3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.2. Abordagem aplicada
3.2.7. Sustentabilidade empresarial
A sustentabilidade corporativa está baseada em três pilares: o econômico, o ambiental e social (Accenture, 2005). Para que o desenvolvimento sustentável ocorra é preciso contemplar igualmente estes três aspectos. Isto significa que, uma empresa ou um processo, para ser válido dentro dos conceitos atuais, deve ser economicamente rentável, ambientalmente compatível e socialmente justo. Cumprindo esta exigência, as empresas estarão sendo ecoeficientes e criando as condições básicas para a sua permanência no mercado.
A necessidade de investimentos empresariais com vistas ao desenvolvimento econômico e social é reforçada ainda mais, ao se analisar o papel da empresa na sociedade, conforme aponta Drucker (1999, p. 3-4) a cerca de uma questão central:
“O centro de uma sociedade, de uma economia e de uma comunidade moderna não é a tecnologia, nem a informação, ou sequer a produtividade. O centro da sociedade moderna é a instituição. E a gestão é a ferramenta, a função e o instrumento específico para tornar as organizações capazes de gerar resultados. Em suma: a instituição não existe simplesmente dentro da sociedade para reagir à sociedade. Ela existe para produzir resultados dentro da sociedade e para modificá-la... para melhor.”
Seguem abaixo alguns conceitos obtidos na literatura ou em outras fontes, correlacionados a esse tema, a fim de uniformizar a linguagem e facilitar o entendimento das idéias apresentadas:
Desenvolvimento sustentável: “desenvolvimento que atende às necessidades do presente sem comprometer a capacidade de gerações futuras” (Furtado, 2000 p. 62 apud Almeida & Souza, 2000).
Eco-eficiência: visa produzir mais com menos utilização de energia e material, seja através de melhoria de eficiência nos processos produtivos ou por abordagens inovadoras, como reciclagem e combate ao desperdício (Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável - FBDS, 2007).
Sustentabilidade corporativa: é uma visão de negócios com base em um novo modelo de gestão que busca agregar valor à empresa através de uma atuação social e ambiental que, junto a boas práticas de governança, proporciona bons resultados econômicos (FBDS, 2007).
Inovação: “...é a busca, descoberta, experimentação, desenvolvimento, imitação e adoção de novos produtos, novos processos e novas técnicas organizacionais.” (DOSI, 1988). Essa premissa caracteriza as etapas possíveis de serem seguidas para o ato de inovar. “Inovação é o ato de atribuir novas capacidades aos recursos existentes na empresa para gerar riqueza.” (Drucker, 2003).
Ao se aplicar esses conceitos no setor elétrico, o tema “sustentabilidade empresarial” ganha uma importância ainda maior, em função da natureza das atividades produtivas das empresas de energia, que têm forte impacto no meio ambiente e sociedade. Seus processos produtivos (geração, transmissão e distribuição de energia) afetam sobremaneira o meio ambiente e a sociedade.
Outro aspecto importante que deve ser considerado é a concorrência. O mercado de energia elétrica brasileiro tem exigido mudanças significativas das empresas que operam nesse setor, tendo em vista o aumento da sua competitividade. Acrescenta-se a isso a tendência global do ambiente das organizações, onde as exigências da sociedade civil, dos investidores, de financiadores e dos consumidores têm obrigado às empresas a levarem em conta os impactos das suas atividades em todo seu entorno de atuação.
O meio ambiente, o governo, a sociedade e os aspectos econômicos passam a ter pesos equivalentes nas tomadas de decisão das empresas e a ética, transparência, prestação de contas, governança corporativa, alianças e parcerias estratégicas tornam-se elementos essenciais no modelo de gestão organizacional.
Vários fatores têm desafiado as empresas de energia, dentre os quais:
Demanda crescente de energia, sobretudo pelos países emergentes;
Problemática do aquecimento global e os impactos da energia nessa questão;
Exigências crescentes da sociedade por energia limpa e renovável;
Diversificação das fontes de suprimento (necessidade de utilização de fontes alternativas: quebra de paradigmas);
Consumidores cada vez mais exigentes;
Limites e restrições de recursos (escassez de água, qualidade da água, hidrologia);
Biodiversidade (espécies em perigo);
Impactos no relevo (erosão);
Emissão de carbono (poluição); entre outros.
É preciso ter em mente que o provimento de energia elétrica é um serviço de utilidade pública e essencial, tanto para o desenvolvimento econômico, como para a qualidade de vida da sociedade. Isso significa dizer que transformações nesse setor têm profundas conseqüências para a economia e a sociedade, o que ressalta a relevância do tema “sustentabilidade” para empresas que atuam neste mercado.
Frente aos fatos e desafios apresentados, torna-se imprescindível mudar o enfoque das estratégias e princípios de gestão das empresas do setor energético, que passa a ser calcado nas três dimensões: social, econômica e ambiental.
Segundo pesquisa realizada pela Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável (FBDS, 2007), empresa sem fins lucrativos, que tem como finalidade promover a sustentabilidade empresarial, predomina o entendimento global de que o desenvolvimento sustentável é uma realidade necessária e cada vez mais premente, capaz de gerar vantagens competitivas para as empresas, tais como: melhoria do relacionamento no mercado de capitais, da qualidade de vida dos empregados e da sociedade, da imagem empresarial no mercado (selos, certificações e atestados de desempenho) e identificação de gaps ou lacunas que auxiliam nos planos de melhoria dos resultados organizacionais.
Essa pesquisa foi realizada pela FBDS em parceria com a IMD, e teve como foco principal identificar práticas de sustentabilidade corporativa nas empresas brasileiras de diversos setores, procurando-se examinar as diferenças de percepções, padrões e atitudes. Um dos setores pesquisado foi o setor elétrico, representado pelas seguintes empresas: Grupo AES Eletropaulo, Companhia Energética de Minas Gerais (CEMIG), CPFL Energia, Elektro
(antiga CESP - Companhia de Energia Elétrica do Estado de São Paulo, empresa estatal) e Grupo Neoenergia.
De acordo com os resultados dessa pesquisa (FBDS, 2007), as empresas de energia que estão atuando com vistas ao desenvolvimento sustentável tornam-se cada vez mais atrativas para os investidores e suas ações passam a ser mais valorizadas nas bolsas financeiras. São observados também resultados relacionados ao ambiente interno da organização, no que se refere ao clima organizacional e à motivação e produtividade dos seus empregados. Por sua vez, tais resultados têm um impacto positivo nas variáveis econômicas da empresa. Características como perpetuidade, ética de conduta externa e interna, estabilidade econômico-financeira, convivência harmônica com a sociedade, entre outros aspectos, tornam-se requisitos cada vez mais exigidos para obtenção de recursos de capital (financiamentos, incentivos, investimentos), que são, por sua vez, fundamentais para o desenvolvimento do setor (investimentos em novas obras de expansão de energia, novas linhas de transmissão, etc.), e, conseqüentemente, da humanidade.
Portanto, é natural que as empresas do setor elétrico sejam responsabilizadas pela promoção da sustentabilidade global e, para isso, é necessário que ocorra uma evolução nos atuais modelos de gestão que ainda predominam nessas organizações.
Nesse contexto, as práticas de sustentabilidade tornam-se um importante meio e instrumento de gestão para obtenção de diferenciais competitivos das empresas que atuam nesse setor.