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Tópicos “Construindo o Conceito” e “Conceituando”

Embora o objetivo de “Construindo o Conceito” seja o de “levar o aluno a construir o conceito gramatical, por meio de um conjunto de atividades de leitura, observação, comparação, discussão, análise e inferências” (CERE- JA; MAGALHÃES, 2012, p.12), percebemos que o conceito de sujeito já está dado, sem nenhum trabalho de reflexão sobre a língua ou sequer de “levar o aluno a construir o conceito gramatical”, como proposto pelos autores no Manual do Professor.

Ao definir sujeito como o “termo da oração que informa de que ou de quem se fala” (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p.82), o livro segue o critério pragmático utilizado pela gramática normativa, que enfatiza a relação entre sujeito e tópico, como vimos na seção anterior. Neste caso, há uma predispo- sição para interpretar o sintagma nominal topicalizado como sendo o sujeito.

Destacamos, nos exercícios dessa subseção, o tratamento dado à pre- sença de dois elementos classificados como essenciais: o sujeito e o predi- cado, sem requerer do aluno a reflexão sobre o que significa, nesse contexto, o termo “essencial”. Ao assumir essa abordagem para a identificação de su- jeito – enfoque apresentado pela gramática normativa –, é preciso responder ao seguinte questionamento: como classificar a função de sujeito como termo

RAQUEL MEISTER KO. FREITAG & TAYSA MÉRCIA SOUZA SANTOS DAMACENO

essencial da oração, entendendo essencial como algo que não pode faltar, se existe a classificação de oração sem sujeito ou sujeito inexistente?

Esta é uma questão que fica sem resposta, já que o LDLP sob análise não abre espaço para tal reflexão, nem no corpo do texto, nem também no box “Contraponto”, dedicado para esclarecimentos sobre conteúdos discutíveis e que precisam ser revistos, dentre os quais, Cereja e Magalhães (2012, p.13) fazem menção ao conteúdo sujeito.

As atividades para o estudo dos termos essenciais da oração tomam por base um trecho da música “Vermelho”, de Vanessa da Mata, no quadro da figura 12.

Figura 12: Música base para atividades sobre sujeito.

O livro traz, então, as questões da figura 13 para essa reflexão.

Figura 13: Atividades sobre sujeito (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p.82)

Vermelho

Gostar de ver você sorrir Gastar das horas pra te ver dormir Enquanto o mundo roda em vão Eu tomo o tempo

O velho gasta solidão

Em meio aos pombos na Praça da Sé O pôr do Sol invade o chão do apartamento Vermelhos são seus beijos

Que meigos são seus olhos Ver que tudo pode retroceder Que aquele velho pode ser eu

[...] (http://letras.terra.com.br/vanessa-da-mata/1004440/)

1 – As orações geralmente apresentam dois elementos essenciais: um que informa de que ou de

quem se fala e outro que apresenta informações sobre o ser de que se fala. O primeiro é chamado de sujeito, e o segundo é chamado de predicado. Na oração “O pôr do sol invade o chão do apar- tamento”:

A respeito de que se fala alguma coisa?

Que parte dessa oração informa algo sobre esse ser?

2 – O sujeito apresenta como núcleo (palavra mais significativa, mais importante) um substantivo, um

pronome ou uma palavra substantivada. Já o predicado sempre apresenta verbo, que geralmente é o seu núcleo. Em “O pôr do sol invade o chão do apartamento”:

A segunda questão, da mesma forma que a primeira, também apresenta o conceito de núcleo como “palavra significativa, mais importante” (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p.82), sem propor reflexão ou sugerir qualquer espécie de construção do conceito. Ademais, as atividades buscam a identificação do núcleo do sujeito no enunciado da questão, sem demonstrar sua importância para a construção do sentido, a partir do emprego de sujeito no texto. Esse fator é crucial, não apenas pelo fato de ser um dos objetivos propostos como ação metodológica no Manual do Professor do LDLP sob análise, mas também por ser elemento chave para o entendimento da categoria gramatical, no que se refere à sua classificação.

