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Terrorismo e seu mecanismo de funcionamento

2 A ÓTICA DA GUERRA

2.2.6 Terrorismo

2.2.6.1 Terrorismo e seu mecanismo de funcionamento

Em tópico específico, detalhamos o quanto a sensação de perda de segurança pode ser devastadora para o indivíduo e, por conseguinte, para a sociedade. O uso do medo para alcançar propósitos políticos é o princípio que orienta as ações adotadas pelos que praticam o terrorismo. Entretanto, isto não ocorre de forma direta. Inicialmente devemos estabelecer a distinção entre dois grupos alvos, que são peças fundamentais da lógica adotada pelos terroristas. O primeiro grupo alvo é o constituído pelas vítimas, onde vítima é entendida como uma parcela representativa do “público alvo do terror”. Este segmento é o que sofre os efeitos da violência originada pelos terroristas. Assim, ao ocorrer um ato terrorista, seus perpetradores buscam que as baixas ocorram no público alvo do terror. O segundo grupo alvo é o “público alvo de influência”. Este segmento é composto pela parte da população em que o terrorista pretende angariar, inicialmente, simpatia e, posteriormente, aceitação e apoio. O apoio deve ser entendido como aumento no contingente de terroristas ou de adeptos, na forma de financiadores. Este público alvo de influência é o propósito inicial dos terroristas, é a eles que se pretende enviar a mensagem da “causa” que se defende. A FIG. 7 apresenta a dinâmica entre os públicos e os terroristas, segundo a lógica de ação sobre o Povo.

Há o caso em que o público alvo de terror e de influência pode ser o mesmo. Neste caso, as vítimas estariam entre o público a que se deseja influenciar. Tal situação ocorre quando o propósito político buscado é limitado, ou seja, não se choca com os interesses considerados vitais pelo grupo atingido. Um caso que exemplificaria tal aplicação foi o ataque de um caminhão bomba às tropas norte-americanas no Líbano em 1983, onde morreram 241 fuzileiros estadunidenses. Este ataque alterou a política externa dos Estados Unidos para a região e culminou com a retirada de suas tropas do Líbano:

Assim que os membros de uma entidade alvo percebem que os terroristas podem novamente atacar impunemente, o poder político e militar, até mesmo do mais poderoso Estado-nação, pode ser virtualmente neutralizado. Isto ficou claramente estabelecido no atentado por bomba, em outubro de

1983, ao quartel dos fuzileiros dos EUA em Beirute. Um homem em um caminhão carregado de explosivos matou 241 fuzileiros estadunidenses e resultou em alterações relativamente grandes na política dos EUA no Líbano, incluindo a retirada das forças estadunidenses de lá (HANLE, 1989, p. 116, tradução nossa).

FIGURA 7 – A Dinâmica de interação entre os terroristas e os públicos alvos.

Fonte: HANLE, 1989, p. 115.

Robert A. Pape, ao referir-se ao caso específico dos atentados suicidas, destaca o emprego deste tipo de procedimento para atingir propósitos políticos limitados por parte dos terroristas:

Terrorismo suicida não altera a disposição das nações em negociar altos interesses por altos custos, mas ataques suicidas podem resultar em esforços para mitigar os custos sobre os civis. Consequentemente, o terrorismo suicida pode marginalmente aumentar a punição que é infligida e tornar como alvo nações um pouco mais prováveis de entregar objetivos modestos, mas é improvável compelir estados a abandonar interesses relacionados com a sua segurança física ou a sua riqueza nacional (PAPE, 2003, p. 2, tradução nossa).

Assim, o propósito principal dos atos terroristas seria o de angariar adeptos na população alvo de influência, valendo-se das ações conduzidas sobre a população alvo do terror. Eventualmente, a ação terrorista pode estar voltada para influenciar diretamente a população alvo do terror, mas, neste caso, o buscado seria um propósito limitado. Novamente segundo Pape: “No geral, terrorismo possui dois propósitos – ganhar apoiadores e coagir oponentes” (PAPE, 2003, p. 3, tradução nossa).

