2 BREVES CONSIDERAÇÕES GERAIS ACERCA DO SOFTWARE
4.4 DA ANÁLISE ESPECÍFICA DA IMUNIDADE CONSTITUCIONAL
4.4.5 Software: livro eletrônico e analfabetismo digital
Como bem lembra Aires F. Barreto, já em seu preâmbulo a Constituição assegura o exercício dos direitos sociais e individuais, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna e sem preconceitos.
Por isso, não se estaria realizando tais primados se o direito à informação, ao conhecimento, à cultura, ao desenvolvimento pessoal fosse negado a uma grande parte da sociedade, constituída pelos analfabetos.
E com relação àqueles analfabetos invocados por Aires F. Barreto, não é demais lembrar que atualmente se fala em uma nova categoria deles: o analfabeto digital181.
O analfabetismo digital é, por assim dizer, a forma mais moderna de analfabetismo. Na Sociedade da Informação, analfabeto não é mais só aquele não sabe ler e escrever – os chamados analfabetos funcionais – mas, também, aqueles que não têm acesso ao mundo dos computadores e da informática.
Em razão dos avanços da tecnologia, é fundamental que todas as pessoas tenham acesso a terminais de computadores e, principalmente, que saibam operar com alguns sistemas que permitam realizar tarefas básicas no dia a dia tecnológico, tais como digitar textos, realizar cálculos, enviar e-mails etc.
Assim, diz-se que é analfabeto digital aquele que é incapaz de obter informações por meios da informática e que não sabe utilizar um computador. Consiste, portanto, no nível de ignorância das novas tecnologias, que impedem as pessoas de acessar as oportunidades de interagir com esse novo mundo digital.
180 BRITO, Edvaldo. O livro eletrônico é imune. In MACHADO, Hugo de Brito (Coord.). Imunidade
tributária do livro eletrônico. São Paulo: Gráfica Editora Ltda. (IOB Informações Objetivas), 1998, p. 42.
181Trata-se de uma expressão relativamente nova, cunhada por Gilberto Dimenstein e que não associa o
analfabetismo às letras, mas à exclusão digital. Para mais informações sobre o tema do “analfabetismo digital”, acessar o texto Você é um analfabeto digital?, Disponível em: < http://super.abril.com.br/tecnologia/voce-analfabeto-digital-441970.shtml>. Acesso em: 02 fev. 2015.
Interessante anotar a importância da alfabetização digital no mundo moderno. Para citar um fato que ratifica essa afirmativa, no ano de 2000, em campanha eleitoral para a Prefeitura de São Paulo, a candidata e prefeita, à época, Marta Suplicy, deu ênfase à democratização do acesso à internet e argumentou que a familiaridade com o uso de programas de computador e com a navegação na web são fundamentais para que o cidadão possa competir no mercado de trabalho182.
Portanto, retomando o pensamento de Aires F. Barreto, o direito à informação, ao conhecimento, à cultura, ao desenvolvimento pessoal não pode ser negado a essa grande parte da sociedade, constituída pelos analfabetos digitais.
Todas essas reflexões permitem a conclusão de que o signo “livro” utilizado pela Constituição da República assim o foi no sentido de proteger o veículo de divulgação da obra literária escrita, com vistas a assegurar a disseminação do conhecimento.
Portanto, a Constituição pretende proteger a obra literária escrita e não simplesmente o livro na sua acepção semântica de mero “conjunto de folhas de papel, escritas ou impressas, soltas ou cosidas, em brochura ou encadernadas”183.
Nesse diapasão, não há dúvidas de que a imunidade visa a proteger o instrumento material da obra literária, que, à época da promulgação da Constituição de 1988, restringia-se ao que se designa pelo signo ‘livro”, conhecido em seu formato tradicional.
Se é consenso que o livro foi o grande responsável pelo progresso dos povos, na Era Digital, o software passa a exercer este papel, mas com abrangência, velocidade, ubiquidade e versatilidade infinitamente maiores.
Afinal, a regência do software está presente em todos os processos produtivos, garantindo, a eles, celeridade, precisão e redução de custos. O software responde ainda por toda a inovação e está presente em todos os avanços ocorridos nas mais diversas áreas do conhecimento: a engenharia genética e biologia molecular, a nanotecnologia, as tecnologias de novos materiais e energias alternativas, a tecnologia aeroespacial, a oceanografia, além da própria informática e da robótica.
182COUTINHO, Marília. Você é um analfabeto digital? Revista Superinteressante, nº 162a, mar. 2001.
Disponível em: <http://super.abril.com.br/superarquivo/?edn=162aEd&yr=2001a&mt= marcom&ys=2001y>. Acesso em: 02 fev. 2015.
183Significado de “livro”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Disponível em
Toda essa revolução tecnológica permite afirmar, sem temor de se cometer exageros, que a riqueza hegemônica do terceiro milênio é o capital intelectual; e que o software é o seu mais legítimo e efetivo suporte.
A partir dessa concepção, é certo que dele dependerá toda a difusão rápida do conhecimento, o reconhecimento e valorização da cultura de um povo, a integração política, econômica e social da nação, a independência, a soberania e o desenvolvimento do país.
A humanidade experimenta intensa substituição do suporte tradicional de informações e conhecimentos – que era o papel – por outros meios, que atualmente são eletrônicos, também denominados digitais.
Nesse contexto, o software é um meio de suporte à informação e ao conhecimento. Assim, reconhecer o caráter estratégico do software e erigi-lo à condição de bem da intelectualidade indispensável à cultura, ao conhecimento, à integração e ao desenvolvimento do país, certamente encontrará consenso para reconhecimento de que, tal como o livro tradicional, sobre ele não pode haver qualquer restrição por imposição tributária que possa ameaçá-lo.
Eis porque é preciso resguardar a imunidade cultural para o software, obra literária que é, não se podendo permitir que, em razão do novel formato eletrônico que assume, não conte, em toda a sua plenitude, com a proteção de direito autoral conferida pela própria legislação, sobretudo em virtude dos efeitos tributários que desse reconhecimento resultam, em razão do escopo finalístico constitucional.