CARACTERIZAÇÃO GEOQUÍMICA DE PETRÓLEO POR GC×GC-MS E FERRAMENTAS
2.1.1. TÉCNICAS CROMATOGRÁFICAS MULTIDIMENSIONAIS
A necessidade de atender áreas como a petroleômica, proteômica e metabolômica, e as crescentes exigências para adequada separação, identificação e quantificação de biomarcadores e metabólitos, promoveram uma grande sofisticação instrumental, elevando o poder de resolução para detecção e identificação destes analitos. Na análise de amostras com certo grau de complexidade por técnicas unidimensionais, o poder de separação muitas vezes é insuficiente ou, quando adequado, requer elevado tempo de processamento [81]. Por essas razões, o surgimento de novos sistemas multidimensionais promoveu um salto exponencial na capacidade de análise dessas matrizes [81, 82].
As técnicas multidimensionais podem ser definidas como aquelas onde dois sistemas de separação com seletividades diferentes são combinadas em série, o que aumenta a capacidade de separação, detecção e identificação dos constituintes de uma amostra [83]. Elas podem ser divididas em técnicas multidimensionais abrangentes e não-abrangentes.
Para que seja considerada abrangente, é necessário que, no mínimo uma fração representativa de todos os componentes da amostra sejam separados por duas técnicas de separação com seletividades diferentes, demonstrando assim um perfil distinto de retenção e também que percentagens iguais de todos esses componentes passem por ambas dimensões. Além disso é necessário que os analitos separados em uma das dimensões não sejam recombinados na dimensão seguinte, para que seja mantido o perfil de eluição observado na primeira separação [9, 84, 85].
Na cromatografia multidimensional não-abrangente apenas algumas frações da primeira dimensão são transferidas para o segundo sistema analítico, dessa forma, não representando os componentes da amostra em sua totalidade [86]. Dentre as técnicas de separação multidimensionais não-abrangentes, técnicas hifenadas como a cromatografia gasosa multidimensional de frações parciais (GC-GC ou HC/MDGC, heart-cut multidimensional gas chromatography) é frequentemente utilizada. A Figura 32 ilustra o esquema típico de um sistema GC-GC. Neste sistema, a amostra é introduzida na primeira coluna (também chamada de pré-coluna) e
arrastada por um fluxo de gás, sofrendo a primeira separação cromatográfica, até chegar a interface. Esta interface (modulador) transfere o efluente proveniente da primeira coluna para uma válvula limitadora de fluxo (capilar de restrição desativado), no qual conduz a amostra para um detector ou pequenas e restritas frações para a segunda coluna para que sofra uma segunda separação e chegue ao segundo detector [86, 87].
Figura 32: Típico sistema de cromatografia de frações parciais (GC-GC). ADAPTADO: Seeley (2012) [87].
O aumento da capacidade de separação da cromatografia multidimensional pode ser discutido em termo do incremento na “capacidade de pico” [88]. Idealmente a capacidade de pico de uma sistema unidimensional (1D) tem que exceder o número de analitos de uma matriz, o que raramente ocorre para amostras muito complexas, causando a sobreposição de picos e diminuição da qualidade da análise [9, 89]. Uma alternativa para minimizar este problema é a escolha de uma fase estacionária seletiva. Além disso, aumentar o comprimento e diminuir o diâmetro interno da coluna favorece a resolução dos componentes [90], porém, nessa situação, o tempo de análise aumenta bastante.
A análise multidimensional, proporciona aumento da capacidade de picos em relação a 1D. Se por exemplo, a capacidade de pico da 1D for n
1 e a capacidade
da segunda dimensão (2D) “heart-cut” for n
2, a capacidade total de picos será dada
Injetor
Modulador
Detector 1 Detector 2
por n1 + n2 picos [84, 85]. Dessa forma, o plano de retenção contém maior capacidade,
adaptando-se a misturas um pouco mais complexas. A Figura 33 representa a capacidade de pico em sistemas cromatográficos convencionais, não-abrangentes e abrangentes.
Figura 33: Representação gráfica da capacidade de pico de sistemas cromatográficos convencionais, não-abrangentes e abrangentes.
As técnicas hifenadas do tipo GC-GC são efetivas para uma grande variedade de amostras, sendo que, as áreas que fazem maior uso deste modo de análise, são: petroquímica com a análise de componentes traços [91], albiental [92, 93], e farmacêutica [94, 95]. Porém, muitas vezes não são eficientes na separação de determinadas matrizes altamente complexas. Esses sistemas complexos são comuns em análise de petróleo devido a elevada diversidade estrutural e físico-química dos compostos biomarcadores. Nesses casos, faz-se necessário a utilização de técnicas multidimensionais mais avançadas e abrangentes, tais como a GC×GC.
