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TRABALHO DOCENTE: TRABALHO PRODUTIVO E IMPRODUTIVO

TRABALHO DOCENTE E CAPITAL

2. TRABALHO DOCENTE: TRABALHO PRODUTIVO E IMPRODUTIVO

No processo de trabalho em geral, o trabalhador considerado produtivo era aquele que, em sua atividade, transformava objetos naturais em objetos trabalhados, de modo que se tornavam úteis à vida social. No processo de trabalho capitalista, o trabalho produtivo ganha determinações importantes: por um lado, por conta do desenvolvimento do caráter cooperativo e social do trabalho, o conceito de trabalho produtivo se amplia: para “trabalhar produtivamente, já não é necessário agora, pôr pessoalmente a mão na obra; basta ser órgão do trabalhador coletivo, executando qualquer uma de suas subfunções” (MARX, 1988, p. 101). Por outro lado, o trabalho produtivo passa a ser “o trabalho que gera diretamente mais-valia, isto é, que valoriza o capital” (MARX, 1978, p. 71) e, neste sentido, o conceito de trabalho produtivo se estreita:

A produção capitalista não é apenas produção de mercadoria, é essencialmente produção de mais-valia. O trabalhador produz não para si, mas para o capital. Não basta, portanto, que produza em geral. Ele tem que produzir mais-valia. Apenas é produtivo o trabalhador que produz mais-valia para o capitalista ou serve à autovalorização do capital (MARX, 1988b, p. 101).

O trabalho que cria valor é aquele que é comprado por um capitalista que paga apenas por uma parte do trabalho realizado, que corresponde àquilo que o trabalhador necessita para a sua reprodução enquanto trabalhador, e a parte da jornada de trabalho não paga o capitalista se apropria sem troca de equivalentes. O processo de produção capitalista não é apenas a produção de mercadorias, é “processo que absorve trabalho não pago, que transforma os meios de produção em meios de sucção de trabalho não pago” (MARX, 1978, p. 75).

No Capítulo Sexto Inédito, Marx dá alguns exemplos de como uma atividade de “idêntico conteúdo” pode ser produtiva e improdutiva, dependendo da relação social que estabelece. Num dos exemplos, Marx compara os mesmos trabalhos sendo realizados de diferentes maneiras, deixando clara a distinção entre uma atividade produtiva e improdutiva:

Uma cantora que entoa como um pássaro é um trabalhador improdutivo. Na medida em que vende seu canto, é assalariada ou comerciante. Mas, a mesma cantora, contratada por um empresário, que a faz cantar para ganhar dinheiro, é um trabalhador produtivo, já que produz diretamente capital (1978, p. 76). Uma mesma atividade, como o canto, pode ser: trabalho improdutivo; trabalho assalariado e improdutivo; e, finalmente, trabalho assalariado e produtivo. O trabalho assalariado

é pressuposto para o trabalho produtivo, mas nem todo trabalho assalariado é produtivo. Para esclarecer ainda mais as distinções entre as diferentes atividades, Marx diz que:

O mesmo trabalho, por exemplo, jardinagem, alfaiataria, etc., pode ser realizado pelo mesmo trabalhador a serviço de um capitalista industrial ou de um consumidor direto. Em ambos os casos, estamos ante um assalariado ou diarista, mas, num caso trata-se de trabalhador produtivo, e noutro, de improdutivo, porque no primeiro caso este trabalhador produz capital e no outro não; porque num caso seu trabalho constitui um momento do processo de autovalorização do capital, e no outro não. (1978, p. 76).

Neste trecho, Marx demonstra que a principal diferença entre o trabalho improdutivo e o produtivo consiste no fato de o primeiro “trocar-se por dinheiro como dinheiro” (renda) e o segundo trocar-se por “dinheiro como capital” (1978. p. 79).

Tal discussão tem relação ainda com a pertinência do emprego do conceito de trabalho produtivo às atividades do chamado “setor de serviços”. O serviço é definido por Marx como trabalho que se efetiva numa atividade e não num produto que possa ser separado dessa mesma atividade, como “uma expressão para o valor de uso particular do trabalho, na medida em que este não é útil como coisa, mas como atividade” (MARX, 1978, p. 78, grifos do autor). Isso quer dizer que um trabalho que não resulta num produto que possa ser separado da atividade mesma de trabalho, pode ser trabalho produtivo ou improdutivo, definição que só depende do fato de gerar diretamente mais-valia ou não.

