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Apêndice I – Análises de Regressão do QVPM sobre a EVA Moderadas pela Nacionalidade

Capitulo 3 – Modelos internos

3.4. Trauma

Para entendermos um pouco a situação de trauma, vamos primeiramente abordar a definição de transtorno de estresse pós-traumático do DSM-5 da American Psychiatric

Association (2014). Os critérios de diagnóstico aplicam-se a adultos, adolescentes e crianças

que estiveram expostos a um episódio de morte, lesão grave ou violência sexual. Esta situação pode ter ocorrido com a pessoa ou ela pode ter presenciado o acontecimento com outras pessoas. Ou pode mesmo ter sabido que isso ocorreu com algum familiar ou amigo próximo, ou mesmo estar exposto de forma recorrente a situações traumáticas, como o caso de

socorristas que lidam com a morte ou com restos de corpos, ou mesmo outros profissionais que lidem de perto com estas ou outras situação traumáticas.

Assim o estresse pós-traumático aparece quase exclusivamente ligado apenas a situações traumáticas e não a outras situações (Vaz Serra, 2003). Sobre este ponto, Vaz Serra (2003) esclarece:

Quando a circunstância vivida é considerada importante para o indivíduo e este sente que não tem aptidões para nem recursos (pessoais ou sociais) para superar o grau de exigência que a circunstância lhe estabelece, então entra em stress. O stress surge quando o ser humano desenvolve a percepção de não ter controlo sobre a ocorrência. A percepção de não ter controlo pode ser real (de fato, o indivíduo não tem aptidões nem recursos pessoais e sociais que lhe permitam ultrapassar as exigências criadas pela situação) ou distorcida, isto é, o indivíduo tem aptidões e recursos mas sente

subjetivamente que não são suficientes ou que não é capaz de os usar adequadamente. (pg. 5).

O que podemos ver aqui são várias situações: 1) a situação é considerada importante para o indivíduo; 2) ele sente que não tem aptidões nem recursos para lidar com ela, – sente que não tem controle sobre a situação; e 3) essa percepção de não ter recursos pode ser real ou distorcida (subjetiva). Quando transpomos estas situações para o bebê, percebemos que 1) a presença do cuidador é importante para ele; 2) o bebê não tem aptidões nem recursos para impedir a separação do cuidador; e 3) o bebê sente que ele não consegue demover a partida do cuidador – cria modelos internos acerca das suas capacidades e acerca dos outros.

Em seguida, Vaz Serra (2003) diz:

Quando alguém entra em stress há sempre um conjunto de ações que desenvolve. Umas vezes de forma adequada e, outras, inadequada. As estratégias que são desenvolvidas têm um objetivo duplo: por um lado, tentam resolver a relação perturbada que se estabeleceu entre a pessoa e o meio-ambiente (isto é, procuram “solucionar o problema”), por outro lado, tentam esbater as emoções negativas desencadeadas pela circunstância (isto é, procuram atenuar o “estado de nervos” em que a pessoa se encontra). Nestes aspectos as estratégias podem ser centradas no problema, centradas nas emoções, e centradas na obtenção de apoio social. (pg. 5).

E também aqui Vaz Serra (2003) dá-nos algumas soluções de enfrentamento, mas no caso do bebê, ele: 1) não consegue resolver a situação da partida do cuidador, 2) as emoções não resolvem a situação, 3) o apoio social de outro cuidador ou de outra pessoa não são aquilo que o bebê deseja. Como podemos ver, o bebê está limitado nas suas capacidades e ações e só lhe resta um caminho, que é a criação das suas representações mentais (modelos internos) e criar um meio de lidar com as suas emoções.

É aqui que podemos avançar com aquilo que Freud (1966) diz:

... os sintomas histéricos, sustentavam os autores, surgiam quando um processo mental com pesada carga emocional era de alguma maneira impedido de nivelar-se ao longo do caminho normal que conduz à consciência e ao movimento (isto é, era impedido de ser ‘ab-reagido‘) (pg. 152).

Acrescenta-se o que Bliss (1980) relata acerca do desenvolvimento de personalidades múltiplas: “In all 14 cases, the first personality was created when the subject was aged 4, 5, or 6 years. The child (in these cases a girl) was faced with unpleasant or intolerable events.” (pg. 1388).

