• Nenhum resultado encontrado

3 O SUBGÊNERO TERROR

3.5 O TERROR NOS QUADRINHOS BRASILEIROS ANTES DE A CRIPTA

Como visto anteriormente, a censura aos quadrinhos norte-americanos impactou severamente o seu mercado editorial, mas, não eliminou por completo a circulação de histórias de terror. A grande produção de gênero da década de 1950 ainda geraria lucro ao ser exportada pelos syndicates através de distribuidoras que a trouxeram também para o Brasil onde foi diluída em várias editoras. Orbis, Vida Doméstica, Novo Mundo e La Selva foram as primeiras a aproveitar os baixos custos desses quadrinhos já prontos para montar revistas com conteúdo diversificado de sua escolha. Entretanto, não se trata do marco inicial do terror nacional, cujas origens já estavam em formação havia pelo menos duas décadas.

A origem pulp das histórias de mistério policial e dos contos de influência gótica foi no Brasil, também a essência de formação deste gênero nos quadrinhos, onde revistas de emoção como A Novela (1936), traziam números especiais dedicados a histórias de fantasmas e contos sobrenaturais. A mescla desta tradição com a tradição de publicação de um gênero popularíssimo como o mistério policial publicado em Detective (1936) ou Suplemento Policial em Revista (1940), pode ter dado origem a Garra Cinzenta (1937), uma obra memorável dos quadrinhos, considerada a precursora dos quadrinhos de terror brasileiros (SILVA, 2012, p. 144).

Figura 24 – Folha de rosto da antologia Garra Cinzenta (1937-1939)

Fonte: Souza (2011. p. 5).

A Garra Cinzenta estreou em 27 de julho de 1937 no jornal paulista A Gazeta,

de uma página, publicados até 1939. O sucesso da série gerou a compilação da saga completa dividida em dois volumes publicados em 1939 e 1940, inclusive com traduções na Bélgica e no México na mesma época. Praticamente esquecida até sua republicação parcial em 1975 no Almanaque Gibi Nostalgia, a história só foi novamente compilada na íntegra em 1998, no fanzine Seleções do Quadrix e, mais recentemente, em um livro de 2011, publicado pela editora Conrad. Trata-se de uma série surgida no ápice de popularidade dos suplementos somente com quadrinhos41,

veiculados em jornais de várias regiões do país na forma de encartes especiais como

Suplemento Infantil (depois rebatizado Suplemento Juvenil) e O Globo Juvenil. A Gazetinha, surgida em 1929, foi inclusive o suplemento que apresentou personagens

clássicos como Fantasma e Superman aos leitores brasileiros. Graças a esses e a vários heróis publicados nesses encartes “os quadrinhos logo se firmariam como um dos braços mais poderosos da indústria de entretenimento norte-americana no Brasil” (SOUZA, 2011, p. 19).

Figura 25 – O covil da Garra Cinzenta reunindo elementos de terror e ficção científica

Fonte: Souza (2011, p. 79).

Foi no traço de Renato Silva (1904-1981), experiente colaborador de A Gazeta, que a Garra Cinzenta se tornou sucesso, atribuído ao texto híbrido que misturava gêneros (Figura 25) como o policial, ficção científica e terror numa trama de crimes ambientada em cenários norte-americanos. A série se destacou por também já

41 Adolfo Aizen (1907-1991), que viria a fundar a editora EBAL, após uma visita aos Estados Unidos,

começou a publicar no Brasil, em 1934, os suplementos com quadrinhos fornecidos por syndicates. Aizen ainda criaria o Grande Consórcio de Suplementos Nacionais, editando suplementos que integraram periódicos do país todo.

apresentar elementos da estética dos super-heróis estadunidenses, cujo protótipo foi o Fantasma, justiceiro mascarado vestindo colante colorido criado por Lee Falk em 1936, pois já trazia antagonistas trajando fantasias com capa e máscara que mantinham suas identidades secretas. Mistério maior que a identidade do vilão Garra Cinzenta é determinar quem realmente foi seu roteirista Francisco Armond. Segundo Souza (2011), especula-se que, na verdade o texto da obra seria de autoria de uma mulher que, pelo preconceito atribuído a ela ao desempenhar essa função, teria preferido se ocultar sob um pseudônimo.

