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4.2 Trabalhando com o cuidado

4.2.2 Trabalhando com o desconhecido

Apresentam-se aqui os relatos das participantes relacionados ao seu desconhecimento frente ao trabalho do cuidado da criança institucionalizada. Este é relatado pelas participantes como algo diferente do vivenciado no seu cotidiano, sendo desconhecido em diversos âmbitos, em especial pela situação de vulnerabilidade e fragilidade das crianças. O desconhecido é tanto do cuidado de higiene e alimentação da criança, não experenciado anteriormente pela cuidadora; quanto do contexto do qual a criança provem, não sabendo que hábitos ela tinha e qual a composição de sua família.

Por outro lado, o motivo que trouxe a criança para a instituição também é desconhecido, muitas vezes, o que pode interferir no cuidado oferecido pelas participantes:

De primeiro, foi uma coisa [...] bem diferente, tanto que eu quando eu cheguei aqui eu não sabia nem [...] o que eu tinha que fazer, quando eu cheguei aqui assim eu vi a criança assim, meu Deus, naquela situação [...]. O que veio levar elas a estar aqui, foi uma coisa que depois eu fui sabendo, foi com o tempo que eu fui sabendo [...] foi bem emocionante [...] porque eu não sabia, eu não sabia nada [...] (C2).

Na verdade a [I6] mesmo a gente não sabe o que que ela tem. Ela tem uma doença que não pode deixar ela se bater ou cair, porque ela pode ter uma hemorragia, e tem aquelas coceiras que disseram que não é alergia, mas a gente não sabe o que ela tem (C12).

C2 aponta que quando chegou à instituição não sabia como agir para prestar o cuidado às crianças, nesse contexto, destaca-se a importância de uma capacitação inicial para que as cuidadoras consigam atender às demandas do cuidado da criança institucionalizada. As cuidadoras apontaram em suas falas a necessidade de conhecer a realidade da criança para oferecer um cuidado mais adequado a cada situação, história da criança.

[...] às vezes, tem coisas que a gente não sabe, que não são passadas para nós. Então, eu acho que isso é negativo (C3).

[...] pois é, isso tudo para mim é novo, quando eu entrei aqui eu desconhecia essa realidade, vamos botar, cruel, porque uma coisa é tu

conviver com as tuas crianças em casa, outra é com crianças que tu nunca viu, crianças com problemas, históricos de vida bem diferentes do teu [...] (C6).

[...] a gente acha é que deveríamos saber um pouco mais da vida da criança antes dela chegar aqui, porque de repente a gente faz alguma situação, tem determinada criança que não gosta que a gente coloque ela no trocador, a gente não sabe se de repente algum tempo atrás ela não sofreu alguma coisa que ela relembra. Então, essa seria uma parte importante para a gente saber o que não fazer com determinada criança (C9).

[...] tu não sabe realmente o quadro da criança, no nosso horário a gente entra e não sabe de nada. A gente não vê ninguém de supervisora, não tem psicóloga, não tem ninguém que possa te dar uma informação da criança. Então, isso faz falta para gente poder sabe lidar com a criança, até a gente entender para poder lidar com a criança, é complicado essa parte assim de trabalhar com criança de abrigo é complicado por isso (C15).

O conhecimento acerca da história da criança, conforme as cuidadoras, favoreceria o cuidado prestado, uma vez que sabendo de situações problemáticas para criança, a cuidadora poderia evitá-las. A situação é ainda mais complexa no turno da noite, pois as cuidadoras não têm contato com a equipe técnica e com a coordenação do serviço e, assim, não recebem informações sobre as crianças, nem tem a possibilidade de esclarecer suas dúvidas quanto a melhor forma de prestar o cuidado.

O fornecimento de informações acerca da história de vida da criança e das condições que levaram a sua institucionalização é definida pelo CONANDA, CNAS (BRASIL, 2009) como pressuposto para a prestação do cuidado.

A transmissão pelos técnicos aos educadores/cuidadores ou família acolhedora de informações necessárias ao atendimento das crianças e adolescentes deve estar pautada em princípios éticos, os quais também devem pautar a postura dos educadores/cuidadores (BRASIL, 2009, p. 47).

