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3 PERCURSO METODOLÓGICO

3.1 Tipo e descrição geral da pesquisa

A pesquisa em administração procura prever e explicar todos os fenômenos que, tomados em conjunto, compreende o ambiente administrativo sempre em mutação. Assim, a pesquisa em administração é uma função de busca da verdade que reúne, analisa, interpreta e relata informações de modo que as decisões administrativas se tornem mais eficazes. (HAIR JR et al, 2005).

Nos últimos dez anos, o volume de informações disponíveis para os indivíduos que devem tomar decisões cresceu virtuosamente e continuará a crescer no futuro. (HAIR JR et al, 2005). Seja por limitações de tecnologia ou algum grau de negligência, muitas informações gerenciais valiosas simplesmente desapareceram das instituições. Muitas vezes não são coletadas nem registradas adequadamente e outras vezes são descartadas por não haver um modo eficiente e menos dispendioso de mantê-las.

No entanto, atualmente as instituições não podem mais usar o argumento de que o custo para se armazenar informação são muito elevados. Os meios que a tecnologia da informação disponibiliza são baratos e extremamente potentes em termos de armazenamento. Vários

softwares (Dropbox, Google-Drive, entre outros) foram desenvolvidos nos últimos anos para

armazenar documentos em “nuvem” (servidores de alta capacidade e confiabilidade). Portanto, acredita-se que, se a coleta, a guarda e o descarte dessas informações não foram ou não são feitos a contento, isso decorre mais de carência de organização do que propriamente da falta de recursos. Quando disponíveis, as informações podem ser analisadas e entendidas por meio de

estatística simples. Em outros casos são necessários instrumentos mais complexos para transformá-las em inteligência administrativa (HAIR JR et al, 2005).

De acordo com Martins e Theóphilo (2009, p. 42-44):

“as pesquisas funcionalistas têm suas bases no positivismo, estando suas raízes na Psicologia e na Antropologia. Os funcionalistas apoiam-se em esquemas básicos de processos de socialização, admitindo assim que os fenômenos acontecem dentro de formas invariantes, devido à estrutura funcional básica geral e comum. São apoiadas por técnicas descritivas. Tais estudos são mais presentes nas investigações que envolvem análises e avaliações de papéis, funcionamento de organizações, avaliação, planejamento, coordenação, expectativas, entre outras. A causalidade é concebida como explicação da causa final, da intencionalidade das ações, a explicação pelas consequências, do para quê? dos fenômenos ou da lógica entre proposta e ação, plano e execução, objetivo e atividade, teoria e prática, relação funcional entre o todo e as partes”.

No caso em tela, ao se procurar esboçar a trajetória das ações de capacitação, treinamento e desenvolvimento destinadas aos servidores técnico-administrativos da Universidade de Brasília (UnB), a pesquisa ganhou um contorno histórico e o enfoque qualitativo mostrou-se como o mais apropriado para a pesquisa. Assim, adotou-se o ciclo proposto na metodologia utilizando o processo qualitativo (Figura 1). Nele, o autor propõe 9 fases (etapas) e define que:

A pesquisa qualitativa dá profundidade aos dados, a dispersão, a riqueza interpretativa, a contextualização do ambiente, os detalhes e as experiências únicas. Também oferece um ponto de vista ‘recente, natural e holístico’ dos fenômenos, assim como flexibilidade (SAMPIERI ET AL, 2006).

Figura 1: processo qualitativo

Fonte: Sampieri et al (2006)

Danhke (1989) divide os tipos de pesquisas em: exploratórios, descritivos, correlacionais e explicativos. Na prática, entretanto, qualquer estudo pode incluir elementos de um desses quatro tipos de pesquisa. Considera-se que “os estudos exploratórios servem para preparar o campo e, em geral antecedem os outros três tipos” e ainda que “os estudos descritivos, em geral, fundamentam a pesquisa”. Realizam-se estudos exploratórios normalmente quando o objetivo é examinar um tema ou problema de pesquisa ainda pouco estudado, do qual se tem muitas dúvidas ou que não tenha sido abordado antes (DANHKE, 1989). Embora o tema “capacitação no serviço público” seja frequentemente investigado e, apesar de haver vasta bibliografia sobre o assunto, a abordagem intrínseca da política de capacitação da força de trabalho da Universidade de Brasília não parece ter sido suficientemente debatida.

De acordo com Sampieri et al (2006):

[...] os estudos exploratórios em poucas ocasiões constituem um fim em si mesmos, geralmente determinam tendência, identificam áreas, ambientes, contextos e situações de estudo, relações potenciais entre variáveis; ou estabelecem o “tom” de pesquisas posteriores mais elaboradas e rigorosas. Caracterizam-se por terem maior flexibilidade na sua metodologia, em comparação com os estudos descritivos, correlacionais, e são mais amplos e dispersos que esses outros três tipos.

