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Talento do Inconsciente

No documento A Face Oculta Da Mente - Tomo 1 - V 4 (páginas 162-200)

UM GÊNIO DESCONHECIDO

O inconsciente é mais inteligente que o consciente.M a is freqüentes e mais im ­ portantes os inventos inconscientes.A m ­ biente, língua, etc., descritos após via gem interplanetária feita pelo inconsciente. —*

A p ro veita m en to prático do inconsciente,

Q

UANTAS vêzes as pessoas procedem de maneira es­ quisita “ sem saber o porquê” . Quantas vêzes muitas

pessoas estão tristes e não sabem o motivo! Às vêzes, há causas fisiológicas, mas numa boa porcentagem dessas oca­ siões uma análise profunda da alma descobrirá os motivos inconscientes da ordem intelectual. Sensações inconscientes, fatos arquivados no inconsciente, se associam, dando origem a imagens inconscientes e sentimentos, dos quais o consciente só se apercebe depois pelos efeitos: está triste, procede por impulsos, não sabe os motivos de seus atos, etc.

Na fase sonambúlica da hipnose comprova-se fàcilmen- te a associação inconsciente. Sabemos já que a memória se exalta reproduzindo com pasmosa exatidão cenas, por­ menores, conhecimentos que pareciam totalmente esquecidos.

A imaginação, por sua vez, aviva-se também, a linguagem atinge um brilho e colorido notáveis. Nada, pois, tem de estranho que a atividade intelectual inconsciente se exalte também ao máximo. Os casos que o comprovam são nume­ rosíssimos, como se pode constatar em qualquer tratado de hipnotismo.

Para citar um caso concreto, eis, tomado ao acaso, o que refere RENAUD.

N o estado de sonambulismo hipnótico um parente do próprio R E N A U D resolvia fácil e elegantemente um problema de trigono­ metria. Antes e também depois da hipnose, porém, via-se embaraça­ do com o problema, na realidade difícil (i).

O inconsciente estava atualizado e combinava mais da­ dos, resolvendo o problema com notável facilidade.

Do r m i n d o s o m o s m a i s i n t e l i g e n t e s d o q u e a c o r d a d o s

— O talento do inconsciente é, às vêzes, tão grande, que alguns autores foram levados erroneamente a atribuir res­ ponsabilidade ao sono <2). FREUD <3\ o fêz, por exemplo, e GRÜNEWALD <4>.

O problema já é antigo. O famoso teólogo e filósofo CARAMUEL endereçava em Wurzburg no ano 1645, uma carta sôbre o assunto ao famoso cientista da época, Pe. KIR- CHER, S. J., professor da Universidade Gregoriana. De­ fendia a responsabilidade nos sonhos, “porque havia nêles inteligência” (!). O aspecto da inteligência é o que nos

(1 ) Citado por L A P P O N I, José, tradução da 2.a ed. italiana por V IE IR A , Baptista Manoel: “Hypnotismo e Espiritismo”, São Paulo, Falcone, 1907, pág. 105.

(2 ) Os loucos podem ser muito inteligentes. São, porém, irres­ ponsáveis, porque a responsabilidade depende principalmente da von­ tade e liberdade.

(3 ) F R E U D , Sigmund: “Traumdeutung”, tradução espanhola de LÕ PEZ B A L L E S T E R O S em “Obras completas” de F R E U D , Buenos Aires, Rueda, 1943. A edição inglêsa: “Interpretation of dreams”, London, Allen and Unwin, 1925, e N ew York, MacMillan Co., 1933

( l . a ed., 1913).

(4 ) G R Ü N E W A L D , num artigo publicado em “Wiener Zeitschrift für Praktisk ) Psychologie”, junho, 1950, págs. 117 ss.

interessa: “ examinando muitos sonhos meus e de outros, encontro circunstâncias nas quais não se pode descobrir imaginação ou fantasia; ainda mais: nêles se percebe inte­ ligência bastante cultivada e sutil” . Em continuação, re­ fere um exemplo dentre os sucedidos a êle mesmo.

