CAPÍTULO V – ANÁLISE E DISCUSSÃO DO PROGRAMA CIÊNCIA SEM
5.1 CONTEXTO DE INFLUÊNCIA E DE PRODUÇÃO DE TEXTO: AS ARTICULAÇÕES
5.1.1 Surgimento do Programa Ciência sem Fronteiras
O Gestor da Capes e o Gestor do CNPq, que foram individualmente entrevistados, conforme mesmo roteiro de entrevista semiestruturada, informaram que o Programa Ciência sem Fronteiras surgiu em 2011, e que foi pensado pela Presidente da República do Brasil, Dilma Rousseff.
O Gestor da Capes supõe que o Programa tenha sido pensado pela Presidente Dilma a partir de viagens, conversas, entrevistas e movimentos como o da Abenge24, pela formação de engenheiros. Conta ainda, que o fato de ter sido criado pela Presidência da República foge do formato de criação dos programas da Capes em geral, que são levados à comunidade acadêmica antes da aprovação final pelo Conselho Superior da Agência.
O Gestor do CNPq citou o encontro em 2011, da Presidente do Brasil com o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, como o momento desencadeador da ideia a respeito do Programa. Ao ser indagado sobre a criação do Programa propriamente dito, o Gestor do CNPq atribui “basicamente” ao CNPq e à Capes, por meio da consulta aos seus presidentes e técnicos, que “construíram” o Ciência sem Fronteiras. Conforme Decreto Nº 7.642, de 13/12/11 (BRASIL, 2011), explicitado na introdução deste trabalho, vimos que o Programa foi instituído pela Presidente da República.
Os gestores citam a realização, sempre no Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação, das primeiras reuniões feitas com a presença das duas agências, Capes e CNPq, a respeito do Programa Ciência sem Fronteiras. O Ministro de Estado de Ciência e Tecnologia e Inovação à época da criação do Programa, apontado pelo Gestor do CNPq como a pessoa que lançou o Ciência sem Fronteiras em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social em 2011, era Aloísio Mercadante, o qual passou a Ministro de Estado da Educação no início de 2012, sendo esses os Ministérios nos quais estão localizados, respectivamente, o CNPq e a Capes. A despeito de não ter sido possível obter detalhes, nos textos ou nas entrevistas, do tipo ou grau de influência que Aloísio Mercadante pôde ter exercido sobre a Presidência da República,
Mercadante, desde que saiu do MEC, em 2014, atua como Ministro de Estado Chefe da Casa Civil, cabe destacar que segundo nossa análise de dados, desponta como figura fundamental no contexto de criação e execução do Programa.
Em sua tese de Doutorado, defendida em 2010, a respeito das bases do novo desenvolvimentismo no Brasil a partir do Governo Lula, o Ministro Mercadante, ao falar sobre o novo desenvolvimentismo e a sociedade do conhecimento, afirma que:
No campo específico da ciência e tecnologia, torna-se necessário, além de manter e incrementar os investimentos estatais em pesquisa e na formação de recursos humanos, desenvolver uma nova política de estímulo específico à inovação produtiva, um modelo “neoschumpeteriano” que conduza as empresas nacionais a investir muito mais em pesquisa aplicada e que articule, de forma mais consistente, o saber gerado nas universidades e nos institutos de pesquisa com os interesses e as necessidades tecnológicas das firmas brasileiras. (OLIVA, 2010 p. 47)
Mercadante, no capítulo de conclusão da tese, quando aborda as potencialidades e os desafios da consolidação do novo desenvolvimentismo no País, especificamente no tópico a respeito de “Assegurar a Sustentabilidade do Crescimento Acelerado”, faz também a seguinte colocação, que assim como a anterior, aparecem como indícios de ideias que subsidiaram a criação do Ciência sem Fronteiras:
Não obstante, temos também fragilidades e novos desafios que precisam ser enfrentados. Conforme mencionamos nas Considerações Iniciais, dois parecem ter maior relevo. O primeiro diz respeito ao nosso atraso na constituição da infraestrutura e da logística necessárias para dar sustentação ao desenvolvimento econômico, o que já vem sendo combatido pelo PAC. O segundo e principal deles refere-se às nossas notórias insuficiências na educação e no desenvolvimento científico e tecnológico, o que nos impede ainda de construir, no Brasil, uma sociedade do conhecimento capaz de gerar dinamismo tecnológico e informacional em escala adequada ao desenvolvimento econômico e social de longo prazo. (OLIVA, 2010 p. 471)
Para o Gestor do CNPq, o motivo da criação do Programa foi a percepção por parte do Brasil, em 2011, de “[...] que estava completamente defasado, em termos de mobilidade
internacional de estudantes e pesquisadores, em relação a outros países.” Ele informou que, em 2009, o CNPq e a Capes mantinham aproximadamente 4.500 bolsistas no exterior, somado os números das duas agências. Questionado a respeito dos objetivos, na visão do Gestor do CNPq, “[...] o objetivo maior é promover essa internacionalização do ensino superior, e da ciência e
tecnologia e inovação brasileira.” Para ele se trata de “[...] um processo de internacionalização
praticamente não existia, sendo limitada a acordos dentro de poucas instituições brasileiras de destaque.
