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4 E DUCAÇÃO E T ECNOLOGIA NA

4.3.2 T ECNOLOGIA E M ERCADO : O “S ENTIDO ” DA E CONOMIA

Na seção anterior, apontou-se como a vida social no mundo moderno é condicionada, consideravelmente, por sua tecnologia. Para Castoriadis (1997), o mundo é “determinado”, em vários níveis, pela tecnologia, mas ela “nada mais é do que uma das expressões essenciais desse mundo, sua ‘linguagem’ quanto à natureza externa e interna. E ela não nasce de si mesma nem do progresso ‘autônomo’ do saber, mas de uma enorme reorientação da concepção do saber.” (p. 315-316)

Apesar de poder revelar muito sobre sua própria produção e a natureza e forma de organização do mundo contemporâneo, a tecnologia não costuma suscitar reflexões sobre os

3 Nas sociedades disciplinares, as pessoas passam de um meio de confinamento a outro — tais meios são representados pela família, pela escola, pela fábrica, pelo exército etc. —, sendo que cada um apresenta suas próprias regras. Em termos econômicos, a fábrica é o grande símbolo deste tipo de sociedade, em que se preconiza a produção e a acumulação de bens materiais. Nas sociedades de controle, por sua vez, a fábrica é substituída pela idéia de empresa, sintetizando uma transformação do capitalismo de produção para um capitalismo de sobre-produção, em que o principal não é mais a venda de produtos, mas, sim, a venda de serviços. Ao contrário da fábrica, que estimulava a agregação das forças individuais de trabalho para uma maior produção, a empresa institui a rivalidade como motivação para o aumento da produtividade.

impactos que provoca na sociedade. Segundo Postman (1994, p. 12), a maioria das pessoas encara a tecnologia de forma positiva e a utiliza acriticamente, porque, além de tornar “a vida mais fácil, mais limpa e mais longa”, a tecnologia, devido “ao seu relacionamento longo, íntimo e inevitável com a cultura, não convida a um exame rigoroso de suas próprias conseqüências.”

Entretanto, a falta de estímulo à reflexão de seu uso não é restrita aos efeitos da tecnologia somente na vida do homem comum. Freitag (1995), ao analisar a influência da tecnologia sobre a ciência, especialmente sobre as ciências sociais, entende que houve uma equalização entre “fazer” e “conhecer”, entre “poder” e “know-how”, acarretando uma espécie de fusão entre ciência e técnica, em que a lógica de funcionamento dos processos científicos atuais provocou a diluição da essência da ciência, que sempre foi eminentemente de ordem reflexiva. Se, em conformidade com o que havia sido observado por Weber (2007), a ciência já não fazia uso da faculdade mental do pensar voltado à demanda de sentido, tem-se, na contemporaneidade, que este pensar não possui mais como principal característica o desejo de conhecer, mas, em razão da interferência tecnológica, tipifica-se, sobretudo, como meio para o fazer. A ciência e a técnica, ao contrário de identificarem-se com a política, ou servirem-lhe de instrumento, tomaram o seu lugar, revelando

uma verdadeira revolução epistemológica, que coincide com uma mutação sociopolítica, na qual se abole ao mesmo tempo a diferença entre ciência e técnica, ciência e política, natureza e sociedade, ser e dever ser, e na qual se encerra, dentro da própria “potência total” do fazer processual, a possibilidade de qualquer criação expressiva.4 [tradução minha] (FREITAG, 1995, p.19)

Este distanciamento da técnica e da ciência em relação à política e aos domínios da reflexão evidencia que, no mundo contemporâneo, o aprimoramento técnico raramente se submete ao uso público da razão, inversamente à percepção que se tinha em épocas anteriores. Nos séculos XVIII e XIX, identificava-se um controle reflexivo no curso do progresso, ou seja, “o conteúdo histórico do progresso, ciência e técnica, era concebido como algo que a reflexão podia, ao fim e ao cabo, dominar.” (SILVA, 2001, p. 242) Hoje, contrariamente, observa-se que nos “subordinamos ao acúmulo externo de meios e produtos tecnológicos,

4 Et c’est à ce propos que se dévoile une véritable révolution épistémologique qui coïncide avec une mutation sociopolitique dans laquelle s’abolit en même temps la différence entre science et technique, science et politique, nature et société, être et devoir être, et où se ferme, dans la “toute puissance” même du faire processualisé, la possibilité de toute création expressive.

acúmulo que é visto como progresso, mas que representa um processo que nem sempre esteve acompanhado pela reflexão.” (SILVA, 2001, p. 243)

A “revolução epistemológica” a que se refere Freitag aproxima-se da concepção de que a tecnologia nasce da “reorientação do saber”, enunciada por Castoriadis, no início desta seção. Em tal enunciação, há de se destacar que Castoriadis afirma que a técnica não é fruto de um progresso “autônomo” do saber. Entretanto, como o próprio autor declara, o “movimento tecnológico possui uma inércia considerável, que ele não pode ser desviado ou parado com pouca despesa”, e isto se atribui, possivelmente, em grande parte, à irreflexão sobre a tecnologia. A questão da autonomia e/ou da automatização da técnica, não submetida à reflexão, surge, como sugere Freitag, ao se estabelecer a sinonímia entre o saber e o fazer, com certa naturalidade na aceitação do caráter utilitário do conhecimento, que Arendt (2005, p. 319) qualifica como conformismo.

E é mais evidente, naturalmente, nas tendências pragmáticas da filosofia moderna, que se caracterizam não apenas pela alienação cartesiana do mundo, mas também pela unanimidade com que a filosofia inglesa do século XVII em diante e a filosofia francesa do século XVIII adotaram o princípio da utilidade como a chave que abriria todas portas à explicação da motivação e da conduta humanas. De modo geral, a mais antiga convicção do homo faber — de que “o homem é medida de todas as coisas” — foi promovida ao posto de lugar-comum universalmente aceito.