Para Lima (2012) as cuidadoras se queixam de que as informações sobre as crianças não são compartilhadas com elas, mesmo que elas sejam responsáveis pelos cuidados dessas 24hs por dia, destacando a falta de um trabalho cooperativo, dentre as dificuldades com a equipe técnica.

Além de desconhecer a história da criança, o que interfere no cuidado prestado a elas, algumas cuidadoras também relataram o seu desconhecimento em como realizar os cuidados de higiene da criança como dificultador.

[...] isso aqui é tudo muito novo para mim, embora eu já sabia trocar fralda, [...] quando entrei aqui tinha que dar banho em um bebê recém-nascido, porque muitos vinham já direto para cá com umbigo ainda. Quando eu entrei aqui eu disse, eu não dou banho em bebê com umbigo porque eu tenho medo, [...], mas ai chegou um momento que eu disse ‘não, eu tenho que perder esse medo e dar’ (C6).

Só me mandaram para cá e já começamos no outro dia, e eu nunca tinha trocado uma fralda numa criança, não tinha contato nenhum com bebê, jogada no meio (C12).

A falta de capacitação para o desempenho dos cuidados básicos reflete-se nessas falas, sendo que, essa falta interfere na realização das atividades de higiene, fragilizando a cuidadora, que se sente ‘jogada no meio’. Isso pode refletir uma sensação de desamparo em que a cuidadora não possui experiência nem conhecimento para o desempenho do cuidado.

Conforme o CONANDA, CNAS (BRASIL, 2009, p. 75) é necessário investir na capacitação dos cuidadores, assim como de toda a equipe que atua na instituição de acolhimento, para que seja possível oferecer um cuidado de qualidade, já que o cuidado da criança institucionalizada é uma tarefa complexa, que exige mais do que um “espírito de solidariedade, afeto e boa vontade, mas uma equipe com conhecimento técnico adequado”.

A capacitação inicial prevê a inserção do profissional no serviço e na equipe existente, devendo-se permitir que ele acompanhe como observador, a execução das atividades rotineiras e, posteriormente, se realize com ele discussões sobre o que foi observado (BRASIL, 2009).

Antes de assumir suas funções, é importante que todos os profissionais acompanhem como auxiliar a rotina da instituição, para poder gradativamente se apropriar da função que lhe é devida. O educador/cuidador deverá passar por um período mínimo de 80 horas acompanhando, como auxiliar, os diferentes momentos da rotina institucional, sempre sob supervisão de um educador/cuidador experiente e da equipe técnica (BRASIL, 2009, p. 59).

Além da capacitação, o CONANDA, CNAS (BRASIL, 2009) prevê ainda um acompanhamento sistemático dos profissionais, com capacitações continuadas, visando melhorar o desempenho dos cuidadores e a qualidade do atendimento prestado em prol do bem-estar das crianças abrigadas.

O desconhecimento acerca dos hábitos alimentares da criança anteriores à institucionalização, ou seja, dos hábitos que possuía em sua família, podem interferir no cuidado da alimentação, conforme afirma C13:

[...] quando eu cheguei aqui era muito complicado [...] tem os horários tudo, mas tu não sabe se a criança toma leite com açúcar, se essa criança não toma leite com açúcar, e ai é bem complicado tu tem que ir meio que jogando, até pegar o jeitinho deles, ou até eles se adaptarem ao teu jeito (C13).

Na fala de C13 pode-se observar que é necessário que a cuidadora se adapte ao jeito da criança, ou que a criança se adapte ao jeito da cuidadora, sendo

necessário testar formas de oferecer o cuidado, visando adequá-los a realidade de cada criança.

Com base no exposto, acredita-se ser indispensável realizar capacitações, tanto iniciais quanto continuadas, para que as cuidadoras consigam elaborar formas adequadas de atender às necessidades das crianças. Além disso, reuniões semanais ou quinzenais entre as cuidadoras e a equipe técnica favoreceriam o compartilhamento de informações e a elaboração de estratégias para um cuidado mais efetivo.