A cromatografia gasosa bidimensional abrangente (GC×GC) foi inicialmente descrita por Liu e Phillips em 1991 [96], que descreveram um sistema
onde duas colunas com diferentes seletividades foram conectadas em série através de uma interface denominada modulador, que continuamente coleta, focaliza e reinjeta frações do eluato da primeira coluna na segunda coluna. Esta é considerada a maior inovação da GC após o desenvolvimento de colunas capilares em 1958, e desde o seu desenvolvimento é considerado uma das técnicas de separação mais poderosas, extensivamente aplicada na separação de matrizes complexas [82].
Os principais atrativos da GC×GC são: i) a elevada capacidade de pico; ii) o aumento do sinal dos analitos devido a reconcentração realizada pelo modulador e iii) a habilidade em produzir um cromatograma estruturado [82, 97]. A Figura 34 representa o sistema cromatográfico bidimensional abrangente.
Figura 34: Representação de um sistema típico e simplificado da cromatografia gasosa bidimensional abrangente. ADAPTADO: Liu e Phillips (1991) [96].
A separação e análise em um sistema bidimensional abrangente é muito mais poderosa do que em um sistema unidimensional ou multidimensional não- abrangente. Se a capacidade de pico da 1D for n
1 e da 2D for n2, a capacidade total
de picos será n1 x n2 picos (Figura 33) [84]. Sendo assim, a capacidade de pico é
exponencialmente maior do que em sistemas unidimensionais ou multidimensionais tipo heart-cut. Além disso, a identificação é confiável já que cada analito apresenta dois tempos de retenção.
Uma boa estruturação do cromatograma é capaz de fornecer informações sobre classes de compostos (séries homólogas, isômeros, etc.) contidas nas amostras (geralmente aglomerados em regiões bem definidas, “clusters”) e fornecer informações qualitativas, já que é possível fazer uma análise visual de grupos de compostos e identificá-los com ajuda de um espectrômetro de massas [10, 82, 97].
Entretanto, para obter um cromatograma bem estruturado é preciso ter uma alta capacidade de pico, ortogonalidade, resolução e sensibilidade, além de uma boa otimização desses parâmetros. Idealmente, para que exista ortogonalidade é necessário que a separação na primeira coluna não seja correlacionada com a separação na segunda coluna [98]. Atenderá a este requisito sistemas multidimensionais que apresentem dois mecanismos de separação diferentes aplicados a toda a amostra [83, 99].
A configuração de um sistema GC×GC é relativamente simples quando considerado o incremento na resolução e detectabilidade [100]. As principais condições operacionais que devem ser otimizadas em GC×GC são o período de modulação ou frequência, escolha da fase estacionária e dimensões da coluna, programação da temperatura e configurações do detector [101].
O período de modulação ou frequência (PM) é o tempo que o modulador
leva para coletar, focalizar e reinjetar uma fração da amostra proveniente da primeira coluna para a segunda coluna e está relacionado ao tempo necessário para que os compostos sejam eluidos na 2D. Esse período tem que ser curto o suficiente para que
a separação da primeira dimensão não seja perdida, ou seja, se o modulador não executasse sua função, quando os analitos separados na primeira dimensão percorressem a segunda coluna, os picos poderiam se sobrepor e coeluiriam, fazendo com que fosse perdido o principal requisito da GC×GC [101]. Além disso, o PM deve
ser constante em toda a corrida. Para não perder a separação, um pico deve ser no mínimo fracionado três vezes [102]. Por exemplo, se um composto demora 24 s para eluir da primeira dimensão, então o período de modulação deve ser de no máximo 8s.
A Figura 35 ilustra um experimento que demonstra a influência do período de modulação na separação cromatográfica [101]. Os autores utilizaram três diferentes períodos de modulação: 6s, 7s, 8s. Com período de modulação de 6s (A) os picos estão visualmente separados. Quando o período de modulação é alterado para 7s (B) e 8s (C), é possível visualizar a coeluição parcial e completa dos compostos, respectivamente. A sobreposição dos compostos é consequência do
longo ciclo de modulação que proporciona tempo suficiente para reunir dois picos parcialmente separados na primeira dimensão.