Foi no século XIX, sob o contexto dos movimentos anarquistas e socialistas, que a chamada “propaganda pelos fatos” começou a assumir uma forma mais definida e de emprego sistemático, apesar de que seu princípio sempre esteve no âmago da guerra irregular,

VÍTIMAS TERRORISTAS ALVO DO TERROR ALVO DE INFLUÊNCIA

especialmente em seu primeiro estágio. A “propaganda pelos fatos” se baseava no pressuposto de que a divulgação dos ideais socialistas e anarquistas sempre teria uma eficácia limitada, uma vez que a imprensa burguesa sempre poderia deturpar e caluniar a verdadeira mensagem dirigida às massas. O público trabalhador ao regressar para suas casas após jornadas de trabalho de 11 ou 12 horas dispunha de muito pouca motivação e tempo para aprofundar os escritos dos teóricos socialistas. Assim, um fato ocorrido poderia passar uma mensagem muito mais poderosa e de fácil captação por parte da classe trabalhadora. Um fato geraria outro e cada vez mais as pessoas iriam juntar-se a luta, fazendo com que o governo demonstrasse a perda de sua unidade e confiança (LAQUEUR, 2003). A onda de assassinatos de personalidades políticas, que ocorreu no século XIX seguiu esta tendência: o assassinato do presidente francês Sadi Carnot em 1894, os ataques à imperatriz Elizabeth da Áustria e ao primeiro ministro italiano Antonio Cánovas, ambos em 1897, a morte do rei italiano Umberto I, em 1900, decorrente de um ataque conduzido por um grupo anarquista e o assassinato do presidente norte-americano William McKinley, em 1901 (LAQUEUR, 1996), seriam alguns exemplos. Nestes casos, o que se buscava era causar uma instabilidade generalizada no Estado e sensibilizar a opinião pública. Segundo Laqueur: “Os terroristas tratam de provocar uma desorganização política, social e econômica, e é frequente que, na procura deste objetivo, cometam assassinatos planejados ou indiscriminados” (LAQUEUR, 2003, p. 123, tradução nossa). A “propaganda pelos fatos” continua em prática ainda hoje, onde o caso mais emblemático foi o ataque às torres do World Trade Center em New York, no ano de 2001. Tornamos a repetir que o uso da “propaganda pelos fatos” estaria direcionado à adesão de adeptos à “causa”, mais do que a geração de danos reais aos oponentes. A busca de alvos representativos ou simbólicos estaria inserida segundo este contexto:

O êxito de uma operação terrorista depende quase por completo da quantidade de publicidade que receba.

[...] Todos os modernos grupos terroristas necessitam de publicidade. Quanto menores sejam, mais dependem dela, e isto tem afetado em grande medida a escolha de seus objetivos (LAQUEUR, 2003, p. 162-163, tradução nossa).

A busca pela publicidade seria um dos elementos que contribuiriam para o elevado grau de violência que normalmente envolve as ações terroristas. Tal nível de violência levou alguns autores a adotarem este parâmetro como fator diferenciador do terrorismo dentro do espectro maior da guerra irregular: “Terrorismo é distinguido da guerra irregular pela forma que a violência assume” (KIRAS, 2002, p. 211). Entendemos que o uso do grau de violência, empregado como parâmetro diferenciador, seria demasiado subjetivo, sujeito a percepções diversas, que variariam de acordo com a cultura e escala de valor vigente. As guerras

regulares e convencionais estão repletas de exemplos de elevado grau de violência, mesmo assim não são consideradas como prática de terrorismo.

Há outro aspecto a ser considerado, no que se refere ao emprego da violência em níveis elevados, que é a formação de um círculo vicioso que tende a escalar o uso da força por parte dos dois lados envolvidos, sob o risco de permitir uma posição de vantagem de um sobre o outro, caso não haja este acompanhamento:

Como o uso da força física na sua integralidade não exclui de modo nenhum a colaboração da inteligência, aquele que se utiliza sem piedade desta força e não recua perante nenhuma efusão de sangue ganhará vantagem sobre o seu adversário se este não agir da mesma forma. Por este fato, ele dita a sua lei ao adversário, de modo que cada um impele o outro para extremos nos quais só o contrapeso que reside do lado adverso traça limites (CLAUSEWITZ, 1996, p. 8).

