7.2 Categoria II - O funcionamento dos grupos e os processos de aprendizagem ali
7.2.2 Metodologia de trabalho dos grupos
7.2.2.2 Stage-Gate
A metodologia de trabalho empregada pela Empresa Beta foi desenvolvida por
Cooper (1993) e trata-se de um portfólio de projetos que será conduzido por uma equipe multifuncional. Apresenta-se como uma abordagem estruturada denominada genericamente
de Stage-Gate. Esta abordagem divide o APQP em estágios discretos e identificáveis,
tipicamente na quantidade de quatro, cinco ou seis práticas.
Cada um dos estágios é desenvolvido como forma de se obter informações necessárias
para que o projeto possa progredir para o estágio (Stage) seguinte, passando antes por um
ponto de decisão (Gate), que precede cada estágio. Os Gates servem como pontos de
verificação de controle da qualidade, em que os membros do grupo multifuncional deverão tomar decisões referentes à continuidade ou aborto do projeto (COOPER, 1993).
Segundo Cooper (1993), após a concepção da ideia de projeto, os Gates são definidos
antecipadamente e especificam um conjunto de atividades a serem cumpridas para o estágio
em análise, empregando-se de uma série de critérios ou outputs. No caso da Empresa Beta, a
avaliação nos Gates é conduzida pelo gestor responsável pelo projeto, levando-se em
consideração os seguintes estágios de desenvolvimento, a saber:
[...] investigação preliminar: um rápido estudo inicial para a verificação do escopo do projeto; investigação detalhada: um estudo mais detalhado, podendo resultar na elaboração de um plano de negócios, contendo definição e justificativa do projeto e bem como um plano para o seu desenvolvimento; desenvolvimento: desenvolver o
novo produto propriamente dito, abrangendo a definição das suas especificações, seu processo de produção, constituição de protótipos e demais especificação dos meios de controle da qualidade (para o produto e do projeto) além da determinação dos custos; validação e teste: testes em laboratório, na própria fábrica ou no mercado objetivando verificar e validar o novo produto proposto e sua produção e; produção e lançamento: começo da produção, diligências direcionados ao
marketing e comercialização do produto (MIGUEL, 2010, p. 394).
Figura 17 - Modelo típico Stage-Gate
Fonte: Silveira (2006) apud Svaldi (2010, p.57)
Uma das principais características do modelo Stage-Gate utilizado na Empresa Beta é
o fato de que tal método permite ao grupo multifuncional visualizar todas as fases do projeto, desde a concepção da ideia até seu patenteamento, se for o caso. Esse modelo pode justificar também o motivo pelo qual um grupo multifuncional não trabalha focado em apenas um
projeto, pois, em determinado Gate de verificação, haverá 70% de chances de ocorrer o aborto
da ideia, segundo um dos pesquisadores da Empresa Beta.
Talvez este seja também um indicativo importante para a ocorrência da aprendizagem
grupal. Conforme as anotações realizadas nas visitas à Empresa Beta, há vários elementos
que podem favorecer o aprendizado, tais como: extensa gama de pesquisa por projeto; larga ocorrência de insucessos em diversos projetos e nas suas mais variadas fases de desenvolvimento, o que não pode ser entendido como falhas ou erros, já que muitas vezes a tecnologia disponível no momento não é suficiente para se colocar em prática determinadas ideias; reuniões de verificação sistemáticas e simultâneas com projetos de outros grupos, envolvendo maior número de pessoas envolvidas, o que por si só promove maior
compartilhamento informação e uso intensivo de tecnologia de ponta, já que se trabalha principalmente com projeto de produtos inovadores.
O método Stage-Gate, por meio de sua organização holística, permite que o grupo
multifuncional enxergue todas as fases do projeto, proporcionando maior controle interno, principalmente nos momentos que exigem o uso de maior subjetividade e reflexão ou mesmo naqueles que envolvem o compartilhamento de informações e tomadas de decisões sobre a continuidade ou não de determinado estágio. Em várias falas dos entrevistados; essas ideias estão presentes.
De acordo com as observações realizadas no campo, devido a essa sistematização que
foca no maior controle empregado nas fases de desenvolvimento de produtos, pode ocorrer que o grupo multifuncional trabalhe menos com a perspectiva de tentativa e erro, embora se saiba de sua existência, não obstante haja consciência de sua real capacidade de geração de novos conhecimentos, já que está estreitamente vinculada à reflexão dos membros e consequentemente à aprendizagem do grupo.
