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TERRITÓRIO: algumas abordagens conceituais.

uma análise sobre os dados do Brasil, Bahia e Esplanada.

3.1 TERRITÓRIO: algumas abordagens conceituais.

Muitas são as áreas do conhecimento que trabalham com o conceito de território. Este é apresentado dentro da Geografia influenciado por diferentes abordagens. Cada autor defende ou adota esse conceito de acordo com o método e a forma de analisar a realidade. São muitas as dimensões nas quais o conceito território pode aparecer, com ênfase nas dimensões: política, jurídica, econômica, ou cultural.

Saquet (2007) considera a divulgação da tradução para a língua portuguesa do livro de Claude Raffestin, Por uma Geografia do Poder (1993) um grande marco nos estudos que envolvem a temática do território no Brasil. Nesta referência, Raffestin (1993) destaca o caráter político do território e a necessidade da compreensão do fato de o espaço ser anterior ao território, e que a construção deste revela relações marcadas pelo poder exercido por pessoas ou grupos, sem o qual não se define o território. A partir das definições de Raffestin, muitos trabalhos envolvendo uma definição de território foram desenvolvidos no Brasil.

Para Sposito (1996) é extremamente relevante para a Geografia conhecer a organização do território, considerando cinco pontos importantes: 1) a estrutura da organização espacial, assim como os fluxos relacionados aos processos físicos, sociais e econômicos e sua interação; 2) as características das interações do homem com o meio ambiente; 3) as características sociológicas e econômicas de cada época; 4) as forças de ação que interferem na estrutura e dinâmica da organização; 5) e os limites territoriais das organizações espaciais, que são mutáveis e podem ser alterados.

Mitidiero Junior (2002) afirma que o território é o produto histórico do trabalho humano que resulta na construção de um domínio ou de uma delimitação do vivido territorial, assumindo múltiplas formas e determinações: econômica, administrativa, bélica, cultural e jurídica.

Fica claro, inicialmente, a ideia da construção do território a partir do espaço e que se concretiza como fruto de uma relação política de poder sobre o espaço, gerando formas e determinações diversas. Devido a essa característica multidisciplinar, muitas áreas do conhecimento fazem uso do conceito de território de acordo a sua afinidade, tornando-se, este, uma não exclusividade da Geografia, ainda que para essa área a

relação do território com o espaço a torne uma disciplina propícia para o entendimento deste.

Território e territorialidade são conceitos centrais para a Geografia, ligados à espacialidade humana, mas outras áreas também fazem uso desses conceitos usando enfoque centrado em uma determinada perspectiva. A Ciência Política enfatiza sua construção a partir das relações de poder; a Economia interpreta-o como um fator locacional ou como uma das bases da produção; a Antropologia destaca sua dimensão simbólica e muito ligado às sociedades tradicionais; a Sociologia o enfoca a partir de sua intervenção nas relações sociais; e a Psicologia incorpora-o no debate sobre a construção da subjetividade ou identidade pessoal (HAESBERT, 2004).

Assim muitos autores procuram elucidar o tema ―território‖ de acordo as suas áreas de atuação. Nesse sentido, um trabalho abrangente e interessante é o de Saquet (2011), que relaciona vários autores e suas compreensões acerca do território, por exemplo, Giuseppe Dematteis (1964-2008): produto histórico de relações econômicas, políticas e culturais na natureza envolvendo o poder, as desigualdades, as identidades e as redes; Gilles Deleuze e Félix Guattari (1976): como movimento, fluxos na rotação do capital, relações de poder; Massimo Quaini (1974): relações de trabalho com subordinação e expropriação vinculadas à reprodução ampliada do capital – nessa concepção o homem é um sujeito histórico que pensa, trabalha, cria e organiza o território; Jean Gottman (1947-1980): o território é visto como o resultado das ações de cada sociedade, demarcando e controlando o espaço de forma jurídica, cultural e econômica; uso político do espaço; Claude Raffestin (1967-2010): resultado das relações de poder multidimensionais, produto histórico, relacional e material; Francesco Indovina e Donatella Calabi (1970): produto e condição das relações capitalistas de produção junto com a atuação do Estado, consequência do uso e apropriação do espaço para produção, circulação, valorização do capital e reprodução dos trabalhadores; Alberto Magnaghi (1970): é considerado patrimônio da humanidade; produto e condição de relações de poder e normas, ligado à valorização do capital, lugar de organização política visando ao desenvolvimento sustentável; e Arnaldo Bagnasco (1970): locais que apresentam características econômicas, políticas e culturais bem definidas com articulações territoriais entre as classes sociais.

Certifica-se que o território é objeto de estudo de muitas áreas, mas a Geografia tem um papel importante, pois relaciona-o à espacialidade humana. O território aparece

depois do espaço e sempre pode sofrer alterações, pois é fruto das relações sociais e estas se apresentam em constantes mudanças.

Vários autores interpretam o território como produto histórico de relações econômicas, políticas e culturais, ligado ao poder e controlado de várias formas, como a jurídica. Outros o definem como um produto e condição das relações capitalistas, ligado à valorização do capital e, portanto fruto do enfrentamento de classes sociais.

Apesar das semelhanças entre alguns dos conceitos, notamos, por menores que sejam, que não permitem uma unidade acerca de um conceito único de território, nem mesmo dentro da Geografia.

