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Sobre os processos colaborativos no contexto do Pronacampo

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

6.2. Sobre os processos colaborativos no contexto do Pronacampo

A primeira observação a ser feita sobre a aplicação do modelo conceitual para análise dos processos colaborativos estabelecidos no contexto do Pronacampo é que trata de uma política vigente e muito recente, portanto ainda em desenvolvimento. Sendo assim, existe o risco de rápida desatualização da análise realizada pelo presente trabalho, pois a elaboração dos instrumentos normativos e a implementação das ações propostas estão em andamento. Tal fato traz ainda a dificuldade de avaliação dos efeitos do programa, pois são poucos os resultados concretos obtidos até então.

Dentre as limitações da pesquisa, ressalta-se também que o ambiente político, pela própria complexidade e multiplicidade de atores inerentes a ele, é repleto de sutilezas que podem não ter sido percebidas, especialmente em relação à representatividade dos atores envolvidos de cada processo analisado. Tal fragilidade é agravada pelo fato da pesquisadora não ter nenhum envolvimento pessoal com a educação do campo, desconhecendo peculiaridades da área não externalizadas nos discursos aos quais se teve acesso. Apesar de tudo isso, é indiscutível que a existência da institucionalização da colaboração nos documentos oficiais, a pluralidade de participantes e o

reconhecimento por parte dos movimentos sociais que seu protagonismo vem surtindo efeitos concretos são fatores altamente positivos, independente das possíveis falhas que possam ter sido ignoradas.

Destaca-se ainda o baixo número de entrevistas, especialmente frente ao enorme número de atores envolvidos no cenário em questão. No entanto as poucas entrevistas realizadas fizeram perceber que o discurso oral, apesar de informal, estava sempre consoante com o posicionamento encontrado nos registros documentais. Assim, optou- se por concentrar o estudo nestas fontes de informação, possibilitando maior abrangência, devido à facilidade de acesso e redução de custos para coleta. Visando garantir que fossem considerados apenas os discursos alinhados com o posicionamento real de cada ator, foram consideradas apenas as declarações dos mesmos em seus respectivos sites, além de ter sido realizada uma avaliação prévia cautelosa de cada documento em relação à fonte, atualização, conteúdo e linguagem.

O modelo conceitual sugere a análise das relações de colaboração na gestão pública considerando tanto os processos estabelecidos quanto os resultados alcançados. Nesse sentido é possível perceber que existe a preocupação em criar, fortalecer e institucionalizar espaços de diálogo e cooperação, mas ainda é necessário aprimorar tal questão em relação aos produtos desse cenário, pois as políticas ainda apresentam falhas como fragmentação, dissociação da realidade, rigidez e distanciamento dos beneficiários diretos. As propostas de articulação são positivas, mas a estrutura organizacional do ambiente político e o sistema de alocação de recursos ainda são fatores impeditivos em relação à integração necessária.

Os resultados da análise realizada harmonizam-se com o posicionamento da Secadi, reconhecendo a importância dos avanços conquistados nos últimos anos, no entanto também concorda com a ressalva da Fonec de que ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Os resultados já obtidos permitem-nos afirmar que: a) houve ampliação da consciência do direito por parte dos indivíduos que vivem no campo e, paralelamente, do cumprimento do dever público por parte de seus gestores; b) temos no país um processo de ampliação da democracia participativa através da organização da sociedade para o controle social; c) a política de gestão compartilhada entre governo e sociedade está sendo afirmada, nas três esferas públicas, para condução da Política Pública do Campo.101

Sob o foco das lutas pela ampliação da Educação do Campo, há alguns avanços que merecem ser pontuados. Cabe, porém, a ressalva de que estes avanços, embora representem novos territórios conquistados, não podem ser analisados sem que se considere simultaneamente o fato de enfrentarmos problemas extremamente graves na perda dos direitos dos sujeitos do campo, ou seja, o avanço na garantia do direito à educação deve se dar vinculado à garantia do direito à terra, ao trabalho e à justiça social.102

É relevante ressaltar que o fato dos processos analisados serem avaliados majoritariamente como positivos não quer dizer que o nível de colaboração observado é suficiente, significa apenas que se percebe uma cultura de cooperação que se amplia e se fortalece com a efetivação de políticas integradoras, intersetoriais e participativas como o Pronacampo. Ainda são grandes os problemas enfrentados pela população campesina em relação à educação, mas considerando o histórico de descaso político em relação ao tema, o cenário atual é considerado promissor. Se bem utilizados (e aprimorados), os espaços de diálogos podem se consolidar como importantes ferramentas de democratização da gestão pública no âmbito da educação do campo, minimizando falhas relativas não só aos programas propostos, como ao próprio modus operandi do governo.

A avaliação dos processos colaborativos reconhece a fragilidade dos resultados das ações propostas para a educação do campo até então, mas a avaliação majoritariamente positiva do Pronacampo quer dizer que existem importantes espaços de diálogo que, se bem utilizados e aprimorados, podem levar a consolidação de uma cultura de cooperação que auxilie na melhoria das políticas presentes e futuras. O avanço ocorre no sentido de reconhecer o papel dos beneficiários e executores como sujeitos ativos do processo político, lidar com necessidade da intersetorialidade para atender demandas complexas, garantir flexibilidade dos programas específicos possibilitando adequação às peculiaridades locais e ampliação dos mecanismos de prestação de contas, caracterizando uma gestão mais democrática, transparente e participativa.

Para trabalhos futuros sugere-se o acompanhamento da evolução da relação entre governo e movimentos sociais organizados no contexto da educação do campo, avaliando a consolidação dos espaços de diálogo existentes, bem como o alinhamento dos resultados das políticas recém instauradas às demandas e prioridades da população endereçada.