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2 A ÓTICA DA GUERRA

2.2.7 Terrorismo e seu Conceito

Até o momento não se chegou a um consenso sobre a conceituação de terrorismo. Há uma resistência muito grande por parte dos Estados em estabelecer uma definição precisa daquilo que seja terrorismo. Esta indefinição permite que diversas práticas violentas, das mais diversas naturezas, possam ser consideradas como terroristas. Daí decorre o risco da generalização do termo, que abre margem a tratar como iguais coisas diferentes, inviabilizando a condução de um estudo científico. Num extremo oposto, um estreitamento demasiado do conceito pode gerar uma particularização tal, que restringiria o fenômeno a um tipo único de ocorrência – limitada no tempo, no espaço e sob determinada conjuntura. Isto nos levou a buscar um embasamento teórico que permitisse a identificação do fenômeno

segundo critérios que fossem mais objetivos do que subjetivos, de forma a evitar os extremos – uma ampla generalização e uma elevada especificidade.

Identificamos o emprego político do termo terrorismo, como o maior empecilho para a obtenção de um consenso entre os Estados. Para o professor Leonardo Nemer Caldeira Brant:

O problema está na politização do conceito. Pelo fato de o ato de terrorismo ser, necessariamente, um ato de força e ilegal, os Estados tendem a julgar, enquanto legal no conceito, aquilo que lhes interessa, e excluir, enquanto ilegal da utilização da força, o que não lhes interessa. Temos, portanto, na tentativa de conceituar o termo, todos os conflitos permanentes, a partir do surgimento da Carta das Nações Unidas (PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA, 2006, p. 77).

O termo terrorista traz embutido um sentido negativo, que os praticantes deste estágio de guerra irregular buscam evitar. Não devemos nos esquecer que um dos principais propósitos do terrorismo é a busca de adeptos, de apresentar seus perpetradores como sendo os legítimos representantes e defensores daquele segmento, seja religioso, étnico ou ideológico. Ser identificado como um terrorista ou como um “defensor da liberdade” está ligado ao resultado do embate – de quem são os vencedores – e não ao procedimento empregado. Nossa abordagem não pretende atribuir qualquer juízo de valor do campo ético ou moral ao termo terrorismo, busca mantê-la balizada em um enquadramento teórico isento. Deixamos uma eventual estipulação do “certo” e do “errado”, no que se refere ao terrorismo, para os estadistas.

Apesar da falta de uma definição única para o terrorismo, os diversos órgãos e setores que têm de tratar com este fenômeno, viram-se obrigados a estabelecer suas respectivas definições, de modo a orientar suas diversas atividades. Analisaremos algumas delas, segundo nossa construção teórica, em busca de uma que atenda ao escopo deste trabalho. Iniciaremos com a adotada pelo Federal Bureau of Investigation (FBI) dos Estados Unidos: “a utilização ilegal da força e da violência contra pessoas ou propriedades para intimidar ou coagir um governo, a população civil, ou qualquer destes segmentos, no fomento de objetivos políticos ou sociais” (FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION, 2009, tradução nossa). Esta definição inicia estabelecendo uma relação entre terrorismo e ilegalidade. Em certo sentido, ela atende às atividades realizadas pelo FBI, que é um segmento do Departamento de Justiça estadunidense, mas ao nos voltarmos para o fenômeno, apresenta deficiências. O primeiro problema reside na correlação direta entre terrorismo e o rompimento de uma lei, que pode alterar-se com o tempo. Aquilo que hoje é um ato ilegal pode, com o passar do tempo e/ou uma mudança de conjuntura – seja fruto de uma mudança cultural, econômica ou política – tornar-se legal, assim como, o seu inverso. Outro aspecto é que, ao tratarmos o terrorismo

como um elemento regido pelo Direito, nós o submetemos a critérios que emanam de um determinado Estado, estando, portanto, submetido a todos os interesses regidos pela sua política. No campo internacional, esta análise mantém sua validade, com o agravante de não haver um organismo regulador que possa impor sua vontade sobre os demais Estados, o que amplia as diversas interpretações daquilo que seria terrorismo. Entendemos que, no campo interno, a única ligação entre terrorismo e ilegalidade estaria no questionamento do monopólio do uso da força pelo Estado, uma vez que o uso da violência encontra-se presente. Este seria o limite vislumbrado para a atribuição do terrorismo como um ato ilegal. Um segundo problema, identificado nesta definição, seria a ausência da busca de adeptos e a propagação do terror como elementos constitutivos do terrorismo. Esta omissão permitiria a inclusão de outros movimentos, por nós considerados como não sendo terroristas, dentro da categoria de terrorista. Seria o caso de movimentos sociais que eventualmente recorrem a atos de violência ou depredação. Assim, avaliamos que esta conceituação de terrorismo – feita pelo FBI – estaria submetida a uma politização do termo terrorismo, ao mesmo tempo em que seria demasiadamente generalista, não atendendo aos critérios necessários para a identificação do terrorismo como um fenômeno de estudo científico.