C A R A M U E L sonhava que assistia a uma discussão solene. Nela convidado a impugnar as teses defendidas, o fêz com todo o vigor e eficiência e com argumento empregados no sonho. Comprovou que eram perfeitos e certamente inéditos.

O inconsciente, com os conhecimentos do sábio teólogo e filósofo, os elabora. Em vigília dificilmente teria con­ seguido êsse resultado. A carta conclui: “ Tem-se, portan­ to, que o entendimento do homem dormindo não descansa, mas trabalha sempre e, às vêzes, perfeitissimamente; mais ainda, com mais perfeição do que na vigília” (5>.

O descobrimento do talento do inconsciente é, pois, mui­ to anterior a FREUD. E inclusive antes de CARAMUEL o descobria PLATÃO, como veremos. Depois de FREUD, o reconhecimento do talento nos sonhos é bastante geral. As­ sim, por exemplo, Erich FROMM concluía nas suas aulas no Instituto de Psiquiatria Wiliam A. White e no Bennington College de New York que “nos sonhos produzem-se opera­ ções intelectuais superiores às que realizamos estando acor­ dados” <6).

I n t t j i ç õ e s — A intuição é uma visão intelectual que parece vir do fundo da alma, uma revelação provinda do interior e que não depende do esforço mental. De repente, percebemos alguma coisa que, depois, freqüentemente com­ provamos ser preciosa e verdadeira.

PASTEUR dizia que as grandes intuições só eram da­ das aos que se preparavam para recebê-las. Na maioria dos

(5 ) “Revista de Filosofia”, tomo 12, n. 44, págs. 101-147. (6 ) FROMM, Erich: “The Forgotten Language”. Nós citamos da tradução espanhola de CALES, Mario: “E l lenguaje olvidado. In- terpretación de los suefios, mitos y cuentos de hadas”, Buenos Aires, Hachette, 1953, pág. 48.

casos é assim. Digo na maioria, pois pode haver outros tipos de intuições, até paranormais, como veremos. O inves­ tigador, o experimentador, o filósofo, têm de repente uma intuição genial, sem saber de onde proveio, mas antes tinham empregado muito tempo e energia a procura da solução que agora se apresenta súbita, “ irracional” , “ sem lógica” . O Dr. LANGMUIR disse: “Freqüentemente subestimamos a importância da intuição. Em quase todos os problemas cien­ tíficos, inclusive naqueles que nos tomaram dias e meses de trabalho, a solução final se apresentou ao nosso espírito numa fração de segundo, por um processo que, conscientemente, não deve nada ao raciocínio” <7>. É o resultado de um ra­ ciocínio inconsciente.

PERSIGOUT, matemático, demonstrou que DESCAR­ TES, como KEPLER, PASCAL e outros deveram gran­ de parte das suas descobertas ao trabalho do inconsciente <8).

I n t e l i g e n t e s r e a l i z a ç õ e s d o in c o n s c i e n t e — Eis em

rápidas pinceladas alguns dos muitos casos de manifestações inteligentes do inconsciente recolhidos em diversos autores:

Z W IN G E R refere o easo de dois senhores que, de noite, se levan­ tavam dormindo e escreviam versos. “Um dêles, escreve VO R O N FP, traduzia-os do alemão para o latim; o outro, professor de poesia grega, fatigado por ter passado escrevendo o dia todo versos gregos, deixou a poesia por concluir. Qual não seria, porém, a sua surprêsa na manhã seguinte quando, levantando-se para terminar a sua obra, descobriu que o trabalho já estava concluído e com a sua própria

(7 ) L A N G M U IR , Irving, no discurso pronunciado a 16 de de­ zembro de 1942 ao deixar o cargo de presidente da “American Asso­ ciation for the Advancement of Science”.

