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Troca e circulação de saberes com centros europeus

Tal como foi anteriormente mencionado, Armando Narciso como médico recém-formado estagiou em Paris junto de médicos hidrologistas e da elite médica francesa (Weisz 2001). Essa experiência poderá explicar a importância que atribuiu, enquanto director do Instituto de Hidrologia de Lisboa, professor e médico termal, à troca de saberes com os centros médicos europeus, designadamente o francês. A transmissão e a circula- ção do conhecimento hidrológico através dos periódicos médicos, das viagens científicas a centros europeus, e da organização e participação em congressos científicos internacionais foi uma das dimensões da sua «dou trina» em que mais investiu. Para isso afirmava que era fundamental aprender nos centros de ciência que estavam mais desenvolvidos, como o fez na Alemanha e em França, através de estágios e visitas a termas.

Conhecer outras realidades termais e os recursos de outros países per- mitia, por um lado, tê-las como modelo na organização da actividade termal portuguesa; por outro lado, a comparação permitia valorizar os recursos existentes – as águas minerais do país tão desvalorizadas pelos governantes – pois as características físico-químicas das águas minerais portuguesas não eram, na sua perspectiva, inferiores às estrangeiras, sendo até possível estabelecer equivalência entre águas e termas nacionais e «es- trangeiras». Os aspectos que as diferenciavam eram aqueles relativos à organização termal – ou falta dela – e à falta de saneamento e de infra- -estruturas existentes nas povoações termais. Nas «Notas de viagem» rea - lizadas a termas francesas e alemãs relatava detalhadamente a forma como estava organizado o ensino da hidrologia médica e as estâncias termais. Nestes relatórios, publicados nessa secção da revista Clínica, Higiene e Hi-

drologia, descrevia os aspectos que considerava essenciais um clínico saber

sobre as inovações da medicina hidrológica e da organização de uma es- tância termal. Nessas notas descrevia as características químicas das águas das termas que visitara, as suas indicações terapêuticas e as ins talações balneares, revelando a sua admiração perante a «ordem» e a «higiene» dessas estâncias, que confrontava com o que acontecia nos estabeleci- mentos balneares em Portugal. Descrevia igualmente os lugares e as po- voações termais mencionando as infra-estruturas turísticas relativas ao alojamento e à diversão, como por exemplo os Casinos e as actividades recreativas que aí se realizavam. Fazia-o de uma forma elogiosa, indi- cando-os como modelos a seguir. França é usada em várias das suas pu-

blicações como exemplo de ponto de comparação com a organização termal portuguesa; Vichy aparece como figurino – a capital das termas. Em todas estas comparações explica que a matéria-prima portuguesa (as águas minerais) não é inferior às «congéneres estrangeiras», a diferenciação manifesta-se na forma de (des)organização termal existente e na pouca importância que lhes é atribuída pelos sectores estatais:

o pais está cheio de águas medicinais, umas melhores, outras piores. É preciso fazer uma selecção. Não será possível bem aproveitar todas, dentro da mo- derna técnica em estâncias modelares. Por isso é preciso saber aproveitar as melhores [...]. As grandes nações termais têm nas suas águas uma das suas maiores riquezas. E, Portugal pela sua abundância e valor destas águas pode vir a ser uma das grandes nações termais da Europa se quiser aproveitar de- vidamente esta prodigiosa riqueza que adicionada ao seu clima, faz do nosso pais um dos melhores futuro turístico (Narciso 1944c, 10).

Um outro canal de «propaganda científica» utilizado na construção de uma «nação termal» e valorizado por Armando Narciso foi a organi- zação e participação em congressos internacionais que fomentassem as trocas cientificas entre saberes e pessoas, tal como advogava na secção «Reuniões e Congressos», na revista Clínica, Higiene e Hidrologia, no rela- tório sobre «O Décimo Quarto Congresso Internacional de Hidrologia e Climatologia», realizado em 1933 em Toulouse sobre a falta de «inte - resse» do Ministério da Instrução em enviar uma representação oficial:

E é pena que assim tenha sido, porque os Congressos Internacionais de Hi- drologia e Climatologia proporcionam ocasião de boa propaganda, a todos os países de boas águas e bons climas, quando os queiram tornar conhecidos do mundo civilizado. Porque a propaganda feita nestes congressos é a mais pro- veitosa, porque é séria e científica e não de fantasia e ficção (Narciso 1946, 121). Neste relatório lamenta a falta de apoio financeiro e de interesse do Estado por estas iniciativas e pela hidrologia médica em geral, explicando que a participação portuguesa só foi exequível porque os institutos de Hidrologia de Lisboa e Porto se fizeram «representar directamente». Já relativamente ao XXIII Congresso Internacional de Hidrologia e Clima- tologia realizado em 1930 em Lisboa (foi um dos seus organizadores e participantes) faz uma crítica à falta de interesse e de organização portu- guesa devido ao facto de as actas não terem sido publicadas e de lhe terem sido cobradas «pelos colegas franceses»: «não tendo nós portugue- ses chegado a publicar as actas do congresso de Lisboa, causou lhes isto

certo aborrecimento. E, assim, em 1932, quando fui a Vichy, ao Con- gresso da Litia se Biliar, caíram sobre mim a pedir-me responsabilidade, daquilo que não me dizia respeito» (Narciso 1945b, 145-146).

O que encontramos transversalmente na leitura e análise dos artigos escritos por Armando Narciso é, retoricamente, a ênfase dada à «propa- ganda científica», «à indústria hidromineral», ao «ensino», à «medicina hidrológica» , à «especialização», ao «turismo» e ao «patriotismo», repro- duzindo as ideias médicas sobre a hidrologia médica e o termalismo, que circulavam em França nesse período (Weisz 2001). Georges Weisz iden- tifica a mesma retórica utilizada pelos médicos franceses no processo de legitimação do campo da hidrologia médica e do termalismo francês no século XX, onde destaca a «propaganda científica», a «ciência» e o «turis -

mo» (Weisz 2001).

É o modelo médico francês que Armando Narciso dá como exemplo, tanto no que é relativo à medicina em geral, como no que é relativo à medicina termal em particular, como as notas de reportagem intituladas

Dias Médicos de Paris sobre o estágio aí realizado ilustram:

não visa somente o interesse de tornar conhecidos dos nossos leitores, mas visa também o desejo de prestar homenagem aos nossos Colegas de França, ... porque a verdade é que, se tenho consideração pelos médicos de todas as nacionalidades e admiração pela ciência de todos os povos, tenho pelos mé- dicos franceses mais do que consideração, porque tenho também amizade e pela ciência francesa mais do que admiração, porque tenho também entu- siasmo (Narciso 1945a, 5).

Na medida em que Armando Narciso era um «admirador» e um en- tusiasta da medicina francesa, que mantinha os laços de natureza cientí- fica e de amizade, pode compreender-se que o processo de formação do termalismo em Portugal durante a primeira metade do século XXse tenha

processado em similitude e como cópia do modelo francês e se explique a medicalização existente. Foi este «entusiasmo» e a experiência aí adqui- rida que sugerem a influência da medicina francesa no modo como va- lorizou os recursos hidrológicos nacionais e impulsionou o desenvolvi- mento do ensino termal como um projecto doutrinário.

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