2.5 As Prisões no Brasil
2.5.1 Tipos de Pena no Brasil
O Direito penal comporta dois tipos de sanção: a pena (privativa de liberdade, restritiva de direitos e multa) e a medida de segurança (detentiva ou restritiva), sendo que este trabalho ficará restrito aos estudos dos tipos de pena
a) Pena de morte
A pena de morte é uma forma de punição não utilizada desde o século XIX no Brasil. Seu último uso para crimes civis foi em 1876 e não é utilizada oficialmente desde a Proclamação da República em 1889. Historicamente, o Brasil é o segundo país das Américas a abolir a pena de morte como forma de punição para crimes comuns, precedido pela Costa Rica, que aboliu a prática em 1859.
Apesar de ser abolida, ainda é prevista para crimes militares cometidos em guerra, de acordo com o artigo 5º, XLVII, "a", da Constituição Federal.
Excluída a pena de morte, a lei oferta várias outras espécies a serem adotadas. Podem elas ser privativas de liberdade, restritivas de direitos e de multa. O maior número de penas é de reclusão e detenção, estando a revelar o domínio das penas privativas de liberdade no sistema penal brasileiro.
b) Pena privativa de liberdade
As penas privativas de liberdade podem ser: reclusão, detenção e prisão simples. Todas essas espécies são conhecidas como pena de prisão, apesar de haver diferenças entre elas.
A pena de prisão simples é a mais branda dentre as três espécies, destinando-se, somente às contravenções penais, não podendo ser cumprida, portanto, em regime fechado, tal espécie de pena privativa de liberdade pode ser cumprida somente em regime semiaberto e aberto. Tal fato se dá por ser incompatível incluir um condenado por contravenção penal no mesmo ambiente de criminosos. A casa de albergado é a unidade onde condenados devem cumprir o regime aberto, segundo a lei.
Na verdade, no regime aberto, o condenado deveria passar o dia trabalhando livremente e se recolher durante a noite para um estabelecimento conhecido como Casa do Albergado, mas como há pouquíssimas Casas de Albergado em nosso país, é concedido a prisão domiciliar.
A crítica que se faz sobre o regime aberto, é que, por falta de estrutura, tal regime de cumprimento de pena equipara-se a quase uma absolvição com efeitos penais, pois a única coisa que acontece é o nome do condenado ser inscrito no rol dos culpados e ficar estabelecida reincidência caso o acusado cometa um outro crime.
Se a pena de prisão simples é para a contravenção, a pena de reclusão é prevista para os crimes mais graves, tais como crimes de homicídio doloso, roubo, furto ou tráfico de drogas, etc. Ela é cumprida inicialmente em regime fechado, semiaberto ou aberto, sendo vedado o pagamento de fiança caso o crime possua pena superior a dois anos, conforme preceitua o artigo 323, inciso I, do Código Penal.
A pena de reclusão pode ser cumprida no regime fechado, semiaberto ou aberto, e normalmente é cumprida em estabelecimentos de segurança máxima ou média.
O que se depreende é que a pessoa punida com reclusão precisa ser retirada do convívio social, como o próprio nome da pena indica, diferentemente
do que ocorre com a detenção, onde a pessoa precisa ser detida em relação a suas práticas criminosas.
Já a pena de detenção está reservada para os crimes mais leves e não admite que o início do cumprimento seja no regime fechado. Em regra, a detenção é cumprida no regime semiaberto, em estabelecimentos menos rigorosos como colônias agrícolas, industriais ou similares, ou no regime aberto, nas casas de albergado ou estabelecimento adequados.
Nos casos de detenção, caso o réu transgrida as regras impostas, ele poderá ser conduzido ao regime fechado, conforme preconiza o artigo 33 do CP. Por fim, no sistema penal brasileiro, a determinação da pena serve para indicar a sociedade a gravidade do delito praticado, sendo que as penas de reclusão e detenção são medidas de restrição de liberdade, e são previstas como pena para crimes. A pena de reclusão admite o regime inicial fechado; A detenção não admite o regime inicial fechado; e a prisão simples não admite o regime fechado em hipótese alguma.
C) Pena restritiva de direito
Na pena de restrição de direitos, a decepção afasta qualquer boa intenção na diminuição da população carcerária, pois a mesma não é aplicada diretamente. Isto porque ela é aplicada somente em substituição à pena privativa de liberdade.
A pena restritiva de direitos é uma das 3 espécies de penas estabelecidas pelo Código Penal, conforme texto do seu artigo 32, a serem aplicadas ao condenado. Também são chamadas de penas alternativas, pois são uma alternativa à prisão, em vez de ficarem encarcerados, os condenados sofrerão limitações em alguns direitos como forma de cumprir a pena.
O artigo 43 do mencionado diploma legal descreve as possibilidades de penas restritivas como: prestação pecuniária, perda de bens e valores, limitação de fim de semana, prestação de serviços à comunidade, e interdição de direitos.
Deve ser destacado que o artigo 44 determina que as penas restritivas substituem as privativas de liberdade quando os requisitos forem preenchidos. Assim, não é qualquer pena privativa de liberdade que pode ser substituída, bem
como também não é decisão discricionária do magistrado, se ele constatar a presença dos requisitos, deve aplicar a substituição. Segundo o mencionado artigo, a pena deve ser substituída quando: 1) não houve violência ou ameaça no cometimento do crime, a pena aplicada não for maior do que 4 anos, ou para crimes culposos independente da pena; 2) o réu não for reincidente em crime doloso; e 3) o réu não tiver maus antecedentes.