(8 ) PER SIG O U T, G.: “X novembris 1919: Rosacrucisme et Cartésianisme”, Paris, ed. L a Paix, 1938. Êste livro é um ensaio de exegese hermética do "Songe de Descartes” e mormente dos três sonhos de 10 de novembro de 1619, que tantas influências tiveram em D ESCA R TE S. Esforça-se P E R S IG O U T por demonstrar que D E S ­ C AR TE S era um iniciado do Rosacrucianismo, mas fica muito longe de conseguir demonstrá-lo. Demonstra ùnicamente que de fato D E S ­ C AR TE S foi um grande intuitivo e que muito deve ao trabalho do seu inconsciente.

letra!”. Da mesma maneira escreveu também versos gregos Woeh- mer von G O TTIN G EN.

A versificação latina e grega é muito complicada..

Mais ainda: L A F O N T A IN E e C O N D IL L A C escreveram traba­ lhos inteiros de noite, sonâmbulos, sem deixar de dormir. C O L E R ID ­ GE afirmou ter escrito o “Kubla Khan” enquanto dormia. Do mesmo modo, um filósofo estóico escreveu livros em várias etapas, segundo nos afirma o historiador D IO G E N E S Laertius.

Trata-se de uma obra literária e de outras filosóficas: precisa-se grande trabalho intelectual.

V O L T A IR E relata que um canto inteiro da sua “Henriade” lhe ocorreu durante um sonho: “No meu sonho eu disse coisas que difi­ cilmente teria pronunciado na véspera. Passavam-me pela mente pensamentos concebidos sem que eu tivesse tomado parte (conscien­ te) nêles. Não tendo nem vontade nem liberdade (no mecanismo do sonho) combinei idéias inteligentes e até com certa genialidade” (os parênteses são nossos).

Trata-se de idéias até geniais!

O investigador francês FEHR assinalou que os sábios mais produtivos da sua época realizaram de 75 a 100 por cento de suas descobertas e invenções durante o sono.

U m caso muito conhecido de descoberta durante o sonho é o da cadeia benzínica. O descobridor tinha durante muito tempo procurado inütilmente a fórmula química da benzina. U m a noite a viu em sonho. Teve sorte de lembrar-se dela ao acordar.

O médico canadense F. G. B A N T IN G trabalhou àrduamente no assunto da diabete. Estudou as mais diversas soluções que a medicina apontava para explicar e dominar o mal. N ada o satisfazia. U m dia trabalhou desesperadamente para encontrar uma solução. Inútil. Can­ sado, esgotado já, foi dormir de mau humor porque no dia seguinte deveria pronunciar uma conferência sôbre a diabete e lamentava não poder oferecer uma solução satisfatória, embora pressentisse que esta solução tinha que existir. Durante a noite, sonâmbulo, levantou-se e escreveu numa beirada de papel estas palavras: “L igar o conduto diferente do pâncreas de um cão de laboratório, esperar algumas semanas até que a glândula se atrofie, cortar, lavar e filtrar a se­ creção. De manhã não tinha a menor idéia de ter-se levantado nem

Só ao ver a anotação compreendeu o que se passara. Assim foi como o mundo ganhou a insulina.

E s t a d o c r e p u s c u l a r — O trabalho do inconsciente apa­

rece ou se exerce também freqüentemente no período de desdobramento da personalidade ou em qualquer outro es­ tado, inclusive de vigília, que obnubile mais ou menos o consciente em benefício do inconsciente.

Todos conhecemos êsse estado de semi-inconsciência, estado crepuscular, que medeia entre a vigília e o sono. Nem dormimos nem estamos acordados. Estamos simplesmente num estado de transição. O transe espírita, o sono hipnótico, etc., são às vêzes um estado similar. Pois bem, êste estado, em que o consciente deixa em suficiente liberdade o incons­ ciente, é muito favorável às elucubrações do inconsciente. É o caso típico da Srta. Frank MILLER. Escreve FLOUR- NOY: “ Médium espírita, a Srta. M ILLER acreditaria, sem sombra de dúvidas, ser a reencarnação de uma princesa da antigüidade histórica e pré-histórica e não teria deixado de dar-nos interessantes revelações sôbre a sua preexistência egípcia, assíria ou inclusive asteca” <9).

