3.4. IMPLEMENTAÇÃO DO BIM
3.4.3. Trabalho colaborativo
Um empreendimento típico da indústria da construção envolve diversos e diferentes agentes e organizações, dos quais muitos atuam em fases diferentes do empreendimento, uma vez que apenas partes dos processos são realizadas dentro de uma mesma empresa. Desta forma, é importante que a equipe responsável pela implementação do BIM busque formas eficazes de comunicação e informação entre os diversos envolvidos.
Assim, conforme a CBIC (2016, p. 26),
Além de decidir quem fará o quê, em quais momentos e seguindo qual sequenciamento, a equipe responsável pela implementação BIM precisará identificar e detalhar todas as interfaces de informações que existirão entre os vários agentes envolvidos nos fluxos de trabalho previstos.
O detalhamento deverá incluir não apenas a listagem das próprias informações que serão trocadas, mas também, e especialmente, a maneira como as trocas de dados serão realizadas. Além disso, os objetivos de cada uma das principais fases dos processos de trabalho previstos precisarão ser considerados para o planejamento e o
detalhamento das interfaces de intercâmbio, assim como os softwares e soluções que serão utilizados por cada uma das partes envolvidas.
Nesta fase, é importante que sejam gerados regras e diretrizes de modelagem, com o intuito de orientar o desenvolvimento dos trabalhos. Ressalta-se que outro papel da equipe de implementação do BIM é assegurar que todos os participantes estejam cientes de tais regras e diretrizes.
3.4.3.1. Interoperabilidade
Como mencionado anteriormente, um empreendimento genérico da indústria da construção envolve diversas pessoas, equipes e empresas. Assim, é indispensável que a organização que está implementando o BIM especifique soluções que garantam a interoperabilidade entre as diversas tecnologias adotadas pelos diferentes envolvidos nas atividades.
Naturalmente, dois softwares desenvolvidos por empresas distintas, ainda que possuam aplicabilidades semelhantes, possuem formatos de arquivos nativos diferentes, incompatíveis, não possibilitando a intercomunicação de seus arquivos com outros concorrentes.
O Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos – IEEE8 define interoperabilidade como sendo a capacidade de dois ou mais sistemas ou componentes trocarem informações e poderem usá-las.
Segundo os manuais de implementação do BIM da CBIC publicados em 2016, os métodos e protocolos de intercâmbio de informações entre softwares BIM são divididos em três grupos, sendo eles:
• Formatos proprietários;
• Formatos públicos para segmentos específicos, como, por exemplo, o CIS/2; • Formatos abertos e públicos, como, no caso, o IFC.
A Figura 15 apresentada as principais características de cada grupo de intercâmbio citados anteriormente.
8 Institute of Electrical and Electronics Engineers do Earth Science Information Partners. Disponível em: <https://www.esipfed.org/background>.
Figura 15 – Descrição de métodos e protocolos de intercâmbio de informações entre softwares BIM
Fonte: Autor (2019).
3.4.3.1. Viabilização do trabalho colaborativo
O volume 3 da coletânea de implementação do BIM publicada pela CBIC no ano de 2016 apresenta regras para a viabilização do trabalho colaborativo BIM, onde a equipe de implementação deve definir claramente as seguintes questões:
a) Definição do projeto de implementação BIM e seu planejamento
• Quais fases do ciclo de vida do empreendimento serão abrangidas pelos fluxos de trabalhos previstos na implementação BIM;
• Quais os casos de usos BIM que serão implantados;
• Quais os objetivos da implementação BIM e a definição clara do que será considerado como sucesso para cada uma das fases dos fluxos de trabalhos previstos;
• Quantas e quais serão as equipes de trabalho envolvidas;
• Níveis de experiência prévia, capacitação e maturidade BIM das equipes envolvidas;
Formato proprietário
•Viabiliza a comunicação entre dois diferentes softwares;
•Específico para os objetivos que foram criados, não funcionando com outros sistemas; •Em geral, proporciona intercâmbio de informações de alta qualidade, pois não precisa considerar configurações externas diferentes daquelas para as quais foi desenvolvido; •Exemplos: DXF, 3DS e SAT.
Formato público
•É um formato "neutro", bastando que os softwares possuam tradutores para interpretar o arquivo em seu formato nativo;
•Viabiliza o intercâmbio de informações entre softwares aparentemente independentes;
•Formato criado para o intercãmbio de informações específicas para o segmento para o qual foi desenvoldido, por exemplo, projeto de estruturas;
•Exemplo: CIS/2.
