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TRANSFORMAÇÃO ESPACIAL E A QUESTÃO ESPIRITUAL DO

No documento fabricioandredealmeidalinhares (páginas 47-50)

2 O OBJETO, OS CONCEITOS E O MÉTODO

2.6 TRANSFORMAÇÃO ESPACIAL E A QUESTÃO ESPIRITUAL DO

Pensamos que as relações estado-trabalho no serviço público são hibridas. Hora aproximam-se mais das relações capitalistas de produção, hora se aproximam mais de relações socialistas30. É certo que essas relações variam

geograficamente, de acordo com certas territorialidades, estados nacionais e unidades de governo, também variam de acordo com o momento histórico ou conjuntura política, mas estas variações estão intimamente ligadas aos processos territorializantes pelo Capital na superestrutura. Contudo, o que nos cabe investigar, no tocante a esta territorialidade se desprende em dois pontos: primeiro precisamos verificar a influência do capital nesse movimento, se, de fato, as proximidades das relações de estado-trabalho às relações capital-trabalho relacionam-se ao maior espelhamento do Estado frente o capital no que concerne às relações de trabalho e segundo, em que medidas esse movimento se faz também por pressão da própria sociedade civil, que absorve valores morais difundidos nos meios de manipulação de massas patrocinados pelo próprio capital, considerando sempre a inter-relação entre os dois pontos.

Os valores associados ao trabalho, seja ele decorrente de relação com o Capital ou com o Estado, também são importantes para legitimar o estado de coisas e naturalizar uma moral própria para o trabalhador na condição de livre, que o regule e estimule a uma vida de sacrifícios com resignação. Afinal, que moral se faz necessária para regular/estimular um escravo? A chibata é o próprio estímulo. Mas, fazendo uma analogia, no caso do trabalhador livre é diferente. Para o burguês acreditamos ser conveniente que o trabalhador se faça “escravo”, sem saber. Por amor ao trabalho. Para tanto, a classe que vive do trabalho deve tomar para si a moral de seus algozes, mesmo que estes não a pratiquem de fato. Assim devem julgar importante a produtividade, sem questionar que pouco se apropriam dela. Reconhecer no patrão a legitimidade de que este tenha uma vida luxuosa e preguiçosa, e ao mesmo tempo condenar em seus irmãos de classe o direito à preguiça31. Precisam

repreender as faltas e os atrasos dos seus e ainda admirar a estrutura repressiva a

30 É preciso ter cuidado para compreender que quando afirmamos “relações socialistas” não nos referimos ao regime de governo, apenas referendamo-nos às relações de trabalho cujo modo de produção pauta-se na produção e no consumo socializados por intermédio do Estado.

que se submetem. Neste aspecto, em termos de relações trabalhistas, em nossa opinião, o Estado tende a ser mais brando que o capital.

Há de se supor que toda essa engenharia ideológica, engendrada pelos cardeais e pelos filósofos a serviço de seus mandatários, a burguesia, não se reproduziu por acaso, tão pouco de forma natural. Nesta ordem, afirma Lafargue (1977):

A burguesia, quando lutava contra a nobreza, apoiada pelo clero, arvorou o livre exame e o ateísmo; mas triunfante, mudou de tom e de comportamento e hoje conta apoiar na religião a sua supremacia econômica e política [...] A moral capitalista, lamentável paródia da moral cristã, fulmina com o anátema o corpo trabalhador; toma como ideal reduzir o produtor ao mínimo mais restrito de necessidades, suprimir as suas alegrias e as suas paixões e condená-lo ao papel de máquina, entregando trabalho sem trégua nem piedade (LAFARGUE, 1977, p. 13).

Trabalhem, trabalhem proletários, para aumentar a fortuna social e as vossas misérias individuais, trabalhem, trabalhem para que, tornando-vos mais pobres, tenham mais razão para trabalhar e para serem miseráveis. Eis a lei inexorável da produção capitalista. [...] Os proletários, embrutecidos pelo dogma do trabalho, não compreendem que é o supertrabalho que infringiram a si próprios durante o tempo da pretensa prosperidade a causa de sua miséria presente (LAFARGUE, 1977, p. 26).

Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels (2009), na empreitada de explicar a ideologia, adentram o terreno da consciência humana, e de forma bastante sucinta a sintetizam, afirmando que “A relação que tenho com o que me rodeia é minha consciência” (2009, p. 56). Trata-se aqui de afirmar antes de tudo que a consciência é no primeiro momento, o próprio instinto consciente, levado a realizar-se pela necessidade de “estabelecer relações com indivíduos que o cercam” (2009, p. 57). Segundo os autores, o aumento da produção levou o homem ao aumento das necessidades, desenvolvendo-se a partir daí a divisão do trabalho que efetivamente apenas se torna divisão32 quando surge uma divisão entre o trabalho material e o

espiritual33.

É a partir deste momento que a consciência passa a poder representar algo sem representar, no entanto, algo real. “Desde então, a consciência está em

32 Já havia anteriormente uma divisão do trabalho, entretanto não era mais que uma divisão do trabalho no ato sexual ou em outro momento produto da divisão natural (força física ou necessidades).

33 A primeira forma de divisão entre o trabalho material e o espiritual coincide com o surgimento da primeira forma dos ideólogos, os sacerdotes.

condições de emancipar-se do mundo e entregar-se à criação da teoria, da teologia, da filosofia, da moral etc.” (MARX; ENGELS, 2007, p. 58).

É bem verdade que tanto Marx como Engels já consideravam nas sociedades tribais uma certa divisão de classes, algo não efetivo que, no entanto, os levavam a concluir que os chefes tribais já faziam de suas esposas e filhos seus

escravos34. É apenas quando a divisão social do trabalho se efetiva, com a divisão entre trabalho material e espiritual (Ideólogo), como exposto acima, já avançados os níveis de produção e definidas formas não tribais de propriedade privada e o surgimento do Estado, que de fato se condiciona uma divisão de classes nas sociedades humanas.

O pressuposto de Marx e Engels é que, a partir daí

As ideias da classe dominante são em todas as épocas as ideias dominantes, ou seja, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo sua força espiritual dominante. A classe que dispõe (controla) dos meios de produção material dispõe também dos meios de produção espiritual, o que faz com que seja a ela submetida, ao mesmo tempo, as ideias daqueles que não possuem os meios de produção espiritual. (MARX; ENGELS, 2007, p. 78).

No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels (2007) explicam, pela citação anterior, que os valores pertinentes ao trabalho e a outros elementos de aspecto moral, religioso e ético são determinados pelos anseios da classe social que detém a propriedade privada dos meios de produção. Esses valores, propostos pelas classes dominantes, são assimilados e reproduzidos pelas classes dominadas, o combate a eles deve se dar em todos os espaços e esferas possíveis no seio da própria luta de classes.

34 A escravidão da família é considerada pelos autores a primeira forma de propriedade. Pelo menos é neste sentido que se manifestam em A Ideologia Alemã, na parte em que tratam da Ideologia em geral e particularmente a alemã.

No documento fabricioandredealmeidalinhares (páginas 47-50)