O enriquecimento de alguns comerciantes e o aparecimento de uma elite administrativa fizeram com que a diferença entre classes se tornasse, na segunda metade do século XIX, mais acentuada. Junto às mercadorias importadas da Europa, que decoravam as casas das classes mais abastadas, também apareceram novos hábitos e gostos que acentuaram ainda mais a diferença entre ricos e pobres. Com tal mudança, os mais abastados passaram a associar as classes mais pobres com o perigo, os maus hábitos, e o surgimento das epidemias e desordem na cidade.
As ideias dos higienistas europeus, na virada do século XIX começaram a aparecer nos discursos dos administradores públicos de Desterro no último quarto do século XIX. Porém, apenas após a Revolução Federalista e a Revolta da Armada que esses debates se intensificaram e algumas obras começaram a ser realizadas. Novas ruas foram abertas, antigas ruas ganharam nomes de republicanos, a bandeira e hino do estado foram cunhados, procurando associar a república com o novo e o moderno.
Apesar da realização dessas obras, apenas nos primeiros anos do século XX a paisagem da cidade se modificou significativamente. Segundo Neckel,
Ao lado da abertura e do calçamento de ruas, de organização de praças, de limpeza de logradouros públicos, acentuaram-se as preocupações dos administradores em dotar a cidade de obras de saneamento que garantissem a manutenção de uma nova ordem e de um novo modo de vida. [...] Para o poder público e setores mais abastados, tornou-se essencial dar um aspecto “agradável e sadio” para Florianópolis. [...] As insistências dos administradores em transformar Florianópolis em uma cidade “moderna e civilizada” sugere que “a antiga vila” era incompatível com a nova ordem política e social que se instaurava. (NECKEL, 2003, p. 53)
A área central da cidade passou por inúmeras reformas e melhoramentos nas primeiras décadas do século XX. Como destacado anteriormente, foram instaladas as primeiras redes de água encanada e iluminação pública com energia elétrica. Construiu-se, também, a primeira avenida da cidade e, em 1922, uma ponte para ligar a ilha ao continente, que foi concluída em 1926. Apesar dos melhoramentos, vale destacar que a economia de Florianópolis continuava em declínio. Tais reformas foram apenas possíveis devido à força de sua elite política. Essa, no entanto, a partir de 1910 passou a perder, em parte, suas forças com a ascensão dos políticos pecuaristas da região do planalto catarinense.
Intervenções no cotidiano da população e para a alteração da paisagem urbana continuaram a acontecer, especialmente entre 1910 e 1930. Ruas foram alongadas, redefinidas e calçadas, e inúmeros prédios e casas foram demolidos sob o discurso do bem estar público.
Como já mencionado, ao mesmo tempo em que a distinção entre abastados e pobres se acentuava com os novos gostos e hábitos, observavam-se intervenções sociais, baseadas numa política médico-sanitarista, que procurava “regenerar” a população pobre, considerada doente e atrasada, esforços com o intuito de fazer com que Florianópolis alcançasse o ideal de modernidade que os políticos e abastados desejavam. Conforme resume Neckel (2003):
Alteravam-se as paisagens da cidade ao mesmo tempo que eram promovidas interferências nos hábitos e atitudes de seus habitantes que, ultrapassando os limites das práticas repressivas, pretenderam atingir não só os corpos, mas também as mentes dos indivíduos, visando modificar modos de vida. Passar das proibições e sanções para intervenções educativas foi outra dimensão desta modernidade urbana, que ganhou força no contexto das forças políticas republicanas. (NECKEL, 2003, p. 64) As mudanças provocadas pela modernidade fizeram com que muitos habitantes de Florianópolis perdessem seus referenciais, uma vez que a demolição
de casas, que deram lugares a avenidas, praças e prédios, além de modificar a paisagem urbana do centro da cidade, forçou esses moradores a se mudarem para morros e regiões periféricas.
Além das modificações no cenário, o comportamento e hábitos da população deveriam ser mudados, para que Florianópolis chegasse ao status de cidade moderna que sua elite desejava. Maiores cuidados com o corpo, alimentação e limpeza, além de padrões que caracterizavam uma boa conduta eram propagados pela imprensa da época. Artigos sobre más condutas, abordando vícios como o álcool e o jogo eram igualmente freqüentes. Pessoas que se situavam fora do padrão do mercado de trabalho, como bicheiros e vendedores ambulantes, eram taxados de vagabundos pela imprensa local.
Neckel (2003) ainda destaca que:
[...] entre 1910 e 1930, observam-se várias mudanças no aparato policial- judiciário, no sentido de aprimorar formas de vigilância e de intervenções sobre a cidade e seus habitantes, para não só abolir condutas indesejáveis, como produzir indivíduos adaptados aos padrões de conduta urbana então em circulação. (NECKEL, 2003, p. 75)
No entanto, apesar de todas as mudanças ocorridas, a desobediência às novas regras de conduta continuou a acontecer. O problema da insalubridade não foi resolvido e de um modo geral, não se estabeleceu uma nova ordem urbana e social como se desejava.
A situação econômica no início do século XX era bastante ruim. O porto continuava em declínio, assim como o comércio, que se restringia ao consumo local. A produção industrial era pequena e a produção agrícola não conseguia abastecer toda a população, sendo que alimentos vinham de outras partes do estado. O mercado de trabalho era reduzido e pouco diversificado. A população mais pobre da cidade tinha, então, que recorrer a subempregos como biscateiros, ambulantes e carregadores (NECKEL, 2003, p. 79). As mudanças ocorridas na cidade causavam dificuldades ainda maiores de sobrevivência, gerando tensões entre os grupos dominantes e os populares. Outro fator, que também dificultou o envolvimento dos mais pobres com atividades regulamentadas, foram os elevados impostos, responsáveis pela constante alta de preços.
Neckel (2003) procura destacar em seu livro como as operações urbanas efetuadas em Florianópolis no início do século XX, “acabaram afastando dos olhos
das elites parcelas pobres da população, bem como os riscos e as ameaças que representavam” (Ibidem, p. 95). As preocupações com estes segmentos, que se afastaram do centro urbano, reapareceram com as epidemias, que ultrapassaram os limites dos morros e periferias, mais uma vez “perturbando” as elites. Para a autora, “A República legitimou-se não com base no apoio do povo, mas com base na constituição do novo regime como emblema de modernidade e de civilização” (Ibidem, p. 99).