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1. Cidadania e relação Estado-cidadão

1.1. Pré-história da cidadania ou história da pré-cidadania

1.1.1. Suméria, Babilônia e o código de Hamurabi

Na Mesopotâmia (região entre os rios Tigre e Eufrates, atual território do Iraque) de 5000 anos atrás, conviviam diferentes povos em uma estrutura típica de cidades-estado. No extremo sul, estavam, primeiramente, os sumérios (ou sag-gi-ga, como eles se autodenominavam, que significa “povo de cabeças negras”).

Registraram-se, naquele terceiro milênio a.C. as primeiras tentativas conhecidas de normatização de princípios de convivência social, hoje vistas por uns como autênticas medidas sociais e, no limite, “ensaios” de códigos jurídicos (NARDONI, 1993), e por outros como meras peças de propaganda numa tentativa de justificar, perante a população, o direito ao exercício do cargo, em um governo teocrático, por um ocupante que possivelmente herdara o poder ou o usurpara de outrem (BOUZON, 2002).

Nesta categoria de “reformadores sociais”, há registros de textos de: Entemena (2470 – ? a.C., data aproximada), Urukagina (ou Uruinimgina, 2438/37 – 2430 a.C., data aproximada) e Gudea (por volta de 2100 a.C.), todos governantes de Lagash (área próxima à atual cidade iraquiana de Shatra). O primeiro assumiu ter dado liberdade a cidades e pessoas (que poderiam ser escravos ou escravos temporários, como conseqüência de dívidas) e ter abolido taxas de juros opressivas (NARDONI, 1993). Em um momento caracterizado pela corrupção, opressão e ausência de leis efetivas, fruto de ambições de governantes e de guerras anteriores mal sucedidas, o segundo empreendeu medidas mais amplas e profundas no sentido de restituir condições de vida pelo menos em parte já experimentadas pela população, particularmente para estabelecer liberdade frente a impostos e taxas abusivas e funcionários corruptos ligados à administração local. Com palavras do próprio Urukagina,

Ele (Urukagina) anistiou os “cidadãos” (literalmente, “os filhos”) de Lagash que (eram presos por causa de) as dívidas (que eles) tinham contraído, (ou por causa da) cevada (exigida pelo palácio para) os seus armazéns (ou por causa de) roubo (ou) assassínio e libertava-os. (Por fim) Urukagina estabeleceu com Ningirsu o pacto de que os poderosos não deviam cometer injustiças sobre órfãos ou viúvas (KRAMER, 1977, p. 354).

Muito possivelmente ele se indispôs com os sacerdotes e detentores de cargos administrativos, mas como ficou pouco tempo no poder (de sete a oito anos), não se

constata vigência das medidas, que eram predominantemente tributárias, nos anos imediatamente posteriores à sua deposição. Porém, as bases ali estabelecidas constituem legado de caráter mais duradouro para elaboração de leis mais justas em outros momentos históricos. Quanto a Gudea, três séculos mais tarde, é tido como um governante de vanguarda, que, ao adotar uma estratégia pacifista, viabilizou o convívio com líderes vizinhos melhor preparados para combate, e empreendeu ações que fizeram de Lagash a cidade mais próspera de toda Mesopotâmia, promovendo uma “renascença suméria” (MELLA, 2000). No tocante aos direitos dos seres humanos, destaca-se sua concepção do próprio governante, que “[...] deve ser forte o bastante para defender a sua cidade, mas não um grande conquistador, para não trazer luto nas famílias de seus próprios súditos. Seu empenho é ser o bom pastor, que cuida do bem-estar de seu rebanho” (MELLA, 2000, p. 108). Em um dos documentos / cilindros originais disponíveis, se lê que

Ele (Gudea) removeu toda injustiça de entre eles (os poderosos e os humildes). [...] O órfão (foi protegido) e o rico não lhe causou dano. A viúva (foi protegida) e o poderoso não lhe causou mal algum. Na família sem herdeiro homem, a filha passou a ser herdeira” (NARDONI, 1993, tradução nossa).

