2 DA TEORIA À PRÁTICA: OPÇÕES TEÓRICAS, PERCURSOS E
2.2 A subjetividade da assinatura: pano de fundo para uma discussão pós-
social, mediante o estabelecimento de uma presença autoral no texto, precisamos ter a coragem de superar a velha visão positivista de que qualquer carga de subjetividade não-recalcada pelo cientista social pode pôr tudo a perder, comprometendo e distorcendo a realidade objetivada dos fatos.
Assim, o problema da assinatura é ainda mais fascinante porque reivindica uma tomada de posição pelas ciências sociais em relação ao problema clássico da epistemologia ao tentar mapear o que é - ou não - ciência. A questão da construção de uma identidade autoral, seja por meio das representações explícitas da presença do autor ao longo do texto; seja pelo desenvolvimento de “um modo de enunciar as coisas - um vocabulário, uma retórica, um padrão de argumentação - que esteja de tal modo ligado a essa identidade que pareça provir dela”, 28 nos recoloca forçosamente o problema da moldura excessivamente restritiva em que o paradigma positivista encarcerou o conhecimento científico.
Portanto, o grau de subjetividade que decorre da assinatura do texto nos remete a um mal-estar que é, na verdade, apenas o ranço de uma questão mais profunda. De fato, o problema epistemológico comum às ciências humanas em geral, e às ciências sociais em particular, com o qual nos debatemos desde os primórdios, consiste justamente na necessidade de alargarmos o conceito de ciência, de modo a torná-lo resiliente o bastante para acomodar o que há de específico nos novos domínios do conhecimento, na medida em que as suas peculiaridades demandam não somente a delimitação de objeto próprio, mas também uma autonomia metodológica que lhes seja adequada.
Assim, em pleno século XXI, já não podemos nos ater à camisa de força em que nos prendeu o positivismo do século XIX. Transcorrido todo esse tempo, já podemos ver com mais clareza que não nos é possível tomar de empréstimo os paradigmas próprios às ciências exatas para, de posse de suas ferramentas, investigar a inexatidão humana.
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A tarefa que nos incumbimos é, de longe, muito mais complexa que a de pesquisar comportamentos da natureza, os quais se repetem com aguda precisão, desde que presentes certas circunstâncias, simplesmente porque estão fadados inexoravelmente a essa ocorrência. Ao contrário, o que assoma diante do cientista social é o imponderável da natureza humana; é o imprevisível que não se subsume às leis da causalidade; é a possibilidade que tem o homem de construir linhas de fuga, justamente quando as estruturas sociais querem limitar a sua prática. Como, portanto, apreenderíamos tão impreciso e fugidio objeto se o investigássemos com as lentes das chamadas ciências duras?
Nesse mesmo quadrante, ressalta Bakhtin:
As ciências exatas são uma forma monológica do saber: o intelecto contempla uma coisa e emite enunciado sobre ela. Aí só há um sujeito: o cognoscente (contemplador) e falante (enunciador). A ele só se contrapõe a coisa muda. Qualquer objeto do saber (incluindo o homem) pode ser percebido e estudado como coisa. Mas o sujeito como tal não pode ser percebido e estudado como coisa porque, como sujeito e permanecendo sujeito, não pode tornar-se mudo: conseqüentemente, o conhecimento que se tem dele só pode ser dialógico. 29
Assim, ao invés de estudarmos o homem como “coisa muda”, tal como nas ciências duras; reconhecemos que o homem - enquanto objeto de estudo das ciências sociais - é também, ele mesmo, sujeito. E, ao contrário das ciências exatas, o nosso objeto fala. E diz de si. E diz até mesmo de nós, enquanto pesquisadores.
Por seu turno, Becker também se mostra preocupado com esta problemática, alertando quanto aos perigos de uma metodologia mais convencional, de caráter “proselitista”, que prefere indicar métodos que tendem a diminuir a incidência do julgamento humano, mecanizando tanto quanto possível os procedimentos para controlar a ocorrência de erros. Assim, os sociólogos são “estimulados” a optarem por pesquisas que possam ser realizadas por meio dos métodos cujos resultados são considerados mais controláveis. 30
Após criticar o reducionismo e a precarização resultantes de tais correntes metodológicas - cujo maior escopo é o de convencer os sociólogos a evitar o julgamento humano em suas pesquisas - Becker propõe uma fórmula reconciliadora,
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BAKHTIN, Mikhail. Metodologia das ciências humanas. In: Estética da Criação Verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 400.