Em relação aos casos de violência doméstica o entendimento que prevalece no Superior Tribunal de Justiça é que mesmo que a pena seja inferior a 4 anos, não é possível a substituição por penas restritivas de direitos. Tal entendimento foi objeto do enunciado de Súmula nº 588 do Superior Tribunal de Justiça.
Por fim, no caso de descumprimento injustificado da restrição a pena restritiva de direito se converte em privativa de liberdade. Eis a dicção do artigo 44, § 4º da CP:
A pena restritiva de direitos converte-se em privativa de liberdade quando ocorrer o descumprimento injustificado da restrição imposta. No cálculo da pena privativa de liberdade a executar será deduzido o tempo cumprido da pena restritiva de direitos, respeitado o saldo mínimo de trinta dias de detenção ou reclusão.
Já no parágrafo 5º é preceituado que
Sobrevindo condenação a pena privativa de liberdade, por outro crime, o juiz da execução penal decidirá sobre a conversão, podendo deixar de aplicá-la se for possível ao condenado cumprir a pena substitutiva anterior.
d) Pena de multa
As penas de multa são sempre combinadas com a pena restritiva da liberdade. Também conhecida como pena pecuniária, é uma sanção penal (não é tributo), consistente na imposição ao condenado da obrigação de pagar ao fundo penitenciário determinada quantia em dinheiro, calculada na forma de dias-multa, atingindo o patrimônio do condenado. Não se pode confundir com tributo.
Multa é uma espécie de pena por meio da qual o condenado fica
Penitenciário. O pagamento da pena de multa é fixada na própria sentença condenatória. Depois que a sentença transitar em julgado, o condenado terá um prazo máximo de 10 dias para pagar a multa imposta (artigo 50 do CP).
A pena de multa pode ser prevista como punição única, a exemplo do que ocorre na Lei de Contravenções Penais (Decreto-Lei n. 3688/41), ou pode ser cominada e aplicada cumulativamente com a pena privativa de liberdade, a exemplo do artigo 155 do Código Penal, quando trata do crime de furto, prevendo em seu preceito secundário a pena de reclusão de 1 a 4 anos e multa, ou ainda de forma alternativa, com a pena de prisão, a exemplo do crime de perigo de contágio venéreo, previsto no artigo 130, cominando pena de detenção, de três meses a um ano, ou multa.
Se anteriormente, no caso de descumprimento, a pena de multa era convertida em pena de detenção, com a Lei n. 9.268/96 este panorama mudou. Consta no artigo 51 do Código Penal, com alteração feita pela Lei n. 9.268/96 que:
Transitada em julgado a sentença condenatória, a multa será considerada dívida de valor, aplicando-se-lhes as normas da legislação relativa à dívida ativa da Fazenda Pública, inclusive no que concerne às causas interruptivas e suspensivas da prescrição.
Desta forma a pena de multa não é mais convertida em pena de detenção. Isso foi importante, pois era comum as pessoas mais pobres cumprirem penas maiores, tendo em vista a conversão em pena de detenção.
Por outro lado, com a Lei n. 9.268/96, a atribuição para execução da multa passou a ser da Fazenda Pública, através da Procuradoria Fiscal, deixando de ser atribuição do Ministério Público, apesar de opiniões em contrário, no sentido de que seria da competência do Ministério Público que se utilizaria da Lei n° 6.830/80.
Insta mencionar que mesmo sendo considerada dívida de valor, a multa não perdeu a natureza de sanção penal, sendo que não há como retirar do Ministério Público essa atribuição. Ademais, a pena imposta na condenação só pode ser extinta após o cumprimento da pena privativa de liberdade e o pagamento da dívida.
Atualmente o entendimento que prevalece é que o Ministério Público possui legitimidade para propor a cobrança de multa decorrente de sentença penal condenatória transitada em julgado, com a possibilidade subsidiária de cobrança pela Fazenda Pública. Tal multa é executada pelo Ministério Público, na vara de execução penal, aplicando-se a Lei de Execuções Penais.
No caso de inércia do Ministério Público por mais de 90 dias após ser devidamente intimado, a Fazenda Pública executará, na vara de execuções fiscais, aplicando-se a Lei n. 6.830/80. Este novo entendimento do STF é contrário ao enunciado de súmula 521 do STJ que diz: “Súmula 521-STJ: A legitimidade para a execução fiscal de multa pendente de pagamento imposta em sentença condenatória é exclusiva da Procuradoria da Fazenda Pública.”
Com isso fica superada e deverá ser cancelada a Súmula 521-STJ. É possível que o condenado requeira o parcelamento da multa em prestações mensais, iguais e sucessivas, podendo o juiz autorizar, desde que as circunstâncias justifiquem (ex: réu muito pobre, multa elevadíssima etc.). O parcelamento deverá ser feito antes de esgotado o prazo de 10 dias. Antes de decidir, o magistrado poderá realizar diligências para saber se o réu é pobre, se a multa é elevada para os padrões do réu, verificando a real situação econômica do condenado e, ouvido o Ministério Público, fixará o número de prestações (artigo 169, § 1º da LEP).
Lógico e evidente que se a condição econômica do réu melhorar, o Juiz, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, poderá revogar o benefício (artigo 169, § 2º da LEP).