Em se tratando do registro de um código legal mais estruturado, o primeiro apontado pela literatura é o de Ur-Nammu, contemporâneo de Gudea, que governou Ur (extremo sul) e outras áreas sumérias, de 2112/11 a 2095/94 a.C. (ou de 2064 a 2046 a.C., dependendo da fonte). A estrutura desse elenco de leis assemelha-se àquela que viriam a ter os códigos de Lipit-Ishtar e Hamurabi (aproximadamente duzentos e quatrocentos anos mais tarde, respectivamente), com prólogo, conteúdo principal mais específico (as leis propriamente ditas) e epílogo (MELLA, 2000; KRAMER, 1977; OLIVEIRA, 2002). Mella (2000) advoga que o direito sumério de então era um sistema completo, constituído de direito comercial, penal e administrativo, e que em tal código “[...] muito mais que às penas, a atenção está voltada para o ressarcimento dos danos” (p. 130). Assim, como ilustração de leis / prescrições compatíveis com este foco, tem-se que se um homem se divorciasse de sua primeira esposa deveria pagar a ela uma mina de prata e que se um homem testemunhasse em um processo e se comprovasse que cometera perjúrio, ele deveria pagar quinze siclos de prata12.

Cerca de duzentos anos depois, tem-se o Código de Lipit-Ishtar, líder em Isin (atual sítio arqueológico, no sudeste do Iraque), no período 1934-24 a.C.. No prólogo, o mandatário declarava ter sido chamado “[...] ao governo da terra de modo a nela

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Naquela época e naquela região, uma mina devia corresponder a um peso entre 450 e 500 gramas e um siclo a algo entre 15 e18 gramas.

estabelecer justiça, eliminar as queixas, acabar com a inimizade (e) a rebelião pela força das armas (e) trazer o bem-estar aos Sumérios [...]” (KRAMER, 1977, p. 368). Quanto às normas, fica preservado o princípio das compensações, por exemplo: “se um homem entrar num pomar de outro (e) lá for apanhado a roubar, pagará dez siclos de prata” e “se um escravo indenizar da sua escravidão o dono (e) se confirmar (que o indenizou) duas vezes, esse escravo será um homem livre” (p. 369). Lipit-Ishtar também concluiu de forma personalista, e chamou a si o mérito de fazer com que houvesse “justiça autêntica” e também de fazer “prevalecer a retidão e a verdade” (p. 370).

Ainda ao sul, Hamurabi (Hammurabi ou Khammu-rabi, na pronúncia local da época), assumiu o governo de Babel (Babilu, Cadinguirra ou Tintir) em 1792 a.C. e tornou-se fundador do Primeiro Império Babilônico, promovendo unificação política, religiosa e lingüística de várias daquelas cidades. Ele também via a si próprio como um escolhido pelos deuses (no caso, Anu e Bel, o Baal bíblico) para fazer diferença, “[...] para destruir os maus e o mal, para prevenir a opressão do fraco pelo forte, para iluminar o mundo e propiciar o bem estar do povo”. O código jurídico por ele instituído continha 281 artigos / leis e contemplava basicamente aspectos de um código civil e penal, com fundamentos semelhantes àqueles adotados em códigos anteriores. Não deixa de ser uma tentativa, agora mais “sistematizada” e abrangente, de fazer valer a garantia de alguns direitos humanos em um estado unificado.

O código elaborado por ele buscava, em tese, proteger a propriedade, a família, o trabalho e a vida humana (o que não era uma originalidade), mas, contraditoriamente, continha um conjunto de penalidades alinhadas com o princípio de talião (lex talionis13), ou princípio da “justa” reciprocidade, sendo largamente preconizadas pena de morte (na fogueira ou forca, por afogamento ou empalação) e mutilações corporais dos mais diferentes tipos (corte de língua, orelhas, mãos, seios, extração de dentes). Isto pode ser visto como um significativo retrocesso no âmbito daquela civilização. Como agravante, por vezes um mesmo delito poderia ter penas distintas, dependendo das “classes sociais” de acusados e ofendidos, o que fica evidente, por exemplo, nos “artigos” de 211 a 214: “Se a filha de um liberto aborta por pancada de alguém, este deverá pagar cinco siclos. Se essa mulher morre, ele deverá pagar meia mina. Se ele espanca a serva de alguém e esta aborta, ele deverá pagar dois siclos. Se

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Do latim, lex – lei e talis – tal, parelho, o que dá origem ao popular “olho por olho, dente por dente”. Mella (2000) afirma não haver informação precisa sobre o povo ou tribo que adotava tal prática, importada por Hamurabi.

esta serva morre, ele deverá pagar um terço de mina”14. Ficam assim oficializados valores de feto e vida de uma mulher, e fica explicitado que os de classe superior valem mais.

Epílogo do documento retoma o que foi proposto no prólogo, em termos de justiça: “para que o forte não prejudique o mais fraco, a fim de proteger as viúvas e os órfãos [...], para falar de justiça a toda terra, para resolver todas as disputas e sanar todos os ferimentos”15.