Quer dizer, ainda, que a discussão em torno da produtividade ou improdutividade do trabalho nada tem a ver com o conteúdo material do produto do trabalho, mas pode ter relação com o fato de o trabalho ser considerado material ou imaterial. Tais conceitos estabelecem relação direta não com a materialidade do produto do trabalho, mas sim com o processo desse trabalho e, sobretudo, com os efeitos deste processo ou do produto que resulta de tal processo. O trabalho material está relacionado com um caráter mais objetivo do processo de trabalho, como por exemplo a confecção de roupas (seja para o capitalista, seja para o consumidor diretamente), que pode ser mais facilmente controlado e subsumido a momento de valorização do capital. Em contraposição, o trabalho imaterial seria marcado por uma maior mobilização do lado subjetivo da atividade, da criatividade, do conhecimento e dos efeitos informacionais e culturais da atividade laboral ou de seu produto. Este trabalho pode resultar num produto separado do ato de produção, como livros, quadros, etc, ou pode ter utilidade somente enquanto serviço, como poderia ser o caso do trabalho docente. Embora Marx tenha dito que, naquele tipo de trabalho, “o modo capitalista de produção só tem lugar de maneira limitada” (1978, p. 79), porque pode se

lhe opor mais resistência, é preciso analisar lógica e historicamente o modo de realização daquelas atividades na atualidade.

A definição do trabalho produtivo ou improdutivo por meio dos seus conteúdos materiais, segundo Marx, deriva-se de uma “concepção fetichista peculiar ao modo de produção capitalista”, que “considera as determinações formais econômicas, tais como ser mercadoria, ser trabalho produtivo, etc, como qualidade inerente em si mesma aos depositários materiais dessas determinações formais ou categoriais” (1978, p. 78, grifos do autor).

De acordo com Rubin (1980),

...o trabalho é considerado produtivo ou improdutivo não do ponto de vista de seu conteúdo, ou seja, quanto ao caráter da atividade de trabalho concreta, mas do ponto de vista de sua forma social de organização, de sua compatibilidade com as relações de produção características da determinada ordem econômica da sociedade (1980, p.280, grifos do autor).

Considerando a “forma social de organização” do trabalho e a “compatibilidade com as relações de produção características da determinada ordem econômica da sociedade”, pode-se considerar o trabalho docente e sua forma de inserção no capitalismo, encarando as dificuldades de compreensão postas por essa atividade laboral e pelas maneiras nas se realiza.

Primeiramente, é preciso dizer que o trabalho docente não tem seu valor de uso materializado num produto, mas, numa atividade. Se isso não retira tal atividade da discussão acerca do caráter produtivo ou improdutivo do trabalho, define-o enquanto um tipo específico de trabalho que se desenvolve na sociedade capitalista, o serviço.

Marx não desenvolveu o bastante a análise acerca do serviço enquanto forma de trabalho por considerar que os trabalhos que não podem existir separados e independentemente dos seus resultados, como “mercadorias autônomas – ainda que se os possa explorar de maneira diretamente capitalista, constituem magnitudes insignificantes se comparados com o volume da produção capitalista” (MARX 1978, p. 76, grifos do autor). Certamente tal avaliação da importância dos serviços no processo de produção capitalista, fazia sentido à época em que Marx investigou seu objeto, mas, não corresponde ao atual momento de desenvolvimento capitalista, o que traz dificuldades para seu entendimento.

Outra dificuldade diz respeito ao fato de o trabalho docente poder se realizar tanto em escolas da rede de ensino pública, quanto em escolas da rede privada. Se isso não altera em nada a sua realização enquanto trabalho assalariado e serviço, muda substancialmente sua configuração conceitual e, à primeira vista, traz diferenças abruptas na prática, no que tange ao

papel social que o docente cumpre, contribuindo direta ou indiretamente para a valorização do capital.

Assim como o trabalho de uma cantora ou de um alfaiate, o trabalho docente pode ser uma atividade produtiva ou improdutiva, dependendo da circunstância em que é realizado. O trabalho de preceptor(a) ou professor(a) particular, consumido diretamente pelo(a) cliente, é um trabalho improdutivo. No entanto, o trabalho realizado numa empresa capitalista é um trabalho produtivo. Nas palavras de Marx: “Um mestre-escola que é contratado com outros para valorizar, mediante seu trabalho, o dinheiro do empresário da instituição que trafica com o conhecimento, é trabalhador produtivo” (1978, p. 76). Ou ainda, num exemplo ainda mais contundente de O Capital:

