de registos com bastante maior detalhe. Estas experiên- cias implicaram um desenvolvimento perceptivo e de habilidade na realização dos registos que se verificou muito significativo aquando da realização do trabalho de campo no Reino Unido, onde efetuei observação participativa e não participativa de todas as ses- sões das disciplinas Intercultural Performer Training, no Drama Department da Exeter University (98h), e Devised New Work, no Performing Arts Department da Leeds Metropolitan University (96h), conseguindo elaborar registos relevantes das experiências. Cada entrevista teve uma duração variável, entre 40 minutos e 1 hora, aproximadamente. Realizei registos áudio das entrevistas, com exceção da segunda entrevista ao docente de Interpretação I do cac - eca, que foi registada manualmente, o que se reflete na fluência da resposta e no detalhe da informação recolhida. Os registos das entrevistas à docente de Interpretação IV do cac - eca
(1.1) Como foi o seu despertar artístico para o teatro? (1.2) Como tem sido a sua formação artística no teatro? (1.3) Quais considera as suas principais influências artísticas?
(2.1) Como foi o seu despertar para o ensino da interpretação? (2.2) Como tem sido a sua formação pedagógica em interpretação? (2.3) Quais considera as suas principais referências pedagógicas? (3.1) Qual a sua opinião sobre o curriculum do curso de teatro que integra? (3.2) Qual entende ser o lugar da disciplina que lecciona no contexto do curso? (3.3) Qual a sua opinião sobre o curriculum formal da disciplina que lecciona?
(4.1) Qual o curriculum que implementa (conteúdos, actividades, valores, etc.)? (4.2) Como descreveria a sua actividade pedagógica, em cinco linhas aprox.? (4.3) Que constrangimentos profissionais identifica na sua actividade pedagógica?
(5.1) Com base em que produção do aluno faz a sua avaliação? (5.2) Quais os critérios de avaliação a que recorre? (5.3) Qual o peso relativo de cada um deles?
(6.1) O que entende por teatralidade? (6.2) O que entende por jogo do actor? (6.3) Qual a relação do actor com a representação? (6.4) O que entende por um artista de teatro? (6.5) O que entende por performer? (6.6) Qual a relação entre teatro e performance?
Performing Arts Department
(1.1) Quais são os obejtivos para este módulo? (1.2) Que estratégias destaca no sentido de promover nos alunos a percepção global do processo de criação? (1.3) Como vê a relação entre teoria e prática neste contexto particular e neste tipo de trabalho?
(2.1) Prefere utilizar o termo ator ou performer e em que medida os distingue? (2.2) Utilizou as expressões «perform yourself» e «per-
form as yourself»: «persona», «personagem» e «si-mesmo», em que
medida estes termos o interessam? (2.3) Como equaciona as noções de «tarefa» e «trabalho», «to play», «to act» e «to perform»? (2.4) Em que medida a arte conceptual é relevante para o seu trabalho?
Drama Department
(1.1) De acordo com que objetivos, atividades e valor organiza o ensino? (1.2) Poderia falar um pouco sobre como realiza a avalia- ção? (1.3) Considera diferente levar a cabo a ação formativa numa instituição de ensino superior e numa escola profissional?
(2.1) Poderia falar um pouco sobre a atuação entendida como a realização de tarefas? (2.2) Poderia falar-me umpouco sobre como entende a relação entre «ator» e «performer»? (2.3) Poderia falar- me um pouco sobre como concebe a noção de «si-mesmo»?
ficaram em condições muito precárias, o que implicou a realização de uma nova entrevista por telefone mas que apenas permitiu re- colher um material muito esparso.
As entrevistas realizadas aos docentes no Reino Unido, apenas uma em cada caso, seguiram protocolos mais livres e refletiram o deslocamento de foco do trabalho de investigação.
Os materiais recolhidos nas entrevistas e na observação de sessões, sem edição, prefazem um volume de cerca de quinhentas páginas e são apresentados na íntegra como anexo a este trabalho (Anexo I). Apresento em seguida excertos e fragmentos destes materiais por considerar a melhor introdução ao problema da formação de atores no ensino superior.