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2. O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E A DEFESA DO

3.5 INSTITUTOS JURÍDICOS ANÁLOGOS AO SUPERENDIVIDAMENTO

3.5.1 Superendividamento e a teoria da imprevisão

A teoria da imprevisão é encontrada no campo do intervencionismo contratual, buscando o reequilíbrio entre as partes para que a prestação assumida em um contrato não se transforme nessa ruína das partes, enaltecendo o enriquecimento sem causa de uma delas em prol do prejuízo da outra259.

Dessa forma, frente a um acontecimento imprevisível e extraordinário, foi idealizada a cláusula rebus sic stantibus, modernamente denominada de teoria da imprevisão. Trata-se de uma flexibilização do princípio da intangibilidade contratual, visando o restabelecimento da comutatividade ou equilíbrio das prestações, por meio da intervenção judicial que apresenta como objetivo a revisão do contrato ou sua resolução260.

A rebus sic stantibus corresponde segundo a tradução de Plácido e Silva como “o mesmo estado das coisas”, ou a “subsistência das coisas”261.

Essa fórmula segundo Brunno Pandori Giancoli quer dizer que nos contratos de trato sucessivo ou a termo, o vínculo obrigatório entende-se subordinado à continuação daquele estado de fato vigente ao tempo de sua estipulação262.

259 SCHMIDT NETO. Andre Perin. Revisão dos contratos com base no superendividamento: do Código de

Defesa do consumidor ao código civil. Curitiba: Juruá, 202, p. 122.

260 GIANCOLI, Brunno Pandori. O superendividamento do consumidor como hipótese de revisão dos

contratos de crédito. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2008, p. 66.

261 DE PLÁCIDO E SILVA. Vocabulário jurídico. p. 676. Esse mesmo autor esclarece que: “Desse modo, a

denominação atribuída à clausula explicita o próprio conceito: o contrato se cumpre se as coisas (rebus) se conservarem; desta maneira (sic), no estado preexistente (stantibus), quando de sua estipulação, isto é, desde que não tenha sofrido modificações essenciais. ”

262 GIANCOLI, Brunno Pandori. O superendividamento do consumidor como hipótese de revisão dos

Após a Primeira Guerra Mundial, ocorreu a aplicação em massa da teoria da imprevisão em razão do desiquilíbrio trazido pela conflagração aos contratos de longo prazo263.

A esse respeito preleciona Miguel Maria de Serpa Lopes:

[...] a imprevisão consiste, assim, no desiquilíbrio das prestações sucessivas ou diferidas, em consequência de acontecimentos ulteriores à formação do contrato, independentemente da vontade das partes, de tal forma extraordinários e anormais que impossível se tornava a prevê-los razoável e antecedentemente. São acontecimentos supervenientes que alteram profundamente a economia do contrato, por tal forma perturbando o seu equilíbrio, como incialmente estava fixado, que se torna certo que as partes jamais contratariam se pudessem ter podido antes antever esses fatos. Se, em tais circunstâncias, o contrato fosse mantido, redundaria num enriquecimento anormal, em benefício do credor, determinando um empobrecimento da mesma natureza, em relação ao devedor. Consequentemente, a imprevisão tende a alterar ou excluir a força obrigatória dos contratos [...]264.

Dessa forma não é qualquer contrato e qualquer situação que possibilita a aplicação da teoria da imprevisão, faz-se necessário o preenchimento dos requisitos como acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, onerosidade excessiva para o devedor e enriquecimento inesperado ao credor.

Neste contexto, salienta-se que a teoria da imprevisão não aboliu a força obrigatória dos contratos e tampouco permitiu a resolução ou revisão judicial dos contratos, simplesmente porque a execução do mesmo ficou mais onerosa, bem como não fazer a confusão comum de teoria da imprevisão com caso fortuito ou força maior, estes últimos, ocasionam a impossibilidade absoluta no cumprimento do contrato265.