[...] A suspeita é que Armond fosse a jornalista e poeta carioca Helena Ferraz de Abreu (esposa de Maurício Ferraz, criador do Correio Universal). Até porque ela tinha um pseudônimo púbico que era Álvaro Armando (Álvaro e Armando eram o nome de seus dois filhos), usado para assinar suas poesias. De “Armando” para “Armond” a distância não é grande. (SOUZA, 2011, p. 25).

Segundo Piper (1978), a primeira série de quadrinhos de terror publicada no país foi lançada no mesmo ano da estreia da Garra Cinzenta: Dr. Oculto, de autoria dos norte-americanos Jerry Siegel e Joe Shuster, e que foi publicada na revista

Mirim42 do Grande Consórcio de Suplementos Nacionais. Mas a consolidação do

gênero se consolidaria 13 anos depois, quando a editora La Selva lançou, em junho de 1950, a primeira revista exclusiva do gênero: Terror Negro (Figura 26). Com capas ilustradas por Jayme Cortez, a revista iniciou publicando as aventuras do personagem norte-americano Black Terror, de Mort Merskin e Jerry Robinson. Porém, após a nona edição não havia mais material desse personagem e a editora optou por não cancelar a revista. A partir de seu miolo contaria com histórias de terror, mais de acordo com o que seu título sugeria. Essa estratégia fez com que a revista tivesse sua tiragem ampliada para 40 mil exemplares e sua periodicidade originalmente mensal, mudada para quinzenal dado o apelo da publicação junto aos leitores. Publicada até a falência da La Selva em 1967, ano em que se inicia o recorte temporal desta dissertação trata- se de uma das publicações mais populares do terror nacional, com 223 números lançados e que serviram de base para a formação tanto de leitores como de artistas nacionais.

42 Suplemento publicado entre 1937 e 1942 que trazia em suas páginas séries licenciadas pela King

Figura 26 – Capas das primeiras edições das duas fases da revista Terror Negro

Fonte: Piper (1978, p. 4).

“O sucesso de O Terror Negro e a introdução de novos títulos no mercado, fez com que outras editoras pequenas se aventurassem quase que imediatamente a embarcar na onda de publicações de terror” (SILVA, 2012, p. 157) ao longo da década de 1950, aproveitando que as editoras de maior porte ignoravam esse filão do mercado que se popularizava. Foi nesse momento que as editoras La Selva e Novo Mundo se tornaram líderes desse nicho com revistas, em sua maioria, publicadas mensalmente. Segundo Silva (2012), a La Selva lançou doze títulos: O Terror Negro,

Sobrenatural, Contos de Terror, Frankenstein, Histórias de Terror, Gato Preto, Mundo de Sombras, Noites de Terror, Vodu, Pânico, Terror e Pavor, Sinistro; enquanto que

a Gráfica Novo Mundo publicou sete títulos: Gato Preto, Mundo de Sombras, Noites

de Terror, Medo, Histórias de Horror, Sombra do Pavor, Terror da Meia-Noite. A

demanda de gibis de terror era tanta que o público era dividido entre essas e outras editoras como Continental (depois Outubro), Taika, Pan Juvenil (depois EDREL), GEP (Gráfica Editora Penteado), entre diversas outras que abasteciam o Mercado não somente com material traduzido como demonstra a Figura 27.

Figura 27 – Levantamento de revistas em quadrinhos de terror publicadas no Brasil entre 1950 e 1977 em O Grande Livro do Terror

Fonte: Piper (1978. p. 9).