Figura 35: Influência do período de modulação na separação cromatográfica. Em (A) PM 6s com separação dos compostos; (B) 7s e (C) 8s respectivamente. ADAPTADO: Mostafa et al. (2012) [101].
O PM poder ser estendido de 2s até 12s. Utilizar um PM curto, é vantajoso
para aqueles compostos que não se sobrepõem na 1D, mas que tem o mesmo tempo
de retenção na 2D, entretanto, sua maior desvantagem, é que períodos curtos, afetam
compostos que tem maior interação com a 2D, podendo ocorrer picos fora do ciclo de
modulação (wrap-around). Este fenômeno ocorre quando um composto apresenta um tempo de eluição na 2D superior ao período de modulação, fazendo com que a
estrutura do cromatograma seja modificada. Este fato deve ser considerado um problema quando há sobreposição de picos, pois, a identificação torna-se praticamente impossível [101]. A Figura 35 no item A, ilustra um exemplo claro de “wrap-around” para o pico 3. A separação obtida na 1D deve ser mantida na 2D, mas
para que isto ocorra, o modulador tem que ser frio o suficiente para que compostos não escapem da coleta e saiam fora de ciclo.
Outro parâmetro a ser estudado são as dimensões da coluna. Para que a separação na primeira coluna não seja perdida, a separação na segunda dimensão deverá ser suficiente rápida para que as frações injetadas pelo modulador não se sobreponham. Para isto é necessário que o mecanismo de separação na 2D seja tão
rápido quanto o período de modulação, ou seja, colunas muito longas, poderiam levar a sobreposição de compostos. Em geral, a primeira dimensão é sempre nas medidas que já eram utilizadas para a sua análise unidimensionais por GC [81]. A escolha das
dimensões da segunda coluna, dependerá da velocidade com que os analitos saem para o detector, mas em geral as dimensões variam de 0,5 m a 2,0 m de comprimento [81].
Além das dimensões do conjunto de colunas, o sucesso da separação por GC×GC depende diretamente das diversas fases estacionárias que as compõe. A otimização da fase estacionária para separações de misturas complexas, é praticamente impossível sem a prévia análise no sistema cromatográfico convencional. Isto acontece devido a imensidão de compostos com diversas estruturas e polaridades presentes em amostras complexas.
O conjunto mais utilizado em GC×GC é feito com fases estacionárias apolares + polares, ditas como conjuntos “normais”. Existe ainda os tipos reversos, menos utilizados, no qual o conjunto de colunas é composto primeiramente por uma coluna polar ou de alta polaridade, e uma segunda coluna apolar ou de média a baixa polaridade. A Figura 36 ilustra duas separações obtidas por um conjunto normal (A; apolar + polar) e um conjunto reverso (B; polar + média polaridade). Neste caso, a utilização de um conjunto reverso, proporcionou uma melhor resolução dos componentes aromáticos da amostra, permitindo a quantificação de analitos dentre as classes dos monoaromáticos e diaromáticos [103].
Figura 36: Separações cromatográfica utilizando um conjunto apolar + polar (a) e polar + apolar (b). ADAPTADO: Mondello (2011) [103].
Colunas do tipo de líquido iônico, estão sendo cada vez mais utilizadas principalmente por possuir um alto limite de temperatura e por sua fase estacionária ser de alta polaridade, que proporciona uma maior seletividade por manter interações específicas entre analitos de alta polaridade [104]. Diferenciando-se assim, das colunas polares normais que geralmente possuem baixo limite de temperatura [105]. Dessa forma, espera-se que seja altamente seletiva para alcalóides, flavonoides e compostos polares em geral e menos seletivas para terpenóides, por exemplo. Ragonese et al. (2012) [106], fez uma breve revisão sobre a utilização de colunas de liquido iônico para diversos tipos de análises por GC×GC, a qual observou que a maior eficiência deste tipo de coluna foi obtida para a análise de ésteres metílicos de ácidos graxos.
Apesar da elevada importância dos demais componentes da GC×GC, o modulador é considerado o coração da técnica, é a interface que interliga a 1D à 2D.
As principais funções de um modulador são: acumular continuamente ou “aprisionar” pequenas frações provenientes da primeira separação, também chamada de fase de coleta, reconcentrar (focagem) as frações eluídas no espaço ou tempo, e reinjetar estas frações com pulsos rápidos (frações de segundos) e periódicos na segunda dimensão [89, 98]. Normalmente a separação na segunda dimensão termina antes que a próxima fração reconcentrada é injetada [81]. Consequentemente, o modulador é o maior responsável pela eficiência da 2D (se os analitos não forem remobilizados
de maneira rápida e eficaz, haverá um alargamento dos picos adicional ao causado pela segunda separação) [105].