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ao “tentar tornar as bases destes julgamentos tão explícitas quanto possível, de modo que outros possam chegar às suas próprias conclusões”. Assim, é possível fazer julgamentos, sem, no entanto, deixar que as pesquisas sociológicas recaiam em mera doxa.
Por outro lado, as dificuldades são ainda mais agravadas pelo fato de que nos cabe estudar a vida dos seres humanos em sociedade, justamente a nós, que não passamos de seres humanos, e assim como eles, estamos expostos às mesmas injunções da vida social. Diante da magnitude desse desafio, o paradigma positivista de ciência criou um impasse para as ciências sociais: ou nos mostrávamos capazes de um olhar supra-humano, capaz de perscrutar a sociedade com a máxima isenção, neutralidade e objetividade; ou não haveria como reconhecer e legitimar o caráter de cientificidade desse novo ramo do conhecimento. Como era de se esperar, o tempo se encarregou de mostrar que as pretensões positivistas para as ciências sociais eram irreais, e as tentativas frustradas de adequação ao paradigma cientificista das ciências exatas se revelaram uma luta inglória. Surgiu, então, um novo impasse: (i) ou admitíamos a validade do positivismo como paradigma universal de ciência (do que resultaria a não- cientificidade das ciências sociais); (ii) ou ampliávamos o conceito de ciência para fazer caber as especificidades dos nossos estudos, forjando as bases de um pensamento pós-positivista de ciência.
Ficamos com a última opção. Uma atitude pós-positivista nos leva a assumirmos o coeficiente de subjetividade imanente ao conhecimento científico, na medida em que reconhecemos que todo conhecimento, em sede de ciências sociais, implica uma atividade de interpretação. Por sua vez, o processo de interpretação tem início quando o sujeito cognoscente projeta sobre o objeto cognoscível um conjunto de pré-compreensões, resultantes de seus valores e de suas experiências de vida. Nesse mesmo viés, Heidegger chega a afirmar que: “A interpretação de algo como algo funda-se, essencialmente, numa posição prévia, visão prévia e
concepção prévia. A interpretação nunca é apreensão de um dado preliminar, isenta de pressuposições.” 31
Contudo, esta pré-compreensão – que possibilita ao sujeito imprimir o seu olhar sobre o objeto – é apenas o ponto de partida de uma ação interpretativa em forma de espiral. É que, em um segundo movimento, caberá ao objeto impor limites objetivamente considerados ao sujeito. De sorte que o sujeito, ao ver-se afetado pelo objeto, possa reformular a sua pré-compreensão inicial acerca do mesmo, revisitando-o a partir de um novo grau de compreensão, em um movimento contínuo de mútua implicação.32 Por meio desse raciocínio, Gadamer intenta afastar, de um lado, as armadilhas de um excessivo subjetivismo, que confere ao sujeito um poder criacionista ilimitado, e, de outro, a precarização cognitiva decorrente de um objetivismo que faz do sujeito o servo acanhado do seu próprio objeto.
Assim, uma vez superado o mito da neutralidade científica, tal como postulado pelo positivismo cientificista, passamos a admitir um coeficiente inafastável de subjetividade, pela compreensão de que a pretensa neutralidade não passa de uma falácia irrealizável. Esta tese parte da compreensão de que conhecer é interpretar. E a interpretação de que decorre o conhecimento está irremediavelmente inscrita no horizonte hermenêutico do intérprete.
No caso das ciências sociais, em especial, a interpretação constitui verdadeira meta-interpretação, uma vez que não é dado ao cientista social interpretar o real; mas sim a interpretação que dele faz o segmento social a quem estuda. Trocando em miúdos, as ciências sociais produzem uma interpretação acerca da interpretação dos sujeitos pesquisados sobre a realidade social que se busca investigar. O que por si só nos autoriza a concluir, de modo muito realista, que a subjetividade do pesquisador é parte indispensável da produção desse conhecimento.
Mas, uma vez assumido e reconhecido o papel da subjetividade no processo de interpretação do cientista social, dentro de uma perspectiva pós-positivista, como evitar os excessos subjetivistas que podem, de fato, comprometer o estatuto de
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Cf. HEIDEGGER, Martin apud BELLO FILHO, Ney. Sistema constitucional aberto. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p.84.
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cientificidade da pesquisa? É a discussão que pretendemos empreender no tópico seguinte.
2.3 Análise histórica como método comparativo: aparando as arestas do