Ainda para o Gestor do CNPq, a modalidade de bolsa graduação-sanduíche no Ciência sem Fronteiras se deu devido à percepção de que o ensino de graduação no Brasil, especialmente nas engenharias, está muito atrasado em relação ao mundo. O Gestor do CNPq conta também, que as políticas científicas brasileiras não costumam ter especificidades de definição de áreas prioritárias, e considera essa uma decisão corajosa por parte do Programa. O Gestor julga que de fato há um enorme déficit na formação de recursos humanos nas áreas tecnológicas, nas “STEM”, do País. Ele compara os números do MEC relativos à formação de engenheiros no Brasil com a de outros países e faz a seguinte afirmação: “Por exemplo, em 2010, a China formava 350 mil Engenheiros. Nós formávamos 38 mil. O Brasil apenas 38 mil. A Coreia que tem uma população que é um terço da população brasileira, formava 90 mil. Então, tem razões de sobra pra que a gente invista nessas áreas tecnológicas, né?” Esse Gestor fala que a ideia foi colocar esses estudantes em contato com outras culturas de ensino de ciências, matemáticas, e áreas tecnológicas, a fim de que esses estudantes possam motivar uma mudança nas instituições de ensino superior nacionais e que contribuam para uma “mudança de postura” dos professores brasileiros com relação ao ensino.
A visão do Gestor da Capes em relação à indagação sobre o motivo de criação do Ciência sem Fronteiras foi, em primeiro lugar, internacionalizar a graduação e a pós-graduação e, em segundo lugar, melhorar a proficiência em língua estrangeira dos alunos brasileiros. Segundo esse Gestor, os objetivos são a internacionalização da graduação, a melhoria da qualidade dos programas de pós-graduação nacionais e a inserção dos alunos brasileiros de graduação em possibilidade de competitividade internacional, o que na visão dele já acontecia em relação à pós- graduação. Ainda para o Gestor da Capes, principalmente as engenharias e as áreas de inovação tecnológica, requeriam maior “aporte” na formação dos alunos e, nesse aspecto, o Brasil estava muito aquém dos Estados Unidos. Afirma que a ideia era de fazer o Programa voltado para as áreas da inovação tecnológica “[...], aí entrariam as engenharias, as ciências da saúde, as
biológicas, né? Por conta das Indústrias Farmacêuticas, as... a área Médica por conta dos... da necessidade da Saúde, das inovações nas áreas da Saúde [...]”.
Em relação às motivações e objetivos do Programa, que traz na reposta do Gestor do CNPq a internacionalização da ciência e tecnologia e inovação e, na resposta do Gestor da Capes,
a internacionalização da pós-graduação; percebemos em comum, na fala dos dois gestores, o objetivo da internacionalização da educação superior brasileira. O Gestor da Capes e o Gestor do CNPq, ao longo de suas falas, ao abordarem o déficit brasileiro na formação profissional que o Ciência sem Fronteiras busca superar nas áreas prioritárias, destacam as áreas de engenharias. Nesse aspecto, além do Programa Graduação Sanduíche em Áreas Tecnológicas de 1998, sobre o qual discorremos no primeiro capítulo deste trabalho, podemos constatar, mais recentemente, outra ação da Capes de fomento à formação de engenheiros: o Pró-Engenharia, lançado em 2007, diante do crescimento da economia nacional e do “aumento da demanda por engenheiros, fartamente exposto em artigos e documentos” (CLÍMACO, 2014). O autor chama atenção ainda em seu texto para o Plano Nacional de Engenharia (Pro-Engenharia): Desenvolvimento Brasileiro – Vencendo os Desafios da Década 2011/2020, lançado em 2011 pela Capes, e destaca o estreitamento da parceria entre a Abenge e a CAPES, em 2012 e 2013, que resultou na retomada de ações do Pró-Engenharia.
Nos documentos governamentais que antecederam o Ciência sem Fronteiras, como o Plano Nacional de Pós-Graduação 2011-2020 (CAPES, 2010), que realiza uma retrospectiva dos PNPGs anteriores, e o Relatório de Gestão da Capes no período 2004 até 2010 (CAPES, 2011), examinados no terceiro capítulo deste trabalho, não foram localizados planos para a criação do Programa. O que pode ser ressaltado do último PNPG, na parte destinada a relação entre pós- graduação e empresas, é a preocupação com os dados de 2009 do IBGE sobre o baixo índice de matrículas na educação superior nas áreas de engenharias e ciências tecnológicas, correspondendo apenas a 11% do total de todas as áreas.