Aos poucos, o material de terror fornecido pelos syndicates começou a se esgotar e para suprir os leitores foi se tornando cada vez mais necessária a produção de conteúdos inéditos e exclusivos, o que fomentou uma cena de autores voltados a esse tipo de publicação. Mas, a princípio, principalmente por questões de custo43, as

43 Segundo matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo em 25 de novembro de 1970, por

ocasião do Congresso Internacional de Histórias em quadrinhos realizado em São Paulo no mesmo ano, em que se debateram medidas de proteção aos quadrinhos nacionais a serem encaminhadas ao

publicações traziam poucas inserções de material nacional em seu miolo. O que passou a mudar em 1959, quando a editora Continental teve a iniciativa de produzir revistas totalmente desenvolvidas no país. Sua estratégia, evidenciada por uma tarja presente nas capas onde se lia a frase “escrita e desenhada no Brasil” (SILVA, 2012) a tornou a principal concorrente da La Selva, que naquele momento já havia crescido a ponto de adquirir a Novo Mundo, além de investir em um amplo catálogo de revistas policiais, femininas e infantis (JÚNIOR, 2011). Os quadrinhos de terror foram de extrema importância no amadurecimento do mercado editorial brasileiro, pois permitiu que novos autores pudessem se aprimorar e se profissionalizar.

O exemplo da produção de horror nos quadrinhos brasileiros é relevante sobre muitos aspectos para ilustrar este período de profundas transformações no campo editorial e os reflexos do imaginário social. Sua introdução situou-se numa encruzilhada de fatores decisivos para o mercado editorial brasileiro, e espelha as escolhas dos grupos envolvidos, entre importar ou produzir material próprio, explorar as correlações com outras mídias, adotar práticas de produção externas e hibridizá-las com as pré- existentes. (SILVA, 2012, p. 260).

Nomes como Jayme Cortez, Miguel Penteado, Reinaldo de Oliveira44, Flávio

Colin, Julio Shimamoto, Nico Rosso e Rubens Lucchetti fazem parte dessa primeira geração de quadrinistas autorais de terror que começou a buscar imprimir em seus trabalhos uma identidade que fosse diferenciada dos modelos de produção importados dos comics estadunienses. Extrapolando essa proposta, a dupla Lucchetti/Rosso, por duas vezes, tentou romper as convenções tanto de formato quando de conteúdo já exploradas pelo mercado nacional. A primeira delas na revista

A Cripta e a segunda com a revista O Estranho Mundo de Zé do Caixão. Iniciativas

que serão abordadas detalhadamente nos capítulos a seguir.

Ministério da Educação: “As histórias em quadrinhos produzidas no Brasil estão em crise há muito tempo. Perdem longe para as estrangeiras, que custam 4 vezes menos do que as nossas e têm qualidade muito superior, em geral. Além disso, quando uma história estrangeira vem ao Brasil, é porque já é sucesso no seu país de origem e está, portanto, a meio caminho de se tornar sucesso também no Brasil” (HABERT, 1974, p. 70).

44 Com prolífica carreira no meio editorial, trabalhou em duas das mais importantes editoras na história

dos quadrinhos nacionais: La Selva (onde foi chefe de redação) e Outubro. Segundo Gonçalo Júnior (2011) foi um dos organizadores, junto de Álvaro de Moya, Jayme Cortez, Miguel Penteado e Silas Roberg da primeira “Exposição Didática Internacional de Histórias em Quadrinhos” realizada em 18 de junho de 1951 no Centro Israelita em São Paulo. Foi também um dos diretores da ADESP a Associação de Desenhistas de São Paulo, formada em 1952 e que foi um grupo pioneiro na discussão de direitos trabalhistas e reserva de mercado para os artistas nacionais de quadrinhos. Foi o primeiro editor da revista Capricho (Editora Abril) e também foi um dos revisores da primeira edição de Quadrinhos e Arte Sequencial, publicada no Brasil em 1989. Por ter levado o título O EstranhoMundo de Zé do Caixão para a editora Dorkas, se tornou um desafeto de Rubens Lucchetti, como será abordado adiante.