IFC
•No original: Industry Foundation Classes (Classes da Fundação da Indústria);
•É uma espécie de formato diferente dos formatos nativos entre softwares de empresas diferentes, mas que pode ser interpretado por eles, viabilizando a interoperabilidade; •Orientado para objetos em 3D, aberto, público, neutro, padronizado e suas
especificações são protegidas por copyright; •Desenvolvido pela BuildingSMART.
• Quais os papéis e responsabilidades de cada membro das equipes de trabalho desenvolvidas;
• Quais serão as especificações e as estruturas dos modelos BIM que serão desenvolvidos (descrição dos modelos e das correspondentes intenções de usos); • Que tipos de objetos e bibliotecas BIM admissíveis para uso no desenvolvimento dos modelos de cada disciplina do projeto precisam estar coerentes e coordenados com os casos de usos BIM a serem implantados.
b) Processo de gestão do projeto de implementação BIM
• Qual o escopo, detalhado, do projeto de implementação BIM, com a definição dos principais entregáveis;
• Planejamento do gerenciamento BIM, incluindo a definição de como será realizada a coordenação das diversas disciplinas previstas no desenvolvimento (hierarquia de prioridade das disciplinas, fases e do processo da coordenação, etc.);
• Mapeamento dos processos BIM que serão realizados e também de todos os fluxos de trabalhos previstos;
• Desenvolvimento de manuais de entrega de informações para todas as trocas previstas no mapeamento de processos;
• Procedimentos específicos para o desenvolvimento de trabalho colaborativo (definição das principais fases, precedências mandatórias e desejáveis, responsabilidades e penalidades);
• Definição dos protocolos para o controle da qualidade e para a validação da qualidade dos trabalhos desenvolvidos, incluindo verificação e validação de modelos;
• Dados mínimos, nível de detalhamento, estrutura e especificação dos modelos que serão gerados como entregáveis finais para cada uma das disciplinas (quantos e quais serão os principais entregáveis gerados por cada uma das equipes e disciplinas participantes do projeto).
c) Infraestrutura e suporte para o projeto de implementação BIM
• Quais serão os softwares utilizados, definindo, inclusive, quais versões específicas;
• Qual será a infraestrutura física a ser implantada (hardware, rede, telecom); • Como serão feitos o armazenamento dos arquivos (estrutura das pastas), a
segurança, o controle das diferentes versões dos arquivos e os protocolos para troca de arquivos e informações;
• Como será realizado o suporte técnico de todas as equipes envolvidas no projeto de implementação BIM.
d) Especificações técnicas essenciais para um projeto de implementação BIM • Qual sistema de classificação das informações será utilizado;
• Definições dos processos de modelagem e requisitos específicos (incluindo
templates a serem seguidos e definições de espaços e elementos);
• Quais formatos de arquivos nativos serão utilizados em cada uma das etapas de trabalho e quais formatos de arquivos serão utilizados nas trocas de informações; • Como será avaliada a progressão do desenvolvimento dos trabalhos previstos (métricas para avaliação da progressão das modelagens e definição de etapas, metas e marcos que deverão ser realizados, alcançados e atingidos por cada uma das disciplinas);
• Qual o nível de detalhe e qual o nível de desenvolvimento que deverão ser alcançados (Level of Development – LOD) em cada uma das etapas dos fluxos de trabalho previstos;
• Quais as informações críticas que serão trocadas em cada um dos processos previstos;
• Como serão realizadas a comunicação e as trocas de informações (se haverá ou não um servidor BIM, qual será o sistema operacional utilizado, de que forma serão realizadas as conexões, logins, logs, etc.).
e) Aspectos legais do projeto de implementação BIM
• Definição dos regimes e modalidades das contratações (projeto + concorrência + construção, projeto + construção, taxas de administração, preço global fechado etc.);
• Definição das principais estratégias para cotações de preços, compras e contratações (procurement);
• Regras e definições específicas sobre a propriedade intelectual dos modelos e dos demais entregáveis gerados pelo projeto;
• Questões sobre responsabilidade civil e outras responsabilidades legais específicas;
• Premissas e procedimentos para o gerenciamento de riscos.
3.4.3.2. Diretrizes de modelagem
As diretrizes de modelagem constituem um documento que delineia as regras que viabilizam o trabalho colaborativo. Quanto a isso, a CBIC (2016, p. 29) afirma que se trata de
um documento fundamental para o desenvolvimento de qualquer empreendimento baseado em BIM. Normalmente ele é criado para orientar empresas externas a uma determinada organização (terceiros), contratadas para desenvolver uma parte específica dos trabalhos necessários à viabilização de um empreendimento. Contudo, é um documento tão importante, que se recomenda fortemente a sua geração para todo e qualquer caso de implementação, mesmo naqueles incomuns, em que a maior parte do trabalho seja realizada internamente, dentro de uma única organização.