Muitas pessoas espantam-se freqüentemente com esta classe de fenômenos do talento do inconsciente, realizados nas suas sessões por “ médiuns” em transe. Sabem elas quan­ tos dados capta e armazena o inconsciente, mesmo de uma pessoa inculta?

Aliás devemos ter em conta que ainda nos falta por ex­ por todo o conhecimento paranormal, conhecimento que pode também somar-se aos outros conhecimentos arquivados no inconsciente dos médiuns. Todos êstes conhecimentos podem ser combinados, elaborados, dando como resultado magníficas “revelações” intelectuais. Isso acontece especialmente nos

(9) F L O U R N O Y , Th., em “Arquives de Psychologie”, 1906, V, págs. 36 ss.

médiuns, onde as disposições herdadas ou adquiridas, am­ biente, contágio psíquico, às vêzes desde a infância, treino durante anos, etc., quebraram cada vez mais o equilíbrio psíquico de forma a facilitar muito a manifestação do in­ consciente.

É o descobrimento das possibilidades do inconsciente, que levou tantas pessoas a atribuir tais fenômenos a mani­ festações do “ além” .

“ P o s s u í d o s ” p e l o i n c o n s c i e n t e — Particularmente os

grandes poetas, pintores, músicos, etc., devem muitas das suas melhores obras de arte ao inconsciente.

A êste respeito, um interessante estudo foi feito recen­ temente por Francesco EGIDI <10>. O autor expõe como os grandes músicos sentem freqüentemente uma espécie de or­ questra mental dentro de si, sendo notável o caso de BEETHOVEN que sentia zumbidos nos ouvidos e uma “ mú­ sica infernal” na cabeça quando compunha suas melodias. A atividade inconsciente do gênio era acompanhada por es­ tímulos do centro auditivo do cérebro.

Noutros artistas, como Frei ANGÉLICO, a atividade inconsciente chegava a tal ponto que desaparecia totalmente o consciente: pintava em arroubos de êxtase, em transe. A atividade inconsciente dominava as energias tomando conta da “ máquina humana” , na sua totalidade física e psíquica.

Dir-se-ia (como se falou em “ musas” , “ gênios” , etc., e mais tarde “ espíritos” ), que os grandes artistas são influídos por inteligências estranhas; na realidade é somente o incons­ ciente, inconsciente estranho e, por vêzes, contrário ao cons­ ciente. Neste sentido o escultor Ernesto BIONDI conside­ rava os artistas como “ médiuns, possuídos do seu próprio inconsciente” .

(10) EG IDI, Francesco: “Studio del disegno e della pittura me- tapsichica”, em “Luce e Ombra”, nos três números do primeiro se­ mestre, Milano, Bocca, 1953.

U m a v ia g e m a M a r t e — Mas para que verdadeira­ mente se possa ver até onde chega o inconsciente nas suas elaborações, usando dados armazenados na sua memória, co­ lossal, combinando-os com assombroso talento, acredito que o caso da médium espírita Helena SMITH seja dos mais significativos, ao menos por ser dos mais estudados.

A médium Helena deu umas sessões espíritas sob o controle do Dr. L E M A IT R E O D.

Assistia às sessões uma senhora que tinha perdido seu filho, A L E X IS , três anos antes. Pediu-se então a Helena que evocasse o espírito do filho, A L E X IS . Helena deu algumas respostas, como se proviessem de A L E X IS ; nada, porém, de notável.

Aconteceu um dia, no entanto, que o professor L E M A IT R E falou a um parente de Helena sôbre o interêsse em se saber o que havia nos outros planêtas e concretamente em Marte. Um mês mais tarde já o inconsciente de Helena começava a dar os primeiros sinais de suas elaborações de aventuras marcianas.

Numa sessão, Helena, durante o transe, viu a grande altura uma luz resplandescente, afirmando que se sentia oscilar; logo se sentiu penetrando numa nuvem muito espêssa, primeiro azul, depois côr-de- rosa brilhante, depois cinzenta, por fim preta. Sentiu-se flutuando no espaço. Logo depois via uma estrêla que ia aumentando, até ficar “maior que uma casa”. Helena sentia que ia subindo; no comêço sentia os incômodos da viagem, agora começava a sentir-se melhor. Distinguiu três grandes globos; um dêles era muito bonito. “Para onde caminho?” — perguntou a médium — e, servindo-se de um vo­ cabulário convencional por movimentos de mesa, responderam-lhe “os espíritos” ( ! ? ) : “Para uma outra terra (sic), Marte; L E M A IT R E , é o que tu desejas tanto!”.