Nesse sentido, as democracias são duramente atingidas ao ter que realizar o enfrentamento suscitado pelo desafio dos terroristas. Laqueur destaca este ponto de vista ao identificar uma maior ocorrência de ações terroristas em Estados que oferecem certo grau de liberdade ao seu povo – entendido aqui como a garantia da preservação dos direitos individuais por parte do Estado e em um sentido oposto ao de Estado totalitário:

Na maioria das ocasiões, o terrorismo não surge nos regimes mais opressivos, mas sim, ao contrário, em condições de relativa liberdade. [...] Na atualidade, se dirige quase exclusivamente contra as sociedades democráticas permissivas e contra os regimes autoritários ineficazes (LAQUEUR, 2003, p. 26 e 298, tradução nossa).

Quanto mais o Estado concede liberdades ao indivíduo, mais facilidades de operar são concedidas ao terrorista. Isto ocorre porque os terroristas exploram exatamente as concessões oferecidas pelo Estado aos cidadãos para perpetrar suas ações e ter livre trânsito. Os Estados que mais sentem o impacto de ações terroristas são aqueles que mais oferecem garantias individuais aos seus cidadãos, pois tendem a resistir à tomada de decisões que imponham restrições a estas liberdades. Em certo sentido isto já poderia ser considerado um ganho político da parte dos terroristas: o Estado tomar medidas impopulares de restrição aos seus cidadãos. Paradoxalmente, tais medidas restringiriam a capacidade de ação dos próprios terroristas. A ocorrência de terrorismo em um determinado Estado geraria alterações políticas consideráveis nas relações entre o Estado e seus cidadãos. Segundo Agamben, a “exceção” estaria tornando-se a regra:

[...] a criação voluntária de um estado de emergência permanente (ainda que, eventualmente, não declarado no sentido técnico) tornou-se uma das práticas essenciais dos Estados contemporâneos, inclusive dos chamados democráticos.

Diante do incessante avanço do que foi definido como “uma guerra civil mundial”, o estado de exceção tende cada vez mais a se apresentar como o paradigma de governo dominante na política contemporânea. Esse deslocamento de uma medida provisória e excepcional para uma técnica de governo ameaça transformar radicalmente – e, de fato, já transformou de modo muito perceptível – a estrutura e o sentido da distinção tradicional entre os diversos tipos de constituição. O estado de exceção apresenta-se, nessa perspectiva, como um patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo (AGAMBEN, 2007, p. 13).

O emprego do terrorismo também traria outro desdobramento político secundário: o reconhecimento, por parte do Estado, daquele grupo como um interlocutor válido. A recorrência de ações terroristas invariavelmente levaria a uma interação com o Estado a que se opõe, tendendo a aumentar com o passar do tempo. A realização de negociações entre Estado e grupo terrorista marcaria este reconhecimento. Este seria o caso do Hizbollah, que, em 2000, estabeleceu contatos com o governo de Israel para a libertação de prisioneiros de ambos os lados, conforme declaração do então Chefe das Forças Armadas de Israel Shaoul Mofaz11. Mariano Bartolomé descreve como se daria este processo:

Seja qual for a finalidade política de uma organização terrorista, em todos os casos se cumpre o que Nicholson denominou como seu “ciclo de vida”. Neste ciclo, o grupo incrementa paulatinamente suas capacidades, expressas em ações, enquanto simultaneamente eleva sua condenação por parte das autoridades. Em certo ponto, sua mesma efetividade transforma a condenação das autoridades em um tácito reconhecimento da organização como interlocutor válido com quem negociar; desta maneira, o grupo terrorista se legitima através de um meio alternativo ao de outro ator político: sua capacidade de exercer violência (BARTOLOMÉ, 2006, p. 309- 310, tradução nossa).

Esta perspectiva pode ser percebida na postura adotada pela Al Qaeda, ao buscar ser apresentada como a legítima representante dos muçulmanos: “Eu disse que a batalha não é entre a organização Al Qaeda e o mundo cruzado. A batalha é entre o Islã – entre o povo do Islã – e o mundo dos cruzados” (LADEN, 2001a, tradução nossa).