Em decorrência do foco deste trabalho, a pesquisa foi desenvolvida em uma
perspectiva qualitativa que de acordo com Merriam (2002, p. 3-4):
[...] repousa na ideia de que o significado é socialmente construído pelos indivíduos em interação com seu mundo. O mundo não é fixo, a realidade não é única e ambos não são acordados, muito menos são fenômenos mensuráveis como presumem as pesquisas quantitativas, positivistas. Ao contrário, há múltiplas construções e interpretações da realidade que estão em fluxo e que mudam com o passar do tempo. A pesquisa qualitativa se interessa em entender o que estas interpretações são em um ponto particular no tempo e no contexto. Aprender como os indivíduos experienciam e interagem com seu mundo social, o significado que ele tem para eles é considerada uma abordagem interpretativa.
A abordagem qualitativa oferece subsídios para a interpretação e compreensão dos
processos que permeiam a administração, sobretudo quando se busca compreender os
fenômenos “segundo a perspectiva do sujeito, ou seja, dos participantes da situação em estudo” (GODOY, 1995, p. 58).
A diversidade existente entre a abordagem qualitativa permite identificar quatro características, a saber: “o ambiente natural como fonte direta de dados e o pesquisador como instrumento fundamental; o caráter descritivo; o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida como preocupação do investigador e o enfoque indutivo” (GODOY, 1995, p. 62).
Alinhando-se a tais proposições, Merriam (2002) argumenta que o pesquisador deve se esforçar para entender o significado que as pessoas constroem em relação ao seu mundo e suas experiências, ou seja, como as pessoas atribuem sentido às suas próprias experiências. Neste caso, a pesquisa qualitativa pode ser vista como um esforço para entender as situações em sua unicidade como parte de um contexto particular e as interações dele decorrentes. Por
meio dela, busca-se entender a natureza de determinado cenário a partir do significado que ele tem para os participantes que o vivenciam.
Tanto Godoy (1995) como Merriam (2002), consideram o pesquisador como o principal instrumento para a coleta e análise dos dados. A partir do momento em que o entendimento e o objetivo da pesquisa foram decididos, o pesquisador deve agir de forma receptiva e adaptativa, coletando seus dados, na maioria das vezes, em contato direto com os participantes da pesquisa. Assim, o pesquisador pode expandir seu entendimento por meio da comunicação não verbal, bem como processar a informação (dados) de forma imediata, clarificando e resumindo o material, checando com os entrevistados a precisão da interpretação e explorando respostas pouco usuais.
Entretanto, Merriam (2002) atesta que o pesquisador é possuidor de algumas deficiências e alguns vieses que podem causar impacto no estudo. No entanto, em vez de tentar eliminá-los, é importante que o pesquisador identifique e monitore as subjetividades encontradas durante a coleta de dados no momento em que os dados forem tomando forma.
Godoy (1995) e Merriam (2002) afirmam que o processo de investigação qualitativo deve ser indutivo. Neste caso, na tentativa de entender o significado do fenômeno envolvido, os pesquisadores constroem suas teorias a partir dos dados observacionais coletados diretamente no campo.
Além disso, Merriam (2002) argumenta que o produto de uma investigação qualitativa deve ser ricamente descritivo. Palavras e figuras são usadas no lugar dos números para comunicar o que o pesquisador aprendeu sobre determinado fenômeno. Provavelmente haverá uma rica descrição sobre o contexto, participação dos envolvidos e demais atividades. Para a elaboração dessa descrição, o pesquisador usará a citação de documentos, anotações feitas no campo, entrevistas com os participantes, vídeotaipe, comunicação eletrônica, ou a combinação de todos esses elementos.
Desse modo, o presente trabalho é de natureza descritiva e predominantemente
interpretativa, pois procurou-se analisar, compreender e expor as principais características
do fenômeno da aprendizagem dos participantes de grupos multifuncionais inseridos no contexto específico de empresas fornecedoras de autopeças. Considera-se também
exploratória, pois o fenômeno da aprendizagem em grupos de trabalho, embora esteja
presente na realidade das organizações brasileiras, tem sido um tema que revela pouco conhecimento acumulado e sistematizado, como pode ser observado na introdução deste trabalho. Sendo assim, segundo Triviños (1987), pode-se dizer que o escopo será de ampliar o conhecimento e a experiência a respeito do fenômeno por meio do aprofundamento dos
estudos nos limites de uma realidade específica. Cabe também lembrar que neste trabalho está-se partindo de modelos teóricos de Aprendizagem Individual e Coletiva, identificada por Nancy Dixon (1993, 1997, 1999) e de Aprendizagem no Nível do Grupo, apresentada por Amy. C. Edmondson (1999) e colaboradores.