Sobre essas questões de conceituação, os autores apontam, no Manu- al do Professor, para a necessidade de que alguns conceitos gramaticais, a exemplo do sujeito, sejam revistos pelos especialistas.

Contudo, pela falta de outro modelo consensual, melhor e mais bem – acabado, preferimos trabalhar com categorias consagradas e, sempre que possível, chamar a atenção do aluno para a incoerên- cia do modelo gramatical ou estimular o professor a fazer a crítica ao modelo (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p.13, grifo nosso)

Embora os autores indiquem o conceito de sujeito como discutível e que precisa ser revisto, não trazem nenhuma informação complementar ou crítica, não promovem reflexão, nem explicações complementares. Eles indicam no Manual do Professor a existência de um box denominado “Contraponto”, que traria tais questionamentos, mas, para o conteúdo aqui em questão, o box não foi utilizado.

Acreditamos que a posição dos autores a respeito da necessidade de revisão de conceitos gramaticais é um avanço enquanto forma de reconhecer a dificulda- de, mas, a partir do momento em que não se posicionam na subseção estudada e não trazem nenhum embasamento, eles se isentam da responsabilidade da re- flexão, do estímulo à construção do conceito, deixando-os a cargo do professor.

Em relação aos exercícios, as atividades basicamente consistem em re- querer a identificação e a classificação gramatical. Apesar disso, os autores afir- mam que

a finalidade central do trabalho com a língua é outra: garantir o mí- nimo de metalinguagem que permita aos alunos dar saltos maiores do ponto de vista semântico ou discursivo. [...] Esses conceitos não são, pois, um fim em si, mas um meio para reflexões linguísticas mais produtivas. (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p. 13-14).

RAQUEL MEISTER KO. FREITAG & TAYSA MÉRCIA SOUZA SANTOS DAMACENO

Para tais atividades, Cereja e Magalhães (2012) partem também de um texto, uma tira de Lucas Lima, com os personagens Nicolau e o papagaio Mar- cel, com o diálogo apresentado na figura 14.

Figura 14: Atividade sobre sujeito (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p.83).

O Manual do Professor preconiza que nenhum conceito gramatical deve ser estudado com o fim em si mesmo, mas como um meio para reflexões lin- guísticas mais produtivas.

Figura 15: Atividade sobre sujeito (CEREJA; MAGALHÃES, 2012, p.84).

Mas, ao verificarmos as atividades de estudo do texto na figura 15, cons- tatamos que esse princípio não se concretiza. Ainda que o livro foque uma análise dos aspectos mais formais do texto, solicitando a identificação do su- jeito nas orações apresentadas, não permite realizar posteriormente nenhu- ma relação de contexto linguístico, nem mesmo para melhor entendimento do conceito, como propõe Perini (2006), ao apontar tal estratégia como uma das possibilidades para a compreensão do fenômeno.

NICOLAU – Lucas Lima

1° quadrinho: Nicolau: ___ Você será HIPNOTIZADA, criatura inferior!

2° quadrinho: Nicolau: ___ Você atenderá somente às minhas ordens!!

3° quadrinho: Nicolau: ___ Você será meu escravo, você...

4° quadrinho: Nicolau: Sim, meu mestre, o que o senhor deseja? Marcel: Que idiota!

Exercícios:

Nas frases dos balões dos três primeiros quadrinhos, o sujeito da frase é o mesmo?

2. Se a personagem não tivesse interrompido a segunda frase do 3° quadrinho, “você...”, que termo

a complementaria: um sujeito ou um predicado?

3. A historinha da tira poderia ter uma moral. Qual dos provérbios abaixo seria o mais adequado para

encerrar essa história?

a) Quem espera sempre alcança. b) O feitiço virou contra o feiticeiro. c) Em terra de cego, quem tem um olho é rei.