Neste sentido, destaca-se o julgado do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná:

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO ORDINÁRIA DE RESCISÃO

CONTRATUAL CUMULADA COM PEDIDO DE INDENIZAÇÃO. CONTRATO DE LOCAÇÃO DE POSTO DE GASOLINA, CONTRATO DE FRANQUIA EMPRESARIAL E CONTRATO DE COMPRA E VENDA DE FUNDO DE COMÉRCIO. PROCEDÊNCIA PARCIAL NO SENTIDO DE DETERMINAR A RESOLUÇÃO DOS CONTRATOS POR

ONEROSIDADE EXCESSIVA. APLICAÇÃO DA TEORIA DA

IMPREVISÃO. PRETENSÃO DE CONDENAÇÃO DAS EMPRESAS

REQUERIDAS AO PAGAMENTO DE PERDAS E DANOS

CONSISTENTE EM LUCROS CESSANTES E DANOS EMERGENTES.

263 VENOSA, Silvio de Salvo. Direito civil: teoria geral das obrigações e teoria geral dos contratos. 3ª ed.

São Paulo: Atlas, 2003. p. 465.

264 SERPA LOPES. Miguel Maria de. Curso de direito civil – fontes das obrigações: contratos. 4ª ed. Rio de

Janeiro: Freitas Bastos, 199, p. 69.

265 SCHMIDT NETO. Andre Perin. Revisão dos contratos com base no superendividamento: do Código de

IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DOS ELEMENTOS NECESSÁRIOS À CARACTERIZAÇÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL CONTRATUAL. INEXISTÊNCIA DE CULPA E DE FALTA DE NEXO DE CAUSALIDADE. DANOS PROVENIENTES DE CIRCUNSTÂNCIAS ALHEIAS A VONTADE DAS PARTES. ELEMENTOS PROBATÓRIOS HÁBEIS A DEMONSTRAR QUE OS PREJUÍZOS ENFRENTADOS PELA RECORRENTE DECORRERAM DE UM FATO IMPREVISÍVEL, EXTRAORDINÁRIO E SUPERVENIENTE À CELEBRAÇÃO DO CONTRATO. SENTENÇA MANTIDA. APELO DESPROVIDO. (TJPR - 11ª C. Cível - AC - 931324-6 - Curitiba - Rel.: Augusto Lopes Cortes - Unânime - - J. 05.09.2012)

No Código de Defesa do Consumidor a consagração da teoria da imprevisão verifica- se no artigo 6º, V, quando possibilita a modificação de cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas266.

Neste ponto ocorre a diferença valorativa entre a teoria da imprevisão e a hipótese de revisão contratual por superendividamento do consumidor, uma vez que no Código de Defesa do Consumidor permite a revisão em termos menos rígidos do que os da teoria da imprevisão. O princípio da obrigatoriedade do contrato, pacta sunt servanda, não atinge de modo integral o consumidor, nem o próprio fornecedor. O primeiro por força o artigo 6º, V do Código de Defesa do Consumidor, que possibilita a revisão do contrato e o segundo por força do artigo 51, § 2º, que permite a resolução e não a revisão do contrato quando ocorrer nulidade de uma cláusula, apesar dos esforços de integração do contrato, decorrer ônus excessivo para qualquer das partes267.

Dessa forma, não ocorrendo a composição das partes, poderá o juiz por força do artigo 6º, V do Código de Defesa do Consumidor, prolatar sentença alterando o pacto inicial, buscando rever o eixo obrigacional do contrato268.

266 KHOURI, Paulo Roberto Roque Antonio. A revisão judicial dos contratos no novo código civil, código do

consumidor e Lei 8.666/93: a onerosidade excessiva superveniente. São Paulo: Atlas, 2006, p. 06.

267 GIANCOLI, Brunno Pandori. O superendividamento do consumidor como hipótese de revisão dos

contratos de crédito. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2008, p. 73.

268 KHOURI, Paulo Roberto Roque Antonio. A revisão judicial dos contratos no novo código civil, código do