Arendt (2005, p. 308-309) aponta que a influência do pragmatismo sobre a ciência fez com que o homem adquirisse a convicção de que “pode conhecer aquilo que ele mesmo fabrica. [...] A produtividade e a criatividade, que iriam tornar-se os mais altos ideais e até mesmo ídolos da era moderna, são qualidades inerentes ao homo faber, ao homem como construtor e fabricante.”

Nesse sentido, desenvolve-se a idéia de que a natureza só pode ser compreendida a partir da reprodução de seus fenômenos, na qual o cientista cria, em laboratório, um mundo artificial, com o intuito de revelar aquilo que é oculto ao aparelho sensorial humano. Mesmo assim, o cientista, aplicado ao “fazer” e ao “conhecer”, mantém-se preso às aparências e ao raciocínio de senso comum (ARENDT, 1977). Assim, a tecnologia moderna nasce no laboratório não

porque os cientistas queriam produzir aparelhos ou mudar o mundo. Independentemente de quanto é que suas teorias deixam para trás a experiência de senso comum e o raciocínio de senso comum, elas têm finalmente de regressar a alguma forma dele ou perder todo o sentido de ser-real (realness) no objecto de sua investigação. E este regresso só é possível por via do

mundo artificial e fabricado pelo homem do laboratório, onde o que não aparece espontaneamente é forçado a aparecer e develar-se. A tecnologia, o trabalho “do canalizador” visto com um certo desprezo pelo cientista, que vê a aplicabilidade prática como um mero subproduto dos seus próprios esforços, introduz as descobertas científicas, feitas num “isolamento sem paralelo... das exigências dos leigos e da vida quotidiana”, no mundo quotidiano das aparências e torna-as acessíveis às experiências do senso comum; mas isto só é possível porque os próprios cientistas estão em última análise dependentes dessa experiência. Visto da perspectiva do mundo “real”, o laboratório é a antecipação de um ambiente transformado, e os processos cognitivos que usam as capacidades humanas de pensar e fabricar como meios para os seus fins são na verdade os modos mais refinados do raciocínio de senso comum. A actividade de conhecer não está menos relacionada com o nosso sentido de realidade e não é menos uma actividade de construção de mundos do que a construção de edifícios. (ARENDT, 1977, p. 67)

Mais do que o próprio debate sobre vantagens e desvantagens do desenvolvimento tecnológico, o que ganha relevo é a lógica do processo, sua naturalização e o tipo de pensamento a ela associada. Na contemporaneidade, a atividade do pensar e o pragmatismo científicos — direcionados, sobremaneira, ao “conhecer” e ao “fazer” —, com a valorização de seus próprios procedimentos, expressam a forte influência do liberalismo econômico sobre a ciência e a vida social. Esta naturalização do fazer processual afeta sensivelmente o raciocínio de senso comum e a sensação de realidade do homem moderno.

Se, por um lado, a utilização da técnica é imprescindível para a humanidade, a submissão da cultura à tecnologia (POSTMAN, 1994) provoca, por outro lado, a sensação de que o convívio inevitável com a tecnologia só pode ocorrer de uma forma, obrigatoriamente, única, seguindo um curso que, muitas vezes, parece ser predeterminado e certo.

A dificuldade em encontrar alternativas para o tratamento destas questões tecnológicas pode ser considerada como outra evidência de que a tecnologia — particularmente, seu mecanismo de ação — é uma “linguagem que expressa a natureza do mundo”, uma vez que a lógica capitalista opera de maneira similar. O poder da técnica expressa-se em meio ao poder do mercado:

A supremacia da técnica na esfera da atividade encontra seu correspondente na supremacia do mercado na esfera das relações inter-humanas. Os sujeitos singulares anulam-se diante dessa supremacia: tornam-se apenas elementos passivos que atuam como peças componentes da conduta do único sujeito que é o mercado. Desaparece assim a vinculação entre sujeito e ação histórica. O que existe é um grande organismo natural que atua segundo leis próprias, e os sujeitos humanos são elos de transmissão dessa ação subjetivo/objetiva do mercado. (SILVA, 2001, p. 247)

As leis do mercado determinam, rigidamente, as regras àqueles que desejam obter êxito em seu sistema competitivo, estabelecendo o chamado “totalitarismo econômico5”. Este poder do mercado, justamente por apresentar-se como algo “natural”, acelera a marcha de sua “irremediável” e “óbvia” aceitação, que, longe da reflexão crítica, oculta sua faceta totalitária. As leis de mercado engendram o pensamento de que aqueles que acreditam em modelos econômicos alternativos querem seguir um rumo contrário ao “fluxo regular das coisas”, ou ainda que, mesmo tendo consciência de que não há nada de natural no mercado, as condições impostas por ele inviabilizam qualquer transformação, desmoralizando os esforços dos agentes de mudança. Toda e qualquer tentativa de mudança parece utópica6, e a aparência de rigidez inabalável das estruturas da sociedade revela um mecanismo de profundo conservadorismo, em que toda iniciativa de mudança é estéril7.

Entender estas implicações éticas da tecnologia e do capitalismo tardio — assim como a relação entre o saber e a ação, e entre o pensamento crítico e a demanda de sentido —, em uma época caracterizada pela equiparação entre poder e saber fazer, e entre política e técnica, é fundamental para identificar a posição ocupada pela escola, no que refere ao conhecimento, à socialização, à ação política, à crítica social e à percepção de mundo por parte do homem contemporâneo.