O modulador pode estar localizado no final da 1D, no início da 2D ou entre
as duas colunas. Sua importância é tamanha, que na sua ausência, os analitos separados na 1D podem sobrepor-se na 2D não obtendo a separação desejada. A
Figura 37, ilustra o processo básico da modulação, no qual descreve desde a separação unidimensional, até a visualização de um cromatograma GC×GC. O primeiro passo (A), ilustra o processo de modulação no qual vários e rápidos cromatogramas são gerados pela 2D lado a lado de acordo com o período de
modulação (B). O terceiro passo (C), é a transformação dos sinais em um gráfico bidimensional, no qual são representados os tempos de retenção da 1D (T
r1) x tempo
de retenção da 2D (T
r2) x intensidade do pico. A transformação do gráfico com os
tempos de retenção em matrizes é feita geralmente por um software e visualizada em forma de um gráfico de cores (F), de contorno (E) ou um gráfico tridimensional (D).
Figura 37: Ilustração do processo básico de geração de um cromatograma bidimensional. ADAPTADO: Dallüge et al. (2003) [81].
O modulador é a única peça responsável por injetar continuamente o eluato da primeira na segunda coluna e, desde seu surgimento em 1991 [96], assumiram vários formatos e tamanhos. Dentre eles, os que mais se destacam são os baseados em operações pneumáticas (válvulas e fluxo) [107, 108] e os térmicos (criogênicos) [109-112].
Os moduladores criogênicos são baseados na incidência de jatos quentes e jatos resfriados com nitrogênio líquido alternadamente sobre um capilar para a devida compressão da banda cromatográfica e remobilização para a 2D . Os
moduladores de quatro jatos [111] e o modulador de loop [110] são os que mais se destacam nessa função.
Nos moduladores de quatro jatos (Figura 38), os dois estágios de modulação (aprisionamento e dessorção das bandas cromatográficas) são realizadas em locais diferentes, ou seja, no primeiro estágio inicia-se o ciclo de modulação pelo aprisionamento do eluato proveniente da 1D com incidência do jato frio enquanto que
no segundo estágio ocorre a dessorção das bandas pela incidência de um jato quento (Figura 38 – 1). Em seguida, os jatos são invertidos e a incidência de um jato quente
no primeiro estágio faz com que a banda seja dessorvida e focalizada no segundo jato frio (responsável por comprimir a banda antes da remobilização para a 2D) (Figura 38
– 2 e 3). Posteriormente, há novamente a inversão dos jatos e o eluato é remobilizado em uma banda estreira para a 2D (Figura 38 – 4). Sua maior vantagem está na
eficiência em aprisionar os compostos bastante voláteis [113].
Figura 38: Ilustração simplificada do funcionamento de um modulador criogênico de quatro jatos. ADAPTADO: Hantao (2014) [114].
Os moduladores criogênicos de loop são capazes de aprisionar, comprimir a banda cromatográfica proveniente da 1D e remobilizar os analitos para a 2D
utilizando apenas dois jatos. Para isto, um capilar é posicionado entre as duas colunas e todo o processo de modulação acontece ali, em dois pontos distintos do capilar. O
1 D 1 D 1 D 1 D 2 D 2 D 2 D 2 D F F F F F F F F Q Q Q Q Q Q Q Q
primeiro passo é realizado pelo aprisionamento do eluato proveniente na 1D através
da incidência de um jato criogênico (Figura 39 – 1). Em seguida, o jato quente é acionado para que ocorra a dessorção dos analitos para dentro da alça de modulação ou loop (Figura 39 – 2). A incidência dos jatos frio e quente é realizada alternadamente, até que a banda cromatográfica percorra todo o capilar e alcance a região de modulação onde serão aprisionados novamente (Figura 39 – 3) para posterior transferência para a 2D na forma de pulsos estreitos (Figura 39 – 4).
Figura 39: Ilustração simplificada do funcionamento de um modulador criogênico de loop. ADAPTADO: Hantao (2014) [114].
Neste trabalho, foram realizados testes com moduladores criogênicos de 4 jatos e loop. Os equipamentos utilizados são protótipos desenvolvidos pelo próprio grupo de pesquisa, resfriados com nitrogênio líquido e aquecidos por resistências elétricas, no qual seus funcionamentos foram descritos nas Figuras 38 e 39.