Se for permitido escolher um exemplo fora da esfera da produção material, então um mestre-escola é um trabalhador produtivo se ele não apenas trabalha as cabeças das crianças, mas extenua a si mesmo para enriquecer o empresário. O fato de que este último tenha investido seu capital numa fábrica de ensinar, em vez de numa fábrica de salsichas, não altera nada na relação. O conceito de trabalho produtivo, portanto, não encerra de modo algum apenas uma relação entre a atividade e o efeito útil, entre trabalhador e produto do trabalho, mas também uma relação de produção especificamente social, formada historicamente, a qual marca o trabalhador como meio direto de valorização do capital. Ser trabalhador produtivo não é, portanto, sorte, mas azar” (1988, p. 101-102).

Marx diz que é da maior importância distinguir o trabalho produtivo de outras formas de trabalho “pois essa distinção exprime a especificidade da forma do trabalho sobre que repousam o modo de produção por inteiro e o próprio capital” (1980, p. 390). Isso quer dizer que o trabalho produtivo é “uma abreviação para designar o conjunto do relacionamento e dos modos em que a força de trabalho figura no processo capitalista de produção” (MARX, 1980, p. 391). O trabalho produtivo é a forma na qual a relação capitalista se efetiva de maneira plena, pois é, por seu intermédio que se efetiva a acumulação capitalista, finalidade desse modo de produção. A “diferença entre trabalho produtivo e trabalho improdutivo é importante com respeito à acumulação, já que só a troca por trabalho produtivo constitui uma das condições da reconversão da mais-valia em capital” (MARX, 1978, p. 80, grifos do autor).

Do que foi visto, pode-se constatar que o trabalho docente que se realiza para uma empresa capitalista, no caso, uma escola privada, é um trabalho produtivo. Por outro lado, infere- se que o trabalho docente no sistema público de ensino é um trabalho improdutivo, pois não compete diretamente para a valorização do valor. Mas, com isso, não se esgota a questão: é preciso investigar um pouco mais a fundo os motivos dessa “improdutividade” do trabalho docente, bem como algumas de suas implicações teóricas e práticas na análise desse trabalho.

Isso porque é evidente que, apesar de não produzir mais-valia, o trabalho docente levado a cabo nas escolas públicas possui importância social, inclusive do ponto de vista da acumulação capitalista em sentido mais estrito.

No caso do trabalho docente na escola pública, o processo de trabalho enquanto atividade que se desenvolve num contexto de grande avanço no que se refere ao grau de desenvolvimento de relações sociais capitalistas implica uma elevada complexidade conceitual. Como no caso da empresa privada de um capitalista, há uma mediação entre docentes e estudantes mas, tal mediação consiste no caráter público da instituição, sendo o Estado o contratante do trabalho educativo. O mecanismo através do qual o Estado é diferente do mecanismo de um capitalista: por um lado não visa gerar mais-valia, por outro lado, é um Estado de uma forma social capitalista, e deve ser considerado como tal.

Ainda que o trabalho docente tenha os mesmos conteúdos sendo realizado na escola pública ou privada, na primeira é um trabalho improdutivo e na outra, um trabalho produtivo, numa gera mais valia e na outra não gera. Do ponto de vista do contratante, o Estado, portanto, o trabalho docente não se reduz a acumulação do capital. Mas este fator pode levar à conclusão de que o trabalho docente na escola pública não seja compatível com a forma social dominante do trabalho no capitalismo? Como se pode tratar a submissão do trabalho docente ao Estado? A conceituação relativa ao trabalho docente se altera por ele ser submetido ao Estado? Que conclusão se pode tirar de processos que alteram a gestão pública no sentido de se adequar à forma de gestão privada?

Tais questões podem começar a obter respostas se se coloca em paralelo os processos de subsunção do trabalho ao capital e de subsunção do trabalho docente ao Estado, dentre os quais há uma diferença crucial: o fato do trabalho se subsumir diretamente ao elemento totalizador da sociedade capitalista e o trabalho docente se submeter ao Estado. Apesar da diferença, há semelhanças que podem conduzir a um entendimento da tendência totalizadora do capital e das suas formas de particularização em relações sociais específicas.

Antes disso, no entanto, são necessárias algumas considerações sobre o Estado e o direito no capitalismo, uma vez que tratar-se-á, em seguida, do processo de “estatização” do professorado e é preciso levar em conta a relação entre Estado e educação.

3. CONSIDERAÇÕES (MARXIANAS) ACERCA DO ESTADO EDUCADOR E