“Nos estudos descritivos, o objetivo do pesquisador consiste em descrever situações, acontecimentos e feitos, isto é, dizer como é e como se manifesta determinado fenômeno. Os estudos descritivos procuram especificar as propriedades, as características e os perfis importantes de pessoas, grupos, comunidades ou qualquer outro fenômeno que se submeta à análise”.

Assim, no presente estudo descritivo qualitativo selecionou-se uma série de questões e coletaram-se informações sobre cada uma delas, para posteriormente descrever o objeto da pesquisa.

Por tratar-se também de pesquisa não experimental, que, segundo Sampieri et al (2006, p. 223), “é aquela que se realiza sem manipular deliberadamente as variáveis”, durante a investigação não se fizeram variar intencionalmente as variáveis independentes. O que foi feito foi limitar-se a observar os fenômenos da forma como se produziram em seu ambiente natural, para depois analisá-los. Kelinger (2002, p. 420) defende que “na pesquisa não experimental não é possível manipular as variáveis ou distribuir aleatoriamente os participantes ou tratamentos”. Ou seja, não se expõe os indivíduos. Eles são observados diretamente em seu ambiente natural. Esse foi o procedimento adotado na fase de imersão no campo, desenvolvido na Coordenadoria de Capacitação (PROCAP) do Decanato de Gestão de Pessoas (DGP) da Universidade de Brasília (UnB).

Não foram construídas situações, foram observadas situações já existentes. No relato desenvolvido nesta pesquisa – evolução da política de capacitação da UnB - as variáveis independentes já haviam ocorrido e não era possível manipulá-las. Não se tinha controle direto sobre elas nem se podia influí-las sobre, porque já haviam acontecido, assim como os seus efeitos.

A ciência metodológica entende que analisar as mudanças através do tempo de um evento, uma comunidade, um fenômeno, uma situação ou um contexto compreende uma dimensão temporal. Assim, como é recomendado neste tipo de dimensão, utilizou-se o modelo longitudinal (SAMPIERI et al, 2006, grifo nosso). Como o interesse da pesquisa foi o de analisar as mudanças ao longo dos últimos 20 anos em determinadas categorias, conceitos, acontecimentos, eventos, variáveis, contextos relacionados à política de capacitação dos servidores da UnB e ainda analisar as relações entre esses elementos, o modelo longitudinal (Figura 2) serviu ao que este estudo se propunha.

Figura 2: representação do modelo longitudinal de tendência

Fonte: Sampieri et al (2006)

Nos modelos longitudinais, o pesquisador coleta dados ao longo do tempo em pontos ou períodos, para fazer inferências a respeito da mudança, seus determinantes e consequências (SAMPIERI et al, 2006). Embora seja mais comum se especificar antecipadamente esses pontos ou períodos nos enfoques quantitativos, para o que se pretendeu, foi importante delimitar um escopo temporal (20 anos) para a coleta e análise de dados.

Tem-se ainda que os modelos longitudinais de tendência analisam mudanças ao longo do tempo dentro de uma população em geral ou toma-se uma amostra dela, sem, no entanto, subdividir a população em grupos específicos (cortes). Neste estudo, a área de concentração foram todos os indivíduos que estão (ou estiveram) lotados na Universidade de Brasília de 1995 a 2014. Não se restringiu cortes, por exemplo, de faixa etária, cargo ou antiguidade.

As características extraídas da literatura especializada acima descritas foram, portanto, as que mais se aproximaram do objetivo de se discutir a trajetória dos esforços que foram envidados para a elaboração, implementação e avaliação da Política de Capacitação da força de trabalho da Universidade de Brasília (UnB), desde o advento do Plano Diretor da Reforma em 1995, até os dias atuais. Corroborou para tanto o fato de que as pesquisas qualitativas normalmente estão associadas com os estudos exploratórios (SELLTIZ ET AL, 1980).

O presente estudo justifica-se como exploratório pela escassez de publicações relativas à política de capacitação nas instituições federais de ensino superior do país. Longe de qualquer ineditismo na abordagem do tema, foram observadas certas lacunas na literatura a respeito das políticas de capacitação a partir do Plano Diretor de Reforma do Aparelho do Estado de 1995.

Um primeiro esforço de pesquisa identificou nas falas dos entrevistados, variáveis consideradas dificultadoras do processo de implementação da política de desenvolvimento de pessoas na Universidade de Brasília (UnB): escassez de recursos financeiros; falta de indicadores; ausência de registros mais consistentes sobre o desenvolvimento das ações, que dificultaram a descrição dos processos; equipes de capacitação reduzidas ao longo do período,

entre outras. Entretanto, a exploração foi mais direcionada ao processo de capacitação em si. Procurou-se conhecer efetivamente como acontecem processos gerais de realização das ações previstas nos portfólios. E de que forma a equipe se reporta às direções no advento das dificuldades que se apresentam. E ainda, como as direções (e o Decanato) se reportam à Administração Superior para sanar os entraves.

A presente pesquisa teve, portanto, enfoque funcionalista e caracterizado como estudo qualitativo, exploratório e descritivo, que utilizou um modelo longitudinal de tendência.