Todavia, há de se lembrar que se trata de projetos inovadores, com alto valor agregado, o que logicamente incide um orçamento vultoso. Deste modo, há indícios –
conforme mostram os trechos abaixo - que a metodologia Stage-Gate também constitui-se em
uma forma de controlar o dispêndio financeiro por projeto por meio da racionalidade nas tomadas de decisões, em detrimento de momentos de maior reflexão e subjetividade.
De forma geral eu não vejo muito espaço para tentativa e erro dentro do grupo, até porque a gente trabalha com prazos e antes que o prazo expire, os outros começam a ser antecipados. Então tem que ser bastante determinado. Acho que assim existe abertura onde o direcionamento é pra isso, é pra obter o conhecimento, então vamos tentar, errar, aprender e ver o resultado, mas normalmente onde já existe o escopo e na verdade não, meio já tem que amadurecer o conhecimento e já ir na direção correta onde você quer obter o resultado. Vamos dizer que, antes de testar, eu já tenho que saber o que eu estou esperando. Deve existir um grau de certeza das coisas que a gente está fazendo para não perder tempo, entende? Vamos dizer que o trabalho é voltado pra gardilar e montar estabelecidos, então você vai ter que trabalhar em outras regras já bem definidas (BETA A14).
Eu penso que compartilhamos pobremente as informações dentro do grupo. Eu particularmente, eu sou... é um problema que deveria, mas nós não temos esse compartilhamento de informação, não; não como deveria, tenta-se, mas não conseguimos ainda (BETA A13).
Não existe muito essa coisa de tentativa e erro e sim experimentações que são feitas em laboratório. Geralmente existe um treinamento antes de cada projeto. A maioria dos projetos são programados sim, acontece um planejamento; é que existem projetos que são pra ontem e daí vai totalmente atropelado, mas são as exceções (BETA A17).
Essa sistemática mais racionalizada e o cerceamento da subjetividade, aspectos verificados por meio de observação e pelo conteúdo de algumas entrevistas, são típicos da
metodologia Stage-Gate, podendo levar os membros do grupo a trabalharem de forma mais
individual, concentrados nas suas metas particulares de trabalho, destoando da ideia de que um ambiente diverso possa ser mais favorável à troca de experiências, de conhecimento e às discussões acaloradas (EDMONDSON, 2006). Os dados dos entrevistados BETA 13 e BETA 14 configuram essa realidade:
É um grupo, beleza, mas eu acho que as tarefas são muito individuais, porque na verdade é o que eu comentei no início, como o projeto é muito dependente deles, se o (inaudível) estourou, se o resultado não tá atingindo, ele vai lá replanejar, rever e refaz alguma amostra, solicita com a planta pra fazer uma nova amostra e coloca pra testar novamente. Não existe um comprometimento das pessoas que participam do projeto com o resultado, entendeu? O comprometimento do resultado é muito do líder do que das pessoas que participam do projeto (BETA A13).
Em relação à execução das tarefas, elas são bem individuais. Aqui não existe aquela coisa de uma realizar a tarefa que é do outro, mas o grupo existe. Um não realiza a tarefa do outro. Existe cooperativismo e tal, mas aquilo que eu falei, como todos têm bastante tarefas eu te ajudo desde que você peça ajuda, senão eu não vou lhe oferecer ajuda [...]. (BETA A14).
Entretanto, a falta de maior subjetividade pode ser amenizada pela existência de um repositório de informações adquiridas pelo grupo em determinados momentos do ciclo de
vida do projeto (Gates) e que por algum motivo não foram aproveitadas. Desse modo,
verifica-se que as informações não são desperdiçadas ou perdidas.
O repositório passa a funcionar como um sistema de memória transitiva (SMT) artificial, conforme identificou os estudos de Wilson, Goodman e Cronin (2007), cuja função primordial será permitir o acesso e uso (aplicação) de ideias e informações em situações de ocorrência de problemas durante os estágios do projeto. Poderá servir também como uma fonte inspiradora para garantir a manutenção do portfólio de projetos do grupo, segundo ilustra a Figura 18 inspirada em Rozenfeld et al. (2006).
Repositório de informações e Sistema de Memória Transitiva (SMT) Novos produtos Figura 18 – Portfólio de projetos
Fonte: Elaborado pelo autor a partir de Rozenfeld et al. (2006)
Os aspectos apresentados na Figura 18 podem ser comprovados pelo entrevistado BETA 14. De acordo com ele, seu grupo de projetos trabalha com um sistema de informação
(software) que serve como repositório de ideias. Além disso, de acordo com anotações
decorrentes das observações feitas pelos corredores da Empresa Beta, foi possível comprovar
a existência de totens espalhados pela planta, prontamente conectados à intranet, cujo acesso
permite o compartilhamento com informações contidas no SMT organizacional. Fatos assim reforçam o interesse da empresa pelo proveito sistemático das ideias e informações geradas pelos seus grupos, principalmente aquelas provenientes de projetos que tenham sido abortados.