Pereira (2013), em sua pesquisa, não revelou achados em documentos governamentais sobre um planejamento anterior específico para a criação do Ciência sem Fronteiras. A percepção de Pereira (2013) é de que, desde o governo Lula (2003-2010), a política de C,T&I foi vista como estratégica para o desenvolvimento do Brasil e buscava aproximar-se do modelo internacional.
Diante desses dados, percebemos que o Programa Ciência sem Fronteiras, o qual surgiu como um repentino programa governamental, visa atender a uma demanda relativa ao desenvolvimento nacional por meio da ciência, tecnologia e inovação, vinculada a outra demanda antiga concernente ao desenvolvimento das áreas que contempla, valendo-se para isso da busca pela internacionalização, especialmente, do ensino superior nacional, nos moldes internacionais. No caso do Brasil, como vimos nos conceitos sobre o termo no início deste trabalho, essa
internacionalização é “passiva”, conforme Marrara (2007), e também Lima e Contel (2011), que explicam ainda:
A internacionalização da educação superior tem relação com os principais circuitos de produção do conhecimento, como visto. É o caso das universidades, dos centros de produção de tecnologia das empresas (P&D) e das demais instituições ligadas à criação e difusão de ciência e tecnologia no mundo. Mas essa internacionalização, por sua vez, não se deu no “vácuo”. Na esteira da explicação, a partir da geopolítica do conhecimento, é preciso destacar também que uma nova “cultura material”, para usar o conceito do historiador Fernand Braudel ([1985]), ou um “meio técnico-científico-informacional” (SANTOS, 1994; 1996) se instalou de forma diferencial nos países. Destarte, infraestruturas sofisticadas permitiram aumento inaudito de fluxos entre as regiões produtivas, incrementando também a conectividade dos atores e dos lugares que produzem conhecimento no mundo. (LIMA; CONTEL, 2011, p. 116-117)
Em relação ao questionamento feito aos gestores sobre o Programa 100,000 Strong in the
Americas, lançado em março de 2011, nos EUA, o Gestor da Capes respondeu que não ouviu
falar a respeito, e na visão dele “[...] o Programa Ciência sem Fronteiras não foi feito para os
Estados Unidos, né? Ele... ele é o mundo inteiro [...].”
Por outro lado, o Gestor do CNPq, mesmo não conhecendo detalhes, sabe da existência do Programa dos Estados Unidos e supõe que na conversa da Presidente Dilma Rousseff com o Presidente Barak Obama sobre o envio de estudantes brasileiros para aquele país, o Programa americano tenha sido citado, mas informou que a criação do Programa Ciência sem Fronteiras não visava levar estudantes para o 100,000 Strong in the Americas, apesar de afirmar ter existido uma ideia inicial do Programa Ciência sem Fronteiras de mandar alunos somente para os Estados Unidos. A respeito disso, o Gestor do CNPq diz: “[...] viu-se que não era possível mandar 100
mil... 100 mil bolsistas pros Estados Unidos, em três anos, e aí abriu pra outros Países também”. Com base nos textos levantados nesta dissertação, especialmente o artigo escrito em 2012, pelo atual Ministro de Estado das Relações Exteriores, Mauro Vieira, quando ainda era Embaixador do Brasil em Washington, e por André Maciel, diplomata lotado na mesma Embaixada à época, nossa percepção é a de que os gestores da Capes e do CNPq não foram suficientemente informados sobre as questão política internacional que envolveu a criação do Ciência sem Fronteiras. Defendemos a ideia de que o Programa fez parte da estratégia política de execução do Programa 100,000 Strong in the Americas, lançado pelo Presidente Barack Obama também em 2011. Os dados analisados nessa categoria indicam que o Ciência sem Fronteiras foi criado em um contexto de demanda de continuidade de crescimento econômico do Brasil e de crise econômica dos países da América do Norte e Europa, que precisavam captar recursos
financeiros internacionais em meio à crise em que estavam imersos. Pode-se constatar que os Estados Unidos obtiveram êxito em uma negociação com o Brasil, que acabou beneficiando diversos outros países.
Conforme Knight (2005), identificamos a internacionalização promovida pelo Programa como acadêmica e para formação de recursos humanos, muito conectada às lógicas políticas e econômicas. Essa percepção se baseia nas informações de Vieira e Maciel (2012) sobre o reconhecimento da importância da internacionalização e do apoio por parte do governo federal dos Estados Unidos, de seu Departamento de Comércio e, principalmente, dos governos estaduais que visam com a internacionalização de suas instituições de ensino superior o desenvolvimento das economias locais. O nosso entendimento também se apoia na afirmação de Lima e Contel (2011) sobre a formação do espaço universitário europeu a partir do Processo de Bolonha (1999) tratar-se do auge do processo de integração política e econômica da Europa, e de atualmente a internacionalização da educação superior constituir-se como política de Estado nos países centrais do capitalismo mundial.