E nesta linha, incluímos ainda aquilo que Bowlby (1990, 1993a, 1993b), Fairbain (1952) e Winnicott (1971) acreditavam e defendiam, de que as ligações com os cuidadores eram os principais contribuidores e construtores para o desenvolvimento do self e da psicopatologia. Bowlby (1990, 1993a, 1993b) também acreditava que a maioria das psicopatologias tinham a sua origem ao longo do desenvolvimento do bebê, quando suas necessidades de segurança e afeto não eram preenchidas.

Podemos concluir então, que a separação e a ansiedade de separação podem assim ser bastante traumáticas para o bebê, e estarem na origem de inúmeros problemas e situações mais tarde na vida adulta. No entanto, nós sempre podemos examinar a situação por um lado – pelo lado do bebê – ou podemos observá-la pelo lado dos pais e das suas dificuldades em darem aquilo que os seus filhos gostariam.

Como vimos anteriormente, quando tratamos do comportamento do apego desorganizado, Landa e Duschinsky (2013) relatam que Ainsworth registra o medo

inconsciente que ainda existiria nos pais devido à perda da sua figura de apego quando jovens, o qual teria um papel importante no comportamento desorganizado dos seus filhos. Ou seja, o

medo e a perda estariam ainda presentes devido à incapacidade desses pais em terem feito o luto quando jovens (Landa & Duschinsky, 2013). Isto também nos coloca de volta a Bowlby (1944), onde a criminalidade e comportamentos desviantes estariam associados à separação prolongada ou perda da figura de apego.

Por outro lado, Renn (2003) cita vários pesquisadores que mostraram que os agressores têm uma história passada de maus-tratos e de perdas, e que a percentagem deste tipo de população pode ir até 90% da amostra. Ele também descobriu que aqueles que cometem violência, foram eles mesmos vítimas de abuso, ou sofreram negligência ou perdas durante a sua infância. Agir de forma criminosa de acordo com um trauma de infância não resolvido é portanto, uma característica comportamental daqueles com quem ele trabalhou, característica essa que também está associada ao abuso de drogas. O autor busca assim mostrar a ligação entre o trauma de infância e o subsequente comportamento de violência que existe mais tarde.

Esta ligação também já tinha sido identificada por Bowlby (1944, 1990, 1993a, 1993b), que mostrou que o trauma da separação provoca estresse e delinquência. E é em Bowlby (1993b), onde ele trata da perda e luto na primeira e segunda infância, onde podemos constatar que os protestos de separação, o desespero e a apatia ou desligamento acontecem no luto ou perda de alguém que se ama, levando a pessoa ou a criança a passar a passar por um “sofrimento inexprimível” (pg. 6). E podemos também ler: “A perda de uma pessoa amada é uma das experiências mais intensamente dolorosas que o ser humano pode sofrer.” (Bowlby, 1993b, pg. 4).

Não são apenas as perdas que provocam estresse, mas também todas as ameaças de perdas sejam por ameaça de abandono da criança num orfanato ou por dá-la a alguém, ou por ameaçar ir embora ou mesmo se suicidar (Bowlby, 1993a; 1993b). Todas estas ameaças

provocam na criança uma desorganização mental e a criação de modelos internos específicos para ela poder lidar com a situação. Também com frequência, a criança cria e sofre um desligamento emocional. George, Kaplan, Main, et al., (1985) mostraram que existe uma correlação entre a narrativa dos pais acerca da sua própria infância e os estilos de apego demonstrados pelos seus filhos e concluíram também que os modelos internos dos padrões de apego inseguros eram resistentes à mudança, uma vez que eles eram modelos internos

defensivos e, dessa maneira, excluíam a consciência e análise racional dos acontecimentos, resultando numa distorção das percepções relacionais dos acontecimentos.

Também Renn (2003) demonstra o que ocorre na família quando acontecem situações traumáticas e onde os pais muitas das vezes não conseguem lidar com elas, ou mesmo não as conseguem ultrapassar. Nestas situações, como a perda de um filho, ou a perda de alguém próximo, podem levar os pais a não conseguirem fazer o luto ou a fecharem-se física e emocionalmente para os outros membros da família, ficando desta forma indisponíveis, “distantes” e incapazes de darem ajuda a seus filhos. Este trabalho de Renn (2003) discute também o que vários autores observaram sobre o apego inseguro e o apego desorganizado e como muitas das vezes estes apegos estão relacionados com modelos internos incoerentes e dissociados da realidade devido à necessidade de dissociação das experiências traumáticas e das suas dores e sofrimentos. Estas situações podem levar ao desenvolvimento de desordens de múltiplas personalidades ou de desordens de dissociativas de identidade.

E quando entramos no estresse pós traumático, nas memórias traumáticas e na

dissociação de memórias, podemos referir-nos a Van der Kolk e Fisler (1995), que dizem que quando a pessoa que sofre um trauma, ela fica num estado de “terror sem fala” e, muitas vezes, não tem palavras para descrever o acontecimento, ou não consegue construir uma narrativa coerente do mesmo. E enquanto não o conseguir fazer, ela não vai conseguir lidar

com o estresse dentro dela que a situação provocou. Da mesma maneira, os acontecimentos traumáticos de infância são mais desorganizadores do que os acontecimentos vividos em adulto (Van der Kolk & Fisler, 1995).

Ou seja, segundo estes autores, o trauma surge de uma situação estressante da qual a pessoa não consegue escapar e que sobrecarrega os mecanismos de coping (enfrentamento) da pessoa. Eles também seguem a teoria da alexitimia, segundo a qual a pessoa é incapaz de reconhecer e descrever os seus estados emocionais. Em outras palavras, as reações afetivas associadas ao trauma são evitadas ou removidas da consciência. Consequentemente, a pessoa fica susceptível a doenças psicossomáticas mais tarde na sua vida. De outra parte, os autores também argumentam que a capacidade de explorar a mente e de desenvolver os pensamentos e sentimentos desenvolve-se quando existe um apego seguro, ao passo que por outro lado, o apego inseguro destrói a capacidade da criança de refletir e de integrar as experiências. Como as crianças não têm capacidade para controlar o seu intrapsíquico e os seus problemas, elas tentam controlar os seus estados subjetivos e problemas interpessoais através de substâncias químicas, violência física e crime.

E tal como também podemos ver em Bowlby (1993b), a raiva que a criança tem para com a figura de apego que não lhe fornece o conforto em situações de estresse é um aspecto normal e natural no sistema de apego. Dessa maneira, a raiva leva a criança a criar os seus mecanismos de defesa de forma a tentar evitar voltar a passar pela mesma situação. E é aqui que têm também lugar a formação dos modelos internos quer acerca de si quer dos outros, onde as representações mentais que se criam são apenas um meio de lidar com a situação dolorosa que a criança vive e enfrenta.

Surgem então duas situações, como podemos ler em Bowlby (1993b) e em Renn (2003). Uma é a situação de abandono ou qualquer outra que provoque o desgosto, a raiva, e o

desespero e a outra situação é que para evitar voltar a passar pela mesma situação, a criança cria mecanismos de defesa. Porém, quando estes mecanismos de defesa ficam

sobrecarregados, essa raiva pode levar a violência e a atos destrutivos. Esses mecanismos de defesa podem ser de evitação ou de levar a pessoa a fazer algo antes que uma provável situação aconteça. A este propósito, cabe mencionar o caso das separações e da ansiedade de separação que ela provoca, que muitas das vezes levam à morte e ao suicídio e onde por vezes se mata aquele que abandona. Recorde-se as palavras de um adolescente que colocou uma bomba na mala de viagem da mãe: “I couldn't stand to have her leave me...I decided that she would never leave me again.” (Burnham, 1965, pg. 353).

Por fim, nós podemos referir-nos a Dozier, Manni e Lindhiem (2005) que argumentam que crianças que frequentam creches têm tendência a desenvolverem apego inseguro, tendo um impacto negativo no desenvolvimento da criança e no desenvolvimento de apego seguro nas suas relações. Os autores citam os vários estudos que mostram que os cuidados infantis nas creches são estressantes para as crianças, as quais apresentam níveis elevados de cortisol ao longo do dia. As separações que ocorrem durante a noite podem ser mais traumáticas do que aquelas que acontecem durante o dia, levando as crianças a confiarem menos na disponibilidade dos seus pais, sendo por isso crucial evitá-las para não afetar o desenvolvimento do sentimento de segurança da criança.

No documento JOSÉ CARLOS DA SILVA SANTIAGO (páginas 122-128)