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TEORIA DA ATIVIDADE E O PENSAMENTO CONCEITUAL

2 ELEMENTOS DA PSICOLOGIA HISTÓRICO-CULTURAL (PsiHC)

2.3 TEORIA DA ATIVIDADE E O PENSAMENTO CONCEITUAL

A teoria da atividade tem como principal precursor Leontiev, e para abordar tal assunto falaremos primeiramente sobre o conceito de atividade. Segundo Leontiev (2012) e Messeder Neto (2015), a atividade é um processo que se dá na relação do homem com o mundo e que se destina a atender a uma necessidade especial. Para a psicologia histórico-cultural é de suma importância entender a relação entre o sujeito e o mundo, já que o homem se torna homem a partir de suas vivências e da história que o cerca. Assim,

é a partir das atividades que o ser humano constrói o mundo, pois ao transformá-lo ele também transforma a si mesmo (MESSEDER NETO, 2015).

No entanto, não basta que o homem interaja com o mundo para que o processo seja considerado uma atividade. Por isso, podemos dizer que atividade é aquilo a que o processo envolvido se direciona quando este corresponde ao motivo (LEONTIEV, 2012). Ou seja, para que algo seja considerado atividade, do ponto de vista psicológico, é necessário que o objetivo da atividade coincida com o que faz o ser humano agir.

Outro termo importante para compreender a teoria da atividade é o de ação. “Ação é um processo cujo motivo não coincide com seu objetivo (isto é, com aquilo para o qual ele se dirige), mas reside na atividade da qual ele faz parte” (LEONTIEV, 2012, p. 69).

Para deixar mais claros os conceitos de atividade e ação, utilizaremos um exemplo de Leontiev (2012): um estudante estava lendo um livro para se preparar para uma prova de história, quando um colega o avisa que o que ele estava estudando não será necessário para tal exame. Sendo assim, o estudante poderia prontamente abandonar a leitura, assim como poderia continuá-la ou ainda desistir da leitura, mas com certo pesar, porque teria que estudar apenas o que efetivamente serve para o exame. Isso quer dizer que nos dois últimos casos, em que ele gostaria de permanecer lendo o livro de história, o conteúdo do livro foi o que estimulou a leitura, ou seja, o domínio do conteúdo do livro era o motivo para o qual ele lia. Podemos dizer, portanto, que neste caso a leitura do livro era uma atividade, pois o próprio conteúdo do livro o fazia ler.

Já no primeiro caso, o motivo da leitura do estudante era passar no exame. Portanto, neste caso, fazer e passar no exame serão a atividade e não a leitura do livro em si. Aqui, ler o livro é apenas uma maneira de se preparar para a prova, ou seja, a leitura do livro é uma ação.

Em geral, os estudantes sabem que estudar matemática é importante, mas esta pode não ser a razão pela qual eles estudem essa disciplina. Segundo Messeder Neto (2015), estudar porque é importante é um motivo apenas compreensível, que vai se tornando eficaz à medida que vai se tornando atividade, e entender a diferença entre ação e atividade é muito importante, pois a maioria dos processos surge como ações e no decorrer do percurso vai se tornando atividade. O aluno inicialmente estuda porque seus pais disseram que ele teria que passar na matéria, mas ao longo do tempo o estudante vai se apropriando, por exemplo, dos conceitos matemáticos, entendendo-os e percebe

que aquilo de alguma maneira faz sentido, e daí passa a ter interesse pela própria matemática. Sendo assim, temos um processo importante, no qual o que inicialmente era ação tornou-se atividade, mudança que possibilitará novas relações com o mundo e, consequentemente, o desenvolvimento do psiquismo.

Além de atividade e ação, ainda é preciso apresentar o conceito de operações.

Operação é o modo de executar uma determinada ação ou ato - que pode ser feito de

diversas maneiras. Em outras palavras, operação não é o mesmo que ação, mas é uma parte essencial da ação, pois é a operação que permite que o alvo seja alcançado (LEONTIEV, 2012, p. 74). Peguemos o exemplo em que alguém tenha que decorar um texto e que essa seja a ação. Só que para fazer isso existem várias formas: escrever diversas vezes o texto, cantarolá-lo, lê-lo em voz alta etc. Logo, todas essas maneiras são operações para decorar o texto, que é o objetivo.

Vale ressaltar que toda operação já foi ação em algum momento, pois ela inicialmente funciona como um processo voltado ao objetivo que aos poucos vai se moldando e, em alguns casos, se torna um processo automático. Consequentemente, um processo automático abre espaço (e tempo) para outras atividades mais elaboradas (MESSEDER NETO, 2015). Então, para aplicar essas atividades, o professor precisa saber reconhecer o que já é operação para o estudante e o que ainda é ação. É verdade que essas definições não se restringem ao ambiente escolar. Pensemos, por exemplo, numa criança aprendendo a andar e que ela demora um determinado tempo para isto, mas depois deste período, ela automatizou esse processo e andar já não é mais ação, e sim operação.

A figura abaixo ilustra de maneira sucinta e hierárquica a relação entre os termos discutidos:

Figura 1: Relação entre as categorias Atividade, Ação e Operação. Fonte: MESSEDER NETO (2012, p. 41).

Ao analisar o esquema, observamos que cada atividade está vinculada a um motivo, que por sua vez está relacionado aos objetivos de cada ação. Além disso, podemos perceber que a atividade pode ser composta por diversas ações, e as ações podem ser compostas por diversas operações. Portanto, entender as relações entre atividade, ação e operação é fundamental para pensar o trabalho pedagógico, sua organização na sala de aula e como esta abordagem interfere no desenvolvimento da psique humana.

Sforni (2004) apresenta elementos que se relacionam com os componentes da teoria da atividade:

(...) a teoria da atividade contém alguns elementos que formam uma estrutura. Apresenta os seguintes componentes: necessidade – motivo –

finalidade – condições para obter a finalidade (a unidade da finalidade e

das condições conformam a tarefa) e os componentes, correlacionáveis com aqueles: atividade – ação – operação. A necessidade é o fator desencadeador da atividade; ela motiva o sujeito a ter objetivos e a realizar ações para supri-la. Considerando essa definição de atividade, podemos inferir que nem todo processo é uma atividade, mas somente aquele que é movido por uma necessidade (SFORNI, 2004, p. 7, grifo do autor).

Logo, a partir da relação entre esses componentes, podemos concluir que é necessário a presença de um motivo para que os sujeitos ajam por um propósito maior. No caso da matemática, é preciso que o motivo seja o próprio interesse pelos conhecimentos elaborados pela humanidade para suprir uma necessidade humana que é histórica. Com isso, pretendemos que os sujeitos consigam se apropriar dos conceitos para que o pensamento conceitual se efetive enquanto operação dentro de uma ação de maior complexidade. O conhecimento conceitual deve ser compreendido como forma e conteúdo do pensamento para que ele então sirva de instrumento do pensamento (SFORNI, 2004).

Ao longo deste capítulo discutimos o desenvolvimento do psiquismo humano à luz da psicologia histórico-cultural, abordando a formação do sujeito a partir do trabalho e como esta categoria, de fato, os humaniza. Com base na relação do homem com a natureza e de como ele a transforma, e consequentemente transforma a si mesmo, pudemos compreender o desenvolvimento da psique a partir das funções psicológicas elementares e superiores, e então discutir como e por que a aprendizagem precede o desenvolvimento. Dadas tais condições, foi possível abordar brevemente como o

pensamento conceitual se forma, trazendo à tona a discussão entre pensamento empírico e abstrato e, enfim, relacioná-los com os conceitos de atividade, ação e operação.