Outra definição de terrorismo pode ser encontrada em nosso Ministério da Defesa:

Forma de ação que consiste no emprego da violência física ou psicológica, de forma premeditada, por indivíduos ou grupos adversos, apoiados ou não por Estados, com o intuito de coagir um governo, uma autoridade, um indivíduo, um grupo ou mesmo toda a população a adotar determinado comportamento. É motivado e organizado por razões políticas, ideológicas, econômicas, ambientais, religiosas ou psicossociais (MINISTÉRIO DA DEFESA, 2007b, p. 253).

Esta conceituação apresenta alguns avanços em relação à anterior: o emprego do termo “premeditada” reforça a ideia de uma articulação racional, da parte dos agentes, voltada para a obtenção dos seus propósitos; destaca a componente psicológica, altamente explorada pelos terroristas na busca da divulgação de seus atos; e exclui a participação estatal como agente perpetrador direto do terrorismo, mas a inclui na esfera do apoio. Apesar de mais sofisticada que a utilizada pelo FBI, a definição do Ministério da Defesa ainda permitiria a mesma generalização que a do órgão norte-americano, por não incluir em seu texto uma clara referência aos “meios” empregados para a aquisição dos propósitos – a propagação do terror. A angariação de adeptos – apoio popular – também ficou fora de sua abordagem, ignorando a posição de representante legítimo que o terrorista necessariamente tenta alcançar.

Passemos para as definições propostas por alguns estudiosos do assunto. Iniciaremos com o posicionamento de Laqueur:

O terrorismo, interpretado aqui como a utilização de uma furtiva violência por parte de um grupo para a consecução de fins políticos, se dirige por regra geral contra um governo, e, com menos frequência, contra outro grupo, classe ou partido. Os fins podem variar, indo da retificação de “ofensas” concretas à derrubada de um governo e a tomada do poder, ou a libertação de um país da dominação estrangeira. Os terroristas buscam provocar uma desorganização política, social e econômica, e é frequente que, na procura desse objetivo, cometam assassinatos planejados ou indiscriminados (LAQUEUR, 2003, p. 125, tradução nossa).

Podemos identificar no conceito de Laqueur uma maior preocupação na tipificação do fenômeno, quando comparado com os adotados pelos órgãos de execução anteriormente citados. Em certo sentido, uma mudança até esperada, pois ao estabelecermos o confronto entre instituições empreendedoras de políticas governamentais e desenvolvimentos acadêmicos, os focos ou abordagens também se processam de uma forma distinta. O entendimento do terrorismo, para Laqueur, apresenta diversos pontos de contato com nossa construção: a inferioridade do agente terrorista frente a seu oponente – furtiva violência; os propósitos buscados como sendo de caráter político; a presença de um contexto insurrecional, no sentido de confrontação a um status quo; e a relação do terrorismo com a propagação do pânico, mesmo que de forma indireta, ao indicar a perseguição de uma desordem no campo político, social e econômico. Entretanto, ainda nos ressentimos de uma maior explicitação de dois elementos que consideramos fundamentais: a ênfase, pelos terroristas, na geração do pânico sobre seus alvos; e o anseio por um amplo apoio popular.

Finalmente, apresentamos a definição de terrorismo defendida por Eugênio Diniz:

[...] podemos entender terrorismo como sendo o emprego do terror contra

um determinado público, cuja meta é induzir (e não compelir nem dissuadir)

num outro público (que pode, mas não precisa, coincidir com o primeiro) um

determinado comportamento cujo resultado esperado é alterar a relação de forças em favor do ator que emprega o terrorismo, permitindo-lhe no futuro alcançar seu objetivo político – qualquer que este seja (DINIZ, 2004, p. 212).

Esta seria a definição de terrorismo que mais se aproximaria de nossa abordagem teórica, pois: enfatiza a disseminação do terror sobre um público alvo; ressalta as dificuldades da prática do terrorismo para empreender a dissuasão e suas limitações para exercer a coação; permite intuir a distinção entre o público alvo do terror e o público alvo de influência; exprime um caráter de confrontação com um poder vigente anterior; e posiciona o terrorismo como fazendo parte de um processo maior, que visa alcançar propósitos políticos. Entretanto, nos vimos obrigados a inserir algumas pequenas modificações, de forma a melhor refletir nosso entendimento do que seria o terrorismo. A primeira seria a inclusão da expressão “ameaça de emprego”, uma vez que a expectativa de uma ação que é dada como certa, mesmo

antes de ocorrer, exerce o mesmo poder psicológico sobre seus alvos. A segunda modificação seria a clara explicitação dos públicos alvos do terror e alvo de influência. Outra modificação necessária seria a clara diferenciação entre os propósitos políticos limitados e os mais amplos – que confrontam os interesses nacionais, no caso de ter o Estado como oponente. Finalmente, tornar evidente o caráter insurrecional na busca pelo apoio popular. Em face do exposto, assim ficaria nosso conceito de terrorismo:

Terrorismo é o emprego ou ameaça de emprego da violência, de modo a incutir pânico e terror em um grupo alvo, a fim de alcançar propósitos políticos limitados e/ou obter aceitação e apoio de um grupo a que se deseja influenciar, de forma a alterar a relação de forças em favor do ator que emprega o terrorismo para, no futuro, alcançar seus propósitos políticos mais amplos.