Taxas de Chefia Baseado em Modelos de Idade Período-Coorte

No documento Alguns aspectos sobre demandas sociais: educação, habitação e saúde (páginas 61-64)

Resumo

Apesar da questão habitacional estar em ampla discussão na sociedade brasileira, os estudos quantitativos relacionados ao tema abarcam principalmente questões de déficit habitacional e medidas de estoque. A demanda demográfica por habitação, entendida como a necessidade por novas moradias advinda da dinâmica demográfica de uma população, não tem sido abarcada nos estudos brasileiros. As interações entre as duas abordagens são desejáveis e têm sido recomendadas e avanços neste campo podem ser alcançados a partir do desenvolvimento de procedimentos que considerem estas duas dimensões. Este estudo propõe, a partir da estimativa das necessidades habitacionais do passado, projetar a demanda habitacional por domicílios segundo categorias de inadequação dos domicílios para a região metropolitana de Belo Horizonte. A inovação deste trabalho é a aplicação de modelos do tipo Idade-Período- Coorte para a projeção de taxas de chefia de domicílios. Dentre os resultados, destaca-se que, apesar da contínua diminuição do total de domicílios em condições deficitárias, em um horizonte próximo ainda haverá um número razoável de domicílios em condições degradantes. Apesar das mulheres contribuírem menos para o déficit, as melhorias nos domicílios femininos são maiores que as masculinas.

Abstract

Housing is currently a widely discussed issue in Brazil. In spite of that, housing quantitative studies are focused on issues such as housing deficit and assessment of the housing stock. The demographic demand for households, considered as the need of new housings resulting from the demographic dynamics in a population, has not been usually included in such studies. Interactions between these two approaches are desirable and have been recommended, and advances may be achieved with the development of procedures that consider both dimensions. This study proposes to project the housing demand according to housing deficit criteria in the Metropolitan Area of Belo Horizonte, based on the estimates of housing need in the past. The innovation is that the study applies an Age-Period-Cohort model to estimate headship rates. A continuous decrease in the total of inadequate dwellings was seen; nevertheless, a fairly high number of degraded dwellings will still exist in the short run. Women contributed less to the housing deficit and the improvements in female households were higher than in male households.

Introdução

Não há dúvidas de que a propriedade de uma moradia faz parte do imaginário coletivo da população brasileira. A posse desse bem, entre os estratos populares e médios urbanos no Brasil, constituía um dos principais indicadores de ascensão social. Ainda hoje, a moradia revela o nível social das pessoas residentes, além de trazer consigo referências à independência pessoal, à segurança financeira e à perspectiva da transferência do patrimônio para os descendentes.

Na década de 70, um dos maiores desejos da classe média brasileira era adquirir uma moradia para não pagar mais aluguel. Bolaffi (1977) entendia a casa própria, juntamente com a alimentação e o vestuário, como o principal investimento para a constituição de um patrimônio, além de ligar-se, subjetivamente, ao sucesso econômico e a uma posição social mais elevada. Hoje, a aquisição desse ativo ainda faz parte da lista de sonhos de uma parcela significativa da população brasileira. Entretanto, tem perdido importância relativa para a educação, saúde e previdência privada. Essa perda de importância relativa não foi devida à realização do sonho da moradia pela população, mas, em grande parte, à deficiência desses serviços que antes eram supridos pelo Estado (JUNQUEIRA e VITA, 2002).

Apesar de a questão habitacional estar em ampla discussão na sociedade brasileira, os estudos quantitativos relacionados ao tema abarcam principalmente questões de déficit habitacional e medidas de estoque. A demanda demográfica por habitação, entendida como a necessidade por novas moradias advinda da dinâmica demográfica de uma população, não tem sido abarcada nos estudos brasileiros. A estimativa do déficit e a demanda por residências tratam de abordagens distintas, com funções específicas e de aplicabilidades dependentes da situação do sistema habitacional de cada país. Entretanto, as interações entre as duas abordagens são desejáveis e, embora o déficit seja adequado a análises de longo prazo e a demanda adequada a estimativas de curto prazo, as combinações entre os dois procedimentos têm sido recomendadas (UNITED NATIONS, 1973). Dessa maneira, avanços nesse campo podem ser alcançados a partir do desenvolvimento de procedimentos que considerem essas duas

dimensões, estimando a demanda demográfica futura segundo os critérios de déficit habitacional.

Este estudo propõe, a partir da estimativa das necessidades habitacionais do passado, projetar a demanda habitacional por domicílios segundo categorias de inadequação dos domicílios para a região metropolitana de Belo Horizonte. Adicionalmente, serão estimadas as taxas de chefia de domicílios nos anos de 1970, 1980, 1990 e 2000, segundo categorias de necessidades habitacionais, e a partir destas, os fluxos de entradas e saídas e do estoque de moradias. A inovação deste trabalho é a aplicação de modelos do tipo Idade-Período-Coorte para a projeção de taxas de chefia de domicílios.

A escolha de um método demográfico para estimativas de demanda por domicílios é justificada pelo fato de as demandas diferenciais serem condicionadas pelas etapas do ciclo de vida por que passam os indivíduos de uma população. A análise da idade envolve interações com eventos demográficos tais como nascimento, casamento e migração, que contam a história dos indivíduos, desde o nascimento até a morte, passando por todas as etapas do ciclo de vida. Essa história não envolve apenas as mudanças da idade, pois, concomitantemente ao processo biológico de envelhecimento, os indivíduos estão inseridos em um determinado

período (ou época) e em uma determinada sociedade. As pessoas afetam e são afetadas pelos

acontecimentos de sua época, e, na maioria das vezes são o motor dos acontecimentos da época em que vivem. Nesse sentido, enquanto vivem, as pessoas escrevem sua história e a história das mudanças sociais que imprimem uma marca característica a todos os indivíduos daquela época – a coorte. Por isso, além da idade, a análise dos processos demográficos não pode ignorar o período e a coorte.

Desse modo, para cumprir os objetivos propostos neste estudo, foram utilizadas três estratégias metodológicas distintas, que se interceptam ao longo do desenvolvimento do trabalho. Tais abordagens distintas referem-se às definições de demanda demográfica por

moradias e projeções da demanda por meio do método das taxas de chefia (headship ratio); os

modelos Idade-Período-Coorte – IPC e o conceito de déficit habitacional. Assim, as seções deste trabalho foram organizadas de modo a abordar esses três arcabouços metodológicos, separadamente, relacionando-os em momentos oportunos. Na seção metodológica e na dos

resultados um maior enfoque será dado aos modelos IPC, por se caracterizar como uma das principais inovações deste estudo. A descrição detalhada da metodologia adotada para o déficit habitacional e os resultados encontrados estão descritos no apêndice metodológico deste trabalho.

A seção seguinte, referente aos antecedentes deste trabalho, aborda inicialmente os conceitos de demanda habitacional, cita algumas projeções habitacionais já realizadas por outros estudos e apresenta uma breve revisão bibliográfica sobre o déficit habitacional. A seção referente à metodologia descreve, inicialmente, como essas três abordagens temáticas foram relacionadas para depois desenvolver, detalhadamente, os procedimentos metodológicos específicos. Os resultados quantitativos do trabalho abordam, em duas seções distintas: (1) as estimativas das taxas de chefias observadas no período; (2) os resultados dos ajustes do modelo IPC e da projeção das taxas; (3) os resultados da projeção propriamente dita. Na última seção do trabalho, além dos apontamentos finais ao trabalho, serão incluídas algumas implicações para políticas públicas.

No documento Alguns aspectos sobre demandas sociais: educação, habitação e saúde (páginas 61-64)