Nesta perspectiva, Haesbaert (2004) analisa o território com diferentes enfoques, identificando entre algumas vertentes a jurídico-política, segundo a qual ―o território é visto como um espaço delimitado e controlado sobre o qual se exerce um determinado poder, especialmente o de caráter estatal‖, e a econômica, ―que destaca a desterritorialização em sua perspectiva material, como produto espacial do embate entre classes sociais e da relação capital-trabalho‖ (Grifo do autor).

Haesbert (2004) ainda pensa o território em uma outra perspectiva: a da desterritorialização. Para ele trata-se de um mito, principalmente quando alguns autores restringem historicamente o fenômeno, associando-o à pós-modernidade ou à chamada sociedade pós-industrial, ―informacional‖. A desterritorialização é sempre ligada à reterritorialização, e o que aparece como desterritorialização em uma escala ou nível espacial pode estar surgindo como reterritorialização em outra (ressaltando seu sentido multiescalar). Nota-se a força da ligação que existe entre espaço e território, um anterior ao outro, ou mesmo quando ocorre a chamada ―desterritorialização‖, pois outro espaço pode estar servindo para uma reterritorialização. Portanto espaço, territorialização, desterritorialização e reterritorialização podem devidamente formar um ciclo, levando em consideração a distinção espaço-território.

Neste sentido e fazendo uma distinção entre espaço e território, Fernandes (2005) afirma que são as relações sociais que transformam o espaço em território e vice e versa, sendo o espaço um a priori, e o território, um a posteriori. O autor contrapõe, ainda, que o espaço é perene e o território é intermitente. Da mesma forma que o espaço e o território são fundamentais para a realização das relações sociais, estas produzem continuamente espaços e territórios de formas contraditórias, solidárias e conflitivas (FERNANDES, 2005).

Tendo como consequência a transformação do espaço em território, Mesquita e Silva (1987) comentam que, embora as transformações ocorridas na agricultura – em diversas regiões do país – tenham se efetuado seguindo o modelo nacional, estas sofreram influência das condições preexistentes da organização agrária, resultante dos diferentes processos de ocupação, levando a especificidades regionais que modelaram a evolução da agricultura. Neste contexto, o território é entendido como resultado de um processo histórico de construção do espaço por agentes sociais, que lhe imprimem suas características socioculturais. A construção dos territórios se processa a partir da projeção do trabalho sobre o espaço, e este não é território em si mesmo, pois o que faz dele território é o seu uso, e esse uso faz deste um objeto de análise social (SANTOS, 1996).

Desse modo, observa-se agora a importância do trabalho sobre o espaço na construção do território, sendo este último entendido como uma construção histórica, fruto de relações sociais que desenvolvem atividades laborais sobre o espaço. Nessa perspectiva, um assentamento implantado sobre um espaço torna-se um território que foi criado através de um processo histórico de construção, dando-lhe suas características conforme as atividades desenvolvidas de acordo as culturas adquiridas pelos seus habitantes ao longo de suas vidas, e/ou de acordo com as regras impostas pelos órgãos reguladores, tornando assim o processo de territorialização formado pelo assentamento, portanto, um objeto de análise social.

Ainda que os órgãos reguladores imponham suas leis, os territórios formados também criam as suas. Marques (2000), por exemplo, entende o território como um espaço utilizado por uma sociedade ou grupo social para a reprodução de sua existência que usa um conjunto de princípios firmados pelos membros dessa sociedade, cujas relações sociais são todas submetidas a uma mesma lei. Nota-se certa liberdade na construção de suas próprias leis pelo conjunto que domina o território, ainda que existam leis gerais formadas pelo Estado.

Ainda esclarecendo o território e sua relação com o espaço, Fernandes (2005) comenta sobre a multidimensionalidade do território imaterial:

Os territórios são formados no espaço geográfico a partir de diferentes relações sociais. Entretanto é importante lembrar que o território é um espaço geográfico, assim como a região e o lugar, e possui as qualidades composicionais e completivas dos espaços. A partir desse princípio, é essencial enfatizar que o território imaterial é também um espaço político, abstrato. Sua configuração como território refere-se às dimensões de poder e

controle social que lhes são inerentes. Desde essa compreensão, o território, mesmo sendo uma fração do espaço, também é multidimensional. Essas qualidades dos espaços evidenciam nas partes as mesmas características da totalidade (FERNANDES, 2005, p. 27) (grifo do autor).

Essa multidimensionalidade atribuída por Fernandes (2005) ao território demonstra o quanto um território criado pode se expandir em outras dimensões, deixando de ser apenas uma relação de poder que ocorre em um determinado espaço físico. Eduardo (2008) reafirma essa linha quando compreende que o território precisa ser abordado em sua multidimensionalidade, apresentando um âmago social; portanto, suas dimensões são a política, a economia e a cultura, imbricadas relacionalmente pela historicidade e conflitualidade inerente a toda a sociedade.

A Geografia é a uma área do conhecimento importante e fundamental para estudar e analisar os movimentos sociais e as relações que surgem como fruto destes, como é o caso dos assentamentos rurais, visto que esses estão totalmente envolvidos na transformação social do espaço agrário em território ou frações destes – na maioria das vezes fruto de uma luta de classes entre agricultores camponeses e agricultores empresariais (agronegócio) protegidos ou amparados pelo Estado, em especial pela bancada ruralista que atua no Congresso Nacional defendendo seus interesses. Neste sentido, adotaremos o conceito de território como espaço de poder, gerado a partir de um controle social do Estado e fruto da luta de classes.