Sim, a gente tem hoje aqui um sistema em que você pode colocar suas ideias, mais ideias, novas, que poderiam contribuir pra um novo processo, um novo produto através do sistema mesmo, pela intranet você acessa e pode colocar suas ideias [...]. As ideias são registradas no Easy e no DMF, DMF seria um modo dentro desse AP de armazenamento de documentos. Então nós utilizamos esse recurso também e o uso do próprio servidor do projeto. Essa armazenagem de ideias é de fácil acesso, há busca por ela sim (BETA 14).
Discute-se qual a principal contribuição do SMT para a aprendizagem grupal. Conforme observações realizadas e segundo declarações não gravadas, na realidade, o
processo de aprendizagem em grupo precede o input de informações no repositório, pois sua
Produto Beta C1 Produto Beta A2 Produto Beta C2 Produto Beta B4
Produto Beta C2 EM ESPERA Novas ideias EM ESPERA
simples armazenagem, mesmo que codificada e bem estruturada, não poderá encontrar por si só os vínculos necessários com a ideia tácita humana, ainda que já tenha sido inserida nos
primeiros estágios do método Stage-Gate.
Muito provavelmente, o grande mérito do SMT seja a redução do tempo empregado
nos estágios do desenvolvimento de projetos e nos Gates de verificação. Suponha, por
exemplo, um grupo de indivíduos tentando relembrar os detalhes técnicos ou estratégias pretéritas utilizadas num projeto qualquer que, por algum motivo, não tenha sido usados. Imagine, agora, o quanto poderia ser útil para um grupo multifuncional um sistema que possibilitasse confirmações mais rápidas e precisas de alguns aspectos de ordem mais técnicas, ou mesmo algumas informações que poderiam ser valiosas em relação ao uso de diferentes materiais. Quanto tempo se economizaria com os cálculos estruturais, análises químicas e demais fatores que podem conter em um processo de desenvolvimento de produto.
O SMT pode ser um agente de aceleramento da aprendizagem, mas não possui a faculdade de promover a reflexão grupal antecessora à lembrança que determinada ideia está arquivada nos repositórios artificiais.
Não que um método de trabalho mais flexível, como o Ciclo PDCA, deva ser mais
eficaz que o método Stage-Gate, mas os repositórios de ideias devem ser questionados,
principalmente por cercearem, em parte, a reflexão grupal enquanto uma variável determinante para a aprendizagem do grupo. A seguir, o posicionamento do entrevistado BETA A18 que confirma a necessidade de rapidez nos processos de desenvolvimento de produto:
Então temos uma pressão interna pra desenvolvimento de novos produtos, e também externa. Por exemplo, no caso de um concorrente ficar dois ou três anos num projeto de produto, tá quase a patente saindo e o concorrente consegue alcançá-los antes de nós e, enfim... Às vezes o concorrente não sabe também que nós estamos em desenvolvimento, coincidiu de que ele patenteou. Isso gera um sentimento de frustração, mas aí... a lição que a gente tem que aprender é essa, a gente tem que sempre estar monitorando o que está acontecendo pra conseguir corrigir isso com o mínimo... ou então falar “já que lançou para o projeto”. Aí tem que parar, ou então a gente tem que fazer alguma coisa que consiga sair do que ele bloqueou. Tem que ter alguma coisa, a gente pode tentar modificar aquele projeto ou aquele produto com uma diferença pra conseguir sair daquilo lá. E aí a gente tem que trabalhar junto também com pessoas que fazem análise de patente, tem contato com outros grupos também.
À luz da aprendizagem grupal, as considerações que podem ser feitas em relação ao
método Stage-Gate na Empresa Beta, principalmente quando comparado ao Ciclo PDCA
empregado na Empresa Alfa, remetem à ideia de cerceamento dos processos de subjetividade pelos quais o grupo multifuncional deveria passar. Não que tais processos não ocorram, mas
estão todos atrelados aos Gates de verificação, como se necessariamente sua ocorrência
tivesse data marcada para ocorrer. Ao mesmo tempo, verifica-se que a Empresa Beta,
conscientemente ou não desse fator restringente, adota concomitantemente ao uso do método
Stage-Gate, um sistema de memória transitiva (SMT) como forma de amenizar a
racionalidade do método, podendo servir como fator de aproveitamento das ideias geradas pelo grupo no decorrer dos vários estágios de desenvolvimento de produtos inovadores.