• Nenhum resultado encontrado

A FOME QUE TINHA ANTIGAMENTE, ESSA DEUS NUM DEIXA ENTRAR MAIS ―Nós já sofremos demais Já tá o fim do sofrimento‖, disse Rita ao afirmar com muito

VOZ E LIBERDADE KALUNGA

3.7. A FOME QUE TINHA ANTIGAMENTE, ESSA DEUS NUM DEIXA ENTRAR MAIS ―Nós já sofremos demais Já tá o fim do sofrimento‖, disse Rita ao afirmar com muito

alívio que a alimentação diária é garantida em sua casa. Ela diz que não deixa sua mãe nem seus filhos sem verdura e, de vez em quando, tem uma carne.

Ela diz que, no passado, quando moravam no Vão do Moleque, ela chegou a passar três dias deitada em uma cama por não ter o que comer. Às vezes quando estavam com muita fome, ela e sua família comiam coco do cerrado até que arrumassem comida. ―Às vezes a gente já chegou a comer o fubá do coco, que é comida horrível para a gente comer. A gente come se não tiver outra solução para não morrer de fome.‖

Perguntei a ela se hoje no Vão do Moleque alguém ainda vive assim, e ela afirmou que não, pois quem não tem salário, tem o Bolsa Família, ou consegue alguma renda do que planta, minimamente, e os idosos recebem a aposentadoria rural: ―Já ninguém tem as dificuldades que tinha antes de sobrevivência. Que era difícil era, muito difícil. Eu cheguei muitas vezes a chorar de fome. Por que a fome dói‖.

Na maioria das casas visitadas, via-se plantação de milho, abóbora e de mandioca, deve-se considerar que o trabalho de campo ocorreu em época de chuva, nos meses de fevereiro e março. Nessa época a disposição de verduras e cereais cultivados é naturalmente maior. A renda advinda do trabalho ou de benefícios da seguridade social, como o Bolsa Família e a aposentadoria, é utilizada em grande parte para a compra de arroz, feijão, macarrão, óleo, sal, café e açúcar, em especial na época da seca. A produção, no entanto, não é suficiente para gerar renda.

Os vãos da serras são os lugares da roça. Tanto os Kalunga de Monte Alegre, como de Teresina e Cavalcante produzem nos vãos, mas as áreas são de produção individual - cada família sabe em qual canto pode produzir, é ―hereditário‖, segundo Seu Cirilo. Os vãos estão próximos aos rios, o que deixa a terra mais úmida e própria para o plantio.

A agricultura e pecuária são basicamente de subsistência. Cada qual produz o seu, sem organização coletiva. Houve relatos por moradores do Engenho II e do Vão do Moleque de tentativas de vender seus produtos para a prefeitura por meio do Programa de Aquisição de

Alimentos29. Porém, em todos os casos, foram relatadas dificuldades de entrega dos produtos por falta de transporte e de recebimento do pagamento.

No entanto, grande parte dos Kalunga entrevistados desconhece o Programa de Aquisição de Alimentos. A produção agrícola da maior parte dos Kalunga do Vão de Almas é a mandioca. Mas também produzem arroz, milho, feijão e abóbora. Porém esses últimos produtos apenas para sobrevivência de suas famílias e animais. Da mandioca, eles produzem farinha e tentam vender nos mercados da cidade com valor de R$ 3 a R$ 5 por quilo. No entanto, como todos produzem mandioca e fazem farinha, a oferta acaba ficando maior que a demanda e pouco lucro se consegue.

Nas entrevistas, a exceção de Seu Cirilo, não encontrei quem tivesse conhecimento sobre os programas governamentais de inclusão produtiva rural: Programa Cisternas, Programa de Aquisição de Alimentos, Fomento, Assistência Técnica Rural, ou qualquer outro programa de Segurança Alimentar.

Seu Zezinho inclusive sugeriu que o Governo comprasse a produção deles e entregasse para os hospitais, para pessoas que precisam e escolas. Quando eu disse a ele que esse programa existia, que se chamava Programa de Aquisição de Alimentos, seus olhos vibraram. Ele não conseguia acreditar que o Governo comprava alimentos de pequenos produtores e que eles não sabiam disso: ―Se fosse uma prefeitura que quisesse ajudar a comunidade e comprasse os alimentos da gente, a gente podia até comprar uma placa solar, puxar uma água [...]‖

A única renda segura e certa da família de Seu Zezinho é o benefício do Programa Bolsa Família. Segundo Seu Zezinho, é a única política pública que eles viram chegar no Vão de Almas. ―Esse é garantido‖, diz ele. O Bolsa Família, apesar de ser um benefício de baixo de valor, é o recurso que permite que eles se programem.

29O Programa compra alimentos produzidos pela agricultura familiar, com dispensa de licitação, e os destina às pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional e àquelas atendidas pela rede socioassistencial, pelos equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional e pela rede pública e filantrópica de ensino

.

(Fonte: http://www.mds.gov.br/segurancaalimentar/aquisicao-e-comercializacao-da-agricultura-familiar)

Segundo Dona Titinha, quando seu marido busca o dinheiro do Bolsa Família na cidade, ele compra alguns alimentos que eles não produzem. Ela relatou que o dinheiro do Bolsa Família é importante para a alimentação em especial na época da seca, quando não conseguem tirar o seu sustento da terra. Ela diz que ―é pouco, mas já ajuda demais todo mundo. Ninguém mais passa fome no Vão de Almas.‖

Mas a comida comprada é vista com desconfiança quanto à sua qualidade. Com todos que conversei sobre a qualidade da alimentação, ouvi reclamação sobre os venenos colocados nas verduras, frutas, cereais e até mesmo na carne que eles compram. Rita disse que as comidas que eles plantam são as únicas que eles comem sem veneno: ―Acho que hoje nós não temos mais segurança de nossa vida.‖

Dona Eva, que planta mandioca, milho e cria galinhas para seu sustento e de seus netos, também alertou para o cuidado que se deve tomar com a comida comprada por causa do veneno. Seu Albertino confirmou: ―[...] a comida que a gente compra na cidade vem tudo envenenado‖. Mas seu Albertino se alegrou ao dizer que ―a fome que tinha antigamente, essa Deus num deixa entrar mais‖.

Eu tive a chance de me alimentar nas casas de Dona Aimiram e de Dona Titinha. Cheguei na casa de Dona Aimiram, sem avisar previamente, no horário do almoço e fui convidada a almoçar: frango com açafrão, arroz, abóbora, feijão, quiabo, e pimenta feita por ela mesma. Ainda, de sobremesa, comi goiabas que sua neta apanhou no pé. A alimentação era farta e de boa qualidade.

Na casa de Titinha, ela relatou que o frango criado em seu quintal e o peixe pescado no rio ao lado de sua casa são as principais carnes consumidas, uma vez que eles não possuem geladeira para armazenar carnes, caso comprem na cidade, e não fazem criação de porcos. Quase não há consumo de verduras, a não ser a abóbora na época de chuva, mas a presença de farinha, arroz e feijão é certa, segundo ela.