Helena descreveu as saudações quando da sua chegada a Marte: Gestos barrocos das mãos e dos dedos, estalos duma mão sôbre a outra golpes ou aplicações dêstes ou daqueles dedos sôbre o nariz, os lábios, o queixo, reverências contorcidas, e rotações dos pés sôbre o chão. Descreveu tudo o que via: carros de cavalos sem cavalos nem rodas, deslizando e produzindo faíscas; casas com ondas sôbre o te­ lhado; um berço que no lugar de cortinas tinha anjos de ferro com as asas estendidas. A s pessoas, que eram como nós, salvo nas roupas,

(11) L E M A IT R E , Augusto: “Arquives de Psychologie”, 1908, VII, págs. 63 ss. LO M BAR, E.: ibidem, págs. 1 ss.

prida blusa apertada à cintura e recamada de desenhos.

Numa vasta sala de conferências, encontrou, na primeira fileira dos ouvintes, A L E X IS , o filho da senhora que assistia às sessões me- diúnicas de Helena.

Ora, A L E X IS (cujo nome em Marte era E S E N A L E ) estava ou­ vindo uma conferência em marciano. Lógico, portanto, que quando mais adiante falou, por meio de Helena, sabia fazê-lo em marciano. O inconsciente de Helena precisava tempo para ir elaborar, devagar, a língua dos marcianos. Mas no fim o êxito foi completo e A L E X IS falou numa difícil língua, desconhecida na Terra. Era a língua de Marte. A LE X IS , no comêço, falava francês, mas de repente passou a entender apenas e falava exclusivamente o marciano.

A s sessões seriam emocionantes se não fôsse o trágico engano! Numa ocasião, a verdadeira mãe de A L E X IS ajoelhou-se soluçando diante de Helena, por meio da qual falava seu filho. A L E X IS , então, consolou-a em marciano, com gestos tão doces e inflexões tão ternas que a pobre mãe se sentiu enlevada.

V. HENRY e principalmente FLOURNOY estudaram a fundo a língua marciana de Helena SMITH <12>.

Analisaremos a língua marciana, ligando as frases mesmas usadas pelos investigadores: “ o inconsciente tinha elaborado uma linguagem propriamente dita” . “Para enten­ dê-la era preciso estudá-la, para traduzi-la precisava-se de um dicionário, no qual cada palavra tinha seu significado próprio” .

“ O marciano era uma língua completa, tinha sua escrita especial, combinação especial de caracteres” . “ Estudado a fundo logo se via que não se tratava duma simples gíria ou algaravia de sons quaisquer, ditos ao acaso. Eram palavras, palavras que expressavam idéias e a relação entre palavras e idéias era constante, sendo constante a sua significação” .

(12) F L O U R N O Y , Th.: “Des Indes à la Planète Mars. Étude sur un cas de somnambulisme avec glossolalie”, Gênova, Atar, 1900; Genebra, Eggiman, 1900; Paris, Alcan, 1900; e “Nouvelles observa­ tions sur un cas de somnambulisme avec glossolalie, em “Arquives de Psychologie” , 1902, I, págs. 100-255; H E N R Y , Victor: “Le langage martien”, Paris, 1901.

O marciano tinha, como tôdas as línguas “ consoantes prediletas, sotaque característico, letras predominantes. Ti­ nha, por exemplo, superabundância de “e” abertas e fecha­ das, abundância de “ i” e escassez de ditongos e nasais” .

D e s v e n d a -s e o m i s t é r i o — Tal foi o prodígio que

muitos, ao terem notícias dêle chegaram a pensar que era de fato uma linguagem extraterrena. Mas precisos e pacien­ tes estudos demonstraram que se tratava só de uma modi­ ficação, inconsciente, do francês. Irei ligando as frases usa­ das pelos investigadores.