Considerando-se que a pesquisa partirá de uma perspectiva
contextual-interpretativa, foi proposto como método o estudo de caso qualitativo a fim de observar,
explorar, interpretar, compreender e discutir aspectos relacionados aos processos de aprendizagem de grupos multifuncionais de organizações automotivas.
Segundo Godoy (2006, p. 124), o estudo de caso interpretativo deve conter características singulares, tais como uma rica descrição do fenômeno estudado, padronização e organização dos dados por meio de categorias conceituais “capazes de ilustrar, confirmar ou opor-se a suposições teóricas.” Cabe ao pesquisador obter um número considerável de informações que possibilite a interpretação ou a teorização de dado fenômeno. O estudo de caso é caracterizado como:
[...] um tipo de pesquisa cujo objetivo é uma unidade que se analisa profundamente. Visa ao exame detalhado de um ambiente, de um simples sujeito, ou de uma situação em particular. Não deve ser confundido com o “método do caso”, que constitui uma estratégia de ensino amplamente divulgada no curso de Administração [...]. O propósito fundamental do estudo de caso (como tipo de pesquisa) é analisar intensivamente uma dada unidade social, que pode ser, por exemplo, um líder sindical, uma empresa que vem desenvolvendo um sistema inédito de controle de qualidade, o grupo de pessoas envolvido com a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) de uma grande indústria que apresenta baixos índices de acidente de trabalho [...]. O estudo de caso tem se tornado a estratégia preferida quando os pesquisadores procuram responder às questões “como” e “por quê” certos fenômenos ocorrem, quando há pouca possibilidade de controle sobre os eventos estudados e quando o foco de interesse é sobre fenômenos atuais (GODOY, 1995, p. 25).
Tanto Godoy (1995, p. 25) quanto Yin (2001, p. 32) atestam que um estudo de caso qualitativo “é uma investigação empírica que envolve um fenômeno contemporâneo dentro de um contexto de vida real, especialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente definidos”. Já Merriam (1998, p. 29) afirma que esse tipo de investigação compreende também algumas características “particularistas, descritivas e heurísticas”. Particularistas, pois estão focados em uma situação ou evento particular, descritivas, pois representam uma descrição completa e literal do que está sendo estudado e heurísticas por permitirem novos significados, levando o investigador repensar o fenômeno de investigação.
A opção pela estratégia de estudo de caso qualitativo deu-se principalmente em decorrência da pergunta-problema e dos objetivos propostos, em que segundo Godoy (2006,
p. 127) os “problemas de pesquisa podem surgir de situações cotidianas, ou seja, identificados a partir do desejo do pesquisador de explicar alguma situação a partir da prática”. De fato, propõe-se investigar o processo de aprendizagem de grupos multifuncionais em duas situações cotidianas e distintas de trabalho, sendo a primeira situação voltada para grupos que trabalham com incrementos de inovação pautados em processos de manufatura e a segunda situação focada em grupos que trabalham em projetos de inovação plena, no desenvolvimento de produtos sem referência mercadológica.
Além disso, segundo informa Godoy (2006, p. 127), a estratégia de uso de estudos de casos reflete no desejo do pesquisador em identificar questões de natureza conceitual, que “surgem de teorias previamente estabelecidas ou que se propõem a elaborar uma teoria a partir de um ou mais casos analisados”. A autora entende que “os problemas de pesquisa procuram responder questões voltadas aos processos (“por que” e “como” as coisas ocorrem), “assim como questões de compreensão que procuram descrever e interpretar “o que” aconteceu em um determinada situação” (GODOY, 2006, p. 127).
Desse modo, vale a pena ressaltar que o nível de análise desta tese são os
agrupamentos multifuncionais encontrados dentro de empresas automotivas e não as
organizações em si. Propõe-se especialmente, conforme advoga Godoy:
compreender os processos e interações sociais que se desenvolvem no âmbito dos grupos de trabalho, situando-os no contexto atual no qual estão imersos, compreendendo os comportamentos dos quais se tem uma compreensão limitada, gerando hipóteses explicativas (GODOY, 2006, p. 127).
Busca-se também uma análise processual, contextual e situacional das diversas ações que ocorrem no interior dos grupos e dos significados a eles atribuídos (GODOY, 2006).