3.6 TRATADOS DA OMPI
3.6.2 Tratado sobre Fonogramas
O Tratado Sobre Intérpretes ou Executantes e Fonogramas (TOIEF), que assim como o TODA foi editado pela OMPI em 1996, sem ratificação do Brasil até hoje. Indica em seu preâmbulo uma preocupação em “introduzir novas regras internacionais que forneçam soluções para as questões levantadas pelo econômico, social, cultural e tecnológico”. Além disso, reconhece o profundo impacto proporcionado pelo desenvolvimento e a convergência das tecnologias de informação e comunicação na produção e utilização de interpretações e execuções de fonogramas. Afirma também a necessidade de equilíbrio entre os direitos dos artistas intérpretes ou executantes e os produtores de fonogramas com os interesses do público em geral, em particular em relação à educação, investigação e ao acesso a informação. Sobre este tratado, comenta Ascensão:
Em relação à convenção de Roma de 1961, há duas principais diferenças de enquadramento a anotar:
1) O Tratado é exclusivamente da OMPI: a UNESCO e a OIT ficam de fora.
2)O Tratado respeita só a artistas e a produtoras de fonogramas: os organismos de radiodifusão ficam de fora.
133 BUSANICHE, Beatriz. Argentina copyleft: la crisis del modelo de derecho de autor y las
3)Os produtores de videogramas, não obstante muitos esforços feitos, não foram incluídos. O Tratado segue estritamente, no aplicável, o tratado sobre o direito de autor. Os direitos atribuídos aos autores são quanto possível imediatamente estendidos a artistas e a produtores de fonogramas. É uma manifestação clara da tendência, a nível internacional, de equiparar a proteção dos direitos conexos ao direito de autor. No interior do Tratado, os direitos conferidos aos artistas são imediatamente estendidos (com repetição verbal) aos produtores de fonogramas. É manifestação de outra tendência: a de estender a meros empresários direitos que foram defendidos invocando-se a dignidade da criação intelectual e da prestação pessoal do artista.
Esta extensão encontra um limite; o aspecto pessoal. O Tratado consagra um direito “moral” do artista. Aí, já não é possível fazer a atribuição de direito semelhante ao produtor de fonogramas. O artigo 5 vai garantir o referido direito moral, em relação à paternidade (o direito de reivindicar a identificação junto ao uso da obra) e integridade (opor-se a qualquer modificação não autorizada).
A citada extensão aos empresários dos direitos dos autores é exemplificada pelos artigos 11, 12 e 13 que reservam aos produtores gozar do direito exclusivo de autorizar a reprodução direta ou indireta, além da distribuição (ou disposição ao público) de “seus” fonogramas e o licenciamento, por qualquer procedimento ou forma. Assim, o direito de reprodução aplica-se ao ambiente digital, tal qual o meio físico. Além disso, a interpretação oficial do Tratado entende que o armazenamento de fonograma, em formato digital suporte eletrônico, constitui uma reprodução.
Em relação aos limites que favoreçam o acesso à informação citado no preâmbulo, o Tratado limita-se em seu artigo 16 a reeditar a regra dos três passos. Os artigo 18 e 19 obrigam que os estados atentem contra a violação das medidas tecnológicas de proteção e gestão de direitos (TPM e DRM), que são alvo também da TODA. Ambos os Tratados da OMPI, ao incorporarem ao direito autoral a proteção destas medidas tecnológicas, influenciaram a edição do DMCA, importante ato editado nos Estados Unidos em 1998, como aponta Lessig:
obras on-line, exigindo aos países que estendam as leis de direitos autorais para a Internet. Nos Estados Unidos, esta extensão tomou a forma do Digital Millenium Copyright Act (Ato sobre Direitos Autorais no Milênio Digital) de 1998 (DMCA), que proíbe os atos de evasão às proteções contra cópia e a importação, fabricação ou venda de tecnologias desenvolvidas basicamente para esses desvios. A violação deliberada destas disposições é objeto de sanção penal, e ambas as sanções penais e civis podem ser aplicadas aos infratores, mesmo que o uso subjacentes (intuito da suposta violação) seja privilegiado (mesmo se, por exemplo, o uso estava a cair dentro do uso justo ou fair use).134
O DMCA foi uma normatização que ganhou relevância em todo mundo, apesar de sua aplicação, em tese, se restringir aos Estados Unidos. O que ocorre é que este país é o maior exportador de produtos culturais, particularmente cinema e música. Além do papel de destaque quando se trata de indústria cultural, os EUA têm a prática de promover acordos bilaterais sobre direito autoral com outros países, de forma a estender sua proteção (ou até aumentá-la). Conclui Wachowicz que:
Os documentos internacionais do final do século XX tutelaram a propriedade intelectual conciliando interesses comerciais de um mercado de bens numa economia globalizada sem perceberem a nova realidade da Sociedade da Informação. [nota de rodapé:] Desta maneira, surgiriam o Acordo sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual, relacionados com o Comércio (AADPIC/TRIPs) e os Tratados da
134 Original: The WIPO treaties expand the protection afforded to on-line works by requiring countries to extend copyright laws to the Internet. In the United States, this extension took the form of the Digital Millenium Copyright Act of 1998 (DMCA), which prohibits both acts circumventing copy protection and the importation, manufacture, or sale of technologies developed primarily for such circumvention. Willful violation of these provisions is subject to criminal penalties,and both criminal and civil sanctions may be applied to violators even if the underlying use is privileged (even if, for example, the use were to fall within traditional fair use).
LESSIG, Lawrence. Future of ideas: the fate of the commons in a connected world. New York: Random House, 2001. p. 331.
OMPI sobre direito de autor (TODA/WCT).135 Percebe-se que os tratados da OMPI tiveram a mesma direção do TRIPs, editado pela OMC: regular práticas comerciais, de forma mais favorável aos produtores de conteúdo do que aos usuários. O direito autoral, ao regular até de forma criminal práticas como a remoção por usuários de travas tecnológicas inseridas nas obras, acabou por estender por demais seu alcance. Um direito que surgiu para incentivar o aprendizado, ou então o ato de criar, passou não só a garantir interesses econômicos de empresa, como também começou a servir para restringir o acesso à informação e punir justamente o público, razão pela qual as obras são criadas. A UNESCO tem um papel importante, de ponderar a visão comercial percebida nos Tratados da OMC e OMPI, como veremos no próximo tópico.