Em primeiro lugar comprovou-se que “ o marciano se compunha de sons que, tanto consoantes como vogais, exis­ tem todos em francês” . Ora, nas línguas reais, isto não existe jamais; por mais parecidas que sejam as línguas e por mais próximos que estejam geograficamente os que as falam, sem­

pre possuem algum próprio. “ A língua do planêta Marte não se permite a mínima originalidade fonética” , o mesmo acontecendo com a escrita. “ Todos os caracteres marcianos e todos os caracteres franceses se correspondem dois a dois” .

“ Um considerável número de palavras marcianas” “ re­ produz de modo suspeito o número de sílabas ou mesmo de letras de seus correspondentes franceses e imita às vêzes até a distribuição das consoantes e das vogais” .

Com admirável paciência, FLOURNOY reproduziu, tra­ duziu e analisou quarenta e um textos marcianos demons­ trando que as regras da gramática e sintaxe marcianas não são mais do que “ um decalque ou uma paródia das regras do francês” . Assim, por exemplo, em francês, os sons aná­ logos “ á” e “ a” , preposição e verbo respectivamente, tra­ duzem-se em marciano pelos sons “ é” e “ e” . A palavra francesa “ que” tem muitos empregos; em marciano tem as mesmas funções a palavra “Ke” . “ L e” , artigo e prono­ me francês, correspondente ao marciano “ zê” , também arti­ go ou pronome, etc.

“ Nas frases, a ordem das palavras é absolutamente a mesma em marciano e francês. E isto até nos detalhes” ; a separação, p. ex., de “ ne pas” . Até a introdução de uma letra em certas circunstâncias fonéticas: “ Quand reviendra-T-il?” em francês; “ Kevi berinmi-M-eb?” em marciano.

“ O procedimento de criação do marciano parece consistir simplesmente em pegar as frases francesas tal qual são e substituir cada palavra por outra” qualquer fabricada a êsmo, mas freqüentissimamente com “ o mesmo número de sílabas e letras” . O resultado de tudo isto é que as frases são, sim, diferentes das francesas, mas na sua estrutura interna, fo­ nética, sintática e gramatical são idênticas. FLOURNOY previu “ a necessidade de um dicionário não porém, de gra­ mática” , nem de sintaxe, nem de fonética.

O d e s e n v o l v i m e n t o d a m é d iu m — O inconsciente

precisa geralmente, algum tempo para “ir abrindo a por­ ta do desvão” onde está escondido e manifestar-se. Em regra se manifesta grada tivamente. No comêço das ma­ nifestações é fácil aos especialistas descobrir as explicações dos fenômenos. Quando um “ mago” já “ se desenvolveu” , i. é, quando o inconsciente já tem bastante ou totalmente “ aberta a porta” , pode resultar dificílimo ao investigador explicar as manifestações a não ser por comparação com outros casos semelhantes observados do comêço.

No caso Helena SMITH teria sido difícil aos investiga­ dores explicar a aventura e mormente a língua marciana se não tivessem acompanhado os acontecimentos do comêço. A elaboração foi progressiva. No comêço “ o marciano é uma linguagem muito imperfeita, rudimentar” , “ um pseudomar- ciano” , “ um quebra-cabeças desordenado” , “uma pueril imi­ tação do francês do qual conserva em cada palavra o mesmo número de sílabas e certas letras principais” .

“Só meio ano depois o inconsciente tinha elaborado uma linguagem propriamente dita” .

O inconsciente precisou tempo para manifestar parte das suas possibilidades. Mas após a aventura marciana já temos um inconsciente bastante “ desenvolvido” , “ a porta” já está bastante aberta. O tempo necessário para novas elu­ cubrações é cada vez menor, o talento inconsciente de uma pessoa inculta aparece cada vez mais prodigioso.

Somente dezessete dias depois de umas objeções de FLOURNOY, Helena manifesta novamente o prodigioso ta­

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