Capítulo 4 – Representar o crime: tornar presente a disposição e o compromisso
4.3. Um jogo de linguagem adaptativo baseado na tripla contingência
Não é a mais forte, nem a mais inteligente das espécies, a que sobrevive, mas sim aquela que melhor se adapta às mudanças. (Charles Darwin)
A prática de representar o crime no proibido pode ser teorizada como um Jogo de Linguagem recorrente, praticado no nível intersubjetivo por indivíduos e também no nível das interações sociais pelo coletivo que reivindica o lugar de falante qualificado para fazer circular a voz do mundo do crime. Neste ponto utilizo a palavra “prática” para fazer referência ao emprego recorrente, não apenas pontual, da ação de representar na música. A ação de
representar, vinculada ao proceder, é configurada primeiramente como uma metodologia de
sobrevivência para lidar com o cotidiano influenciado pela presença do crime, seja dentro dele ou apenas correndo lado a lado. A prática de representar como forma de sobrevivência no plano intersubjetivo é anterior, portanto, ao acionamento do proibido como dispositivo interacional para representar o crime no plano social.
As palavras adquirem significado no uso, propunha Wittgenstein (1999 [1953]), com a Teoria dos Jogos de Linguagem, que ele desenvolveu depois de abandonar seus trabalhos com a filosofia analítica. O conceito de Jogos de Linguagem implica uma radicalização que faz desaparecer os limites entre o sujeito, a linguagem e o mundo. Se para o racionalismo e para a filosofia analítica havia uma separação lógica entre sujeito cognoscente, linguagem representativa e objeto de conhecimento, na Teoria dos Jogos de Linguagem o sujeito se constitui no próprio emprego da linguagem, que é compreendida como o todo formado pela habilidade natural que os humanos possuem para se comunicar e pelas atividades nas quais a linguagem está imbricada.
A palavra representar, quando empregada no mundo do crime para fazer referência a um compromisso, configura um Jogo de Linguagem na medida em que implica o acionamento de uma série de regras de ação e de significação negociadas localmente para usos concretos, o que por sua vez solicita que os sujeitos envolvidos assumam lugares de fala (ou de enunciação) específicos. O sujeito configura-se assim dentro do próprio Jogo, quando se posiciona e joga conforme as regras então pautadas ou introduzindo variações possíveis. A significação atribuída aos atos e às palavras é dada no contexto, na ação. Por isso é tão relevante jogar esse jogo insistentemente e de diferentes formas, em circunstâncias variadas, já que as regras que o pautam podem colocar a vida em risco e é preciso encontrar os lugares seguros.
Qualquer deslize pode ser compreendido como a quebra do proceder que impõe regras ao jogo representar no crime. O proceder opera como uma matriz construída socialmente através de processos comunicativos. É uma matriz móvel, submetida a atualizações constantes provenientes dos processos de interpretação dos fatos e objetos submetidos aos debates pelos
irmãos considerados como qualificados para decidir conforme o proceder. A disciplina do
crime não está escrita: é aplicada circunstancialmente, em termos de causa e efeito, ação e consequência. As atualizações da matriz implicam, portanto, atualizações contínuas das palavras e do código linguístico usado para interpretar e dar sentido aos objetos submetidos a
debate em cada momento, e para fazer referência a esses mesmos objetos.
As palavras são, para Wittgenstein (1999 [1953]), ferramentas para fazer coisas. O significado que podemos atribuir às palavras é estabelecido no uso, sendo um ponto de encontro de dinâmicas situacionais e relacionais, crenças compartilhadas, rupturas produzidas pelo desacordo, posicionamentos relativos assumidos pelas partes. O código posto em uso nas relações é fruto da posta em prática de Jogos de Linguagem. O sujeito, ou a ideia que o indivíduo pode desenvolver de si mesmo em cada momento, configura-se no próprio jogo, sem que se postule para ele, na Teoria dos Jogos de Linguagem, uma identidade independente do ato ou um “si mesmo” (self ou eu) essencial e permanente. A ideia de sujeito para Wittgenstein está sempre imersa na prática, ganhando o protagonismo que cada situação possibilita. O sujeito do crime se constitui inscrito em Jogos de Linguagem em tensionamentos que acionam, por exemplo, processos de sujeição