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1. UMA APRESENTAÇÃO DA CIDADE 27

1.5 Sociedade e economia A cidade e o território 52

Já na introdução a este estudo avançámos com os tópicos referenciadores nesta área histórica precisa, pois é nela que se desenrolou o âmago desta investigação.

Neste momento, reiteraremos apenas uns apontamentos contextualizadores do nosso trabalho188, dado que os capítulos 3 e 4 serão aqueles em que contexto e evidências do estudo se ligarão pormenorizada e devidamente.

A cronologia é marcante.

O fim do século XVIII foi também o fim duma época próspera para a cidade, alicerçada sobretudo no negócio do vinho do Porto e nas ligações ao ‘hinterland’ duriense, entretanto reforçadas legislativamente por Pombal. Outras vertentes da legislação pombalina fortaleceram o domínio do porto e alfândega do Porto sobre a região norte, como sejam as medidas de proibição de exportação de quaisquer vinhos por outra barra nortenha, que não a portuense. Mas nem só de vinho se faziam as trocas. O epifenómeno da sericicultura nortenha e duriense, aliado à constante dos géneros agrícolas e animais, exportados em bruto, faziam da alfândega do Porto uma das mais rentáveis do país. Algumas fragilidades começavam a tornar-se evidentes. Uma sobredimensionada ligação mercantil à nação britânica; frágeis ligações a outros destinos alternativos, como o Báltico; pouca diversificação nos produtos nacionais exportados, com uma preeminência relativamente excessiva do vinho do Douro (cerca de 80% das exportações da cidade do Porto)189. Algum tipo de estruturas financeiras existentes, derivadas muitas vezes da atividade mercantil, manter-se-á afastada da articulação com as unidades produtivas citadinas. A evolução económica dos dois maiores centros citadinos nacionais vai, aliás, pautar-se por condições e opções estruturais nitidamente diferentes, nomeadamente a partir do limiar do século XIX.

A perda do mercado ultramarino brasileiro (por via da abertura dos portos do Brasil aos produtos ingleses, questão que inviabilizará o escoamento de não pouca produção portuense) e, consecutivamente, do império; uma conjuntura adversa no comércio

188 Utilizámos essencialmente elementos cotejados em Lains e Silva, 2005; Serén e Pereira,

2000: 426-449 e 450-513; Ramos (coord.) e Sousa e Monteiro, 2009; Bonifácio, 1991: 119- 177; Alexandre, 1992; Costa, Lains e Miranda, 2011; Pedreira, 1994.

internacional, que traficava produtos com os quais as criações tripeira não conseguiam competir, além de colocar em Portugal manufaturas britânicas a que também não se conseguia fazer concorrência; os vários e difíceis episódios militares pelos quais a região, tal como o país, passará (invasões francesas, guerra civil), com os consequentes efeitos desagregadores sobre o tecido produtivo nacional (como por exemplo a existência de alguns maus anos agrícolas)… ditarão uma profunda crise económica. Regional e nacional.

Centremos a atenção na área regional, onde se insere a cidade. A região envolvente a que nos referimos, compreende o noroeste peninsular, a zona a sul da cidade até à área de Aveiro, inclusive (embora Coimbra, na mesma linha de tráfico de mercadorias, seja ainda o fim desta); o vale do Douro, as zonas da Beira Alta (o polo de Viseu destaca-se) e interior (marcadas ligações da cidade com o Maciço Central). Não se distinguia, nesta época, as zonas fronteiriças com Espanha, e portanto, pelo menos a atual zona da Galiza e toda a zona fronteiriça bragancesa, duriense e da Serra, funcionavam conjuntamente a estes polos mencionados.

Lembremos que o vale do Douro era navegável entre a foz e Régua e mais acima (desde finais do século XVIII), sendo no entanto necessário sabedoria para navegar nas águas difíceis do mesmo. O rio permitia furar os obstáculos terrestres que, a meia- distância, dificultavam os caminhos de e para o Porto: a norte, a sequência de serras do Gerês, Cabreira, Marão; a sul, do Caramulo e início das faldas da Cordilheira Central.

A crise de início do século XIX foi antes do mais, mercantil. Mas, não só. Também foi uma profunda crise de produção, artesanal e industrial. Numa sociedade e economia (portuenses) marcadas pela tradicionalidade do saber-fazer, pela resistência das corporações, pelas unidades de produção de reduzida dimensão, muitas vezes, com um prolongamento cronológico da produção doméstica; as conclusões atuais salientam, apesar de tudo, “a progressiva, embora lenta, industrialização (…) (como) característica mais importante do desenvolvimento da economia portuguesa ao longo do século XIX”190.

190 Costa, Lains e Miranda, 2011: 313.

A uma economia tradicional e em busca de soluções de crise, corresponde uma sociedade em mudança também, ainda muito marcada pelos costumes da época moderna191, mesmo que em meio urbano; mas profundamente fracionada pelas lutas ideológicas que os novos ventos do liberalismo haviam proporcionado.

Vários são os autores que sublinham a heterogeneidade do mundo urbano do trabalho na cidade de Antigo Regime, particularmente no que toca à real dimensão do trabalho “organizado” em corporações de artes e ofícios, fenómeno limitado em muitos dos casos urbanos estudados. Talvez que parte do fascínio exercido por estas instituições advenha da noção de que, para compreender as mesmas, acabamos aceder aos traços caracterizadores da morfologia dos diferentes grupos sociais e, até, à própria configuração dos poderes urbanos

O Porto moderno e em advento industrial apresenta os traços evidentes dos corpos de trabalho, sempre contextualizados, no entanto, por uma sem infinidade de trabalhadores de todos os tipos, que, em meio urbano e sem incorporação na “organização”, florescem. Teremos a oportunidade de sublinhar o papel do género no enviesamento de informação histórica para esta época (capítulos 2 e 3.2.1.4), fazendo- nos perder o rasto de quantas mulheres trabalhando no espaço aberto e comum que era a rua – vendeiras, cesteiras, hortaliceiras, entre outras. A fluidez entre artesanato e comércio era tão importante que se tornava indistinguível o que cada um fazia de forma predominante. No outro extremo da escala socioeconómica, no extremo daqueles que se distinguiam por viver com rendimentos acima da média, e também escapando ao esquema do mundo corporativo, encontramos os negociantes de médio e grande trato, o clero, certas ocupações liberais, os “burgueses”, os que vivem de rendimentos e nobres.

Na época sobre o qual nos debruçamos sobre o Porto, estamos perante uma cidade que podemos designar da “época moderna”. Entendemos por isto um mundo em que a “oficina” ou “fábrica” não estavam inseridas num contexto de industrialização onde os problemas éticos, sociais e políticos da lógica da leitura sociológica da relação patronal já existissem. Este tipo de problemática encontrava-se afastado. Se, na primeira metade do século XIX, se foi fazendo a passagem da “corporação”, ao “ofício”, por pressão do contexto histórico-jurídico, os obstáculos à mudança e permanências são reconhecidos.

Trabalharemos algumas das vertentes de vida urbana dos vários grupos sociais detetados, permanecendo centrados nos grupos de médios-altos rendimentos, grupos de rendimentos intermédios, bem como populares, já que a eles acederemos por via das modalidades de vida ativa e de apropriação do espaço da cidade. Não serão os nobres, nem os grupos de ingleses ou as grandes casas de empresários, o nosso foco, embora necessariamente surjam, pelo menos num dos censos trabalhados, o de 1832. Sempre procurámos saber do mais escondido na história, o portuense da rua, o trabalhador da oficina, o artesão, na qualidade de mestre, oficial ou aprendiz.