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2.3 Fase atual da Teoria dos Blocos Semânticos: um convite à análise textual-discursiva

2.3.3 Termos constitutivos, caracterizantes, singularizantes e decalagem

A TBS-atual classifica os termos de um enunciado como "fundadores" − termos que fundam o encadeamento argumentativo − e como "não fundadores" − os termos que não têm

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Para mais detalhes sobre esse tema, ver também Carel (2017, p. 14-19). 88

nenhuma importância na fundação da paráfrase argumentativa do sentido. Para tanto, a teoria busca classificá-los, quanto ao seu emprego no enunciado, como "constitutivos", "caracterizantes" e "singularizantes". Embora seja essencialmente a significação que regule essa análise e não a gramática da língua, tal classificação é feita, finalmente, segundo o percurso de leitura escolhido pelo próprio semanticista. É importante destacar, portanto, que a denominação dos termos, no exame do enunciado, poderá variar de um analista a outro.

Ao buscar descrever e explicar o sentido de um enunciado como (1) O culpado, um octogenário, estava dirigindo na contramão, pode-se parafraseá-lo, inicialmente, por meio do encadeamento (1') o culpado era octogenário, portanto dirigia na contramão, o qual concretiza o aspecto IDOSO DC DIMINUÍDO. Em análise desse exemplo, Carel (2018-2019) chega às seguintes observações: (a) o termo octogenário − pelo fato de fornecer o aspecto IDOSO DC DIMINUÍDO prefigurado em sua significação − encontra-se, ao mesmo tempo, num emprego "constitutivo" e "caracterizante"; (b) o termo dirigia na contramão aparece no encadeamento em relação ao aspecto: dirigir na contramão é um modo de justificar que o culpado está diminuído, ou seja, enfraquecido pela idade e, portanto, seu emprego é classificado como "caracterizante". Por fim, (c) o termo o culpado é "singularizante" e, da mesma forma que os "caracterizantes", concretiza o aspecto, mas não está diretamente relacionado a ele. Não é, por conseguinte, nenhum fator de "decalagem"89.

Como o enunciado nem sempre determina seus termos e empregos, um caso como (2) tu me seguiste em meu asilo pode ser compreendido como evocando os encadeamentos (2') este lugar é um asilo, portanto tu me seguiste (que concretiza PROTEGIDO DC ESCOLHIDO), (2") este lugar é um asilo, no entanto tu me seguiste (que concretiza SEM ANIMAÇÃO PT ESCOLHIDO) ou (2"') tu és meu empregado, portanto tu me seguiste em meu asilo (que concretiza DEPENDENTE DC SEGUIR). Eu e tu são termos "singularizantes"; em (2') e (2"), o termo asilo é "constitutivo" e os empregos de seguir e de asilo são "caracterizantes"; em (2"'), seguir é "constitutivo" e o único "caracterizante". Carel (2018-2019) enfatiza que o enunciado não fornece sempre um termo para cada emprego. Assim, por exemplo, no enunciado (3) Pedro foi prudente, o emprego de Pedro é "singularizante" e o emprego de prudente é "constitutivo". Não há termos "caracterizantes" e não se produz nenhuma "decalagem".

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No livro L'Entrelacement argumentatif (2011, p. 221, tradução nossa), Carel afirma que "a possibilidade de uma decalagem entre o aspecto expresso pelo enunciado e o aspecto do encadeamento evocado é a razão pela qual é preciso descrever, simultaneamente, os enunciados pelos aspectos que exprimem e pelos encadeamentos que evocam". Conforme o deslocamento feito nesta pesquisa, o fenômeno da decalagem está diretamente relacionado à interpretação que o linguista faz do enunciado e do encadeamento para a criação da língua- sistema. É, portanto, por interpretação que o semanticista classifica o encadeamento − bem como o sentido do

Ao contrário de (3), o enunciado (4) estava-se vencido por sua conquista contém os termos "caracterizantes" e evoca o encadeamento (4') tinha-se conquistado, portanto se estava vencido, mas falta, no interior de (4), um termo "constitutivo" para que se possa compreender (4'). Segundo Carel (2018-2019), quando, por um lado, o enunciado comporta um termo em emprego "constitutivo", o conteúdo é constituído por "decodificação argumentativa"; quando, por outro lado, o enunciado não comporta um termo "constitutivo", mas contém termos "caracterizantes", o conteúdo é construído por "interpretação"90.

A partir dessas observações, pode-se definir os três referidos tipos de empregos de um termo no enunciado. Como conceitua a versão atual da TBS, o emprego é constitutivo quando o termo empregado exprime sua significação e a impõe, em geral, como estrutura da paráfrase argumentativa. Note-se que, num enunciado como (5) O espetáculo que nós fomos ver era ruim, a palavra espetáculo é constitutiva, visto que esse enunciado é parafraseável por um encadeamento como (5') Nós vimos as ações se desenvolverem, no entanto não nos emocionamos. Palavra cuja significação prefigura o esquema OLHAR AÇÕES DC ESTAR EMOCIONADO, espetáculo exprime, no emprego em questão, OLHAR AÇÕES PT NEG-ESTAR EMOCIONADO. Por fim, é o emprego de ruim o responsável pela transgressão do aspecto91.

Um emprego é caracterizante quando − conforme Carel (em encontro de grupo de pesquisa ocorrido em 25/03/2019, na EHESS) − os termos participam da determinação dos "termos fundadores" do encadeamento e produzem um efeito de decalagem entre o aspecto que estrutura o encadeamento e os termos fundadores da paráfrase. Observando-se os enunciados (6) Pedro demonstrou sensibilidade durante a cerimônia e (7) Por sensibilidade, Pedro chorou durante a cerimônia, verifica-se que a palavra sensibilidade impõe sua significação e comunica o aspecto X É COMOVENTE DC Y FICOU COMOVIDO POR CAUSA DE X. Logo, o emprego de sensibilidade, nesses dois casos, é constitutivo e exprime a natureza geral do acontecimento.

A paráfrase argumentativa de (6) − representada pelo encadeamento (6') a cerimônia estava comovente, portanto Pedro se comoveu − retoma os termos do aspecto. Já no emprego de chorar, em (7), a paráfrase (7') a cerimônia estava comovente, portanto Pedro chorou especifica a maneira como Pedro se comoveu. Trata-se de um emprego caracterizante, cujo confronto do aspecto concretizado com os termos caracterizantes pode ser a ocasião de um efeito de sentido. Tal efeito pode ser percebido claramente a partir do enunciado (8) Por

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Para maiores esclarecimentos sobre esse tema, ver o artigo Interpretação e decodificação argumentativas (CAREL, 2019).

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Como afirma Carel (2019, p. 19), "pesquisas precisam ser feitas no quadro da Teoria dos Blocos Semânticos para descobrir as regras de determinação do termo constitutivo".

sensibilidade, Pedro comeu muito durante a cerimônia, em confronto com a sua paráfrase argumentativa (8') a cerimônia era comovente, portanto Pedro comeu muito e com o esquema que a concretiza: X É COMOVENTE DC Y FICOU COMOVIDO POR CAUSA DE X.

Quando o encadeamento evocado não é linguisticamente prefigurado pelo aspecto que concretiza, diz-se que o sentido do enunciado é decalado. Esse efeito se produz quando o enunciado entrelaça diferentes termos constitutivos e caracterizantes. Nessa perspectiva (CAREL, 2017, p. 13), então, o sentido do enunciado (7) apresenta uma decalagem banal e o sentido de (8) apresenta uma decalagem inesperada. Contudo, aplicando-se a noção de decalagem também aos empregos tradicionalmente ditos figurados (quando, em geral, cria-se uma "estranheza" entre sujeito e verbo − caso, por exemplo, de (9) As nuvens corriam sobre a lua inflamada, cujo emprego de correr justifica-se, sobretudo, pelo caracterizante e constitutivo emprego de inflamada, que prefigura PERIGO DC FUGIR) outros tipos de decalagem aparecem92. É o caso da decalagem absurda, verificável na descrição de Carel (2017, p. 13-14), a partir da ironia extraída de Andromaque, de Racine.

Por fim, vale ainda destacar que os empregos singularizantes são aqueles que participam da determinação dos termos "não fundadores" do encadeamento. Considerando-se tal definição, note-se que, num enunciado como (10) A garota foi prudente − que evoca o encadeamento (10') havia um perigo, portanto a garota modificou seu comportamento −, a significação de prudente prefigura o sentido de (10'), mas não prefigura da mesma forma o emprego de a garota como sujeito gramatical de (10'). Por essa razão, diz-se que o emprego de a garota, em (10), é singularizante e que o emprego de prudente é constitutivo.

A decisão metodológica de classificar os termos do enunciado e de examinar seus empregos já se deu em L'Entrelacement argumentatif (CAREL, 2011), mas a denominação dos termos e dos empregos foi modificada nos trabalhos atuais da semanticista. O principal objetivo desta subseção foi apresentar as definições novas, seguidas de alguns exemplos, sem evidentemente considerar os detalhes relativos a cada um dos tipos de emprego, basicamente por dois motivos: (1) a delimitação do tema desta pesquisa e (2) a ausência de definições estáveis e precisas sobre esses termos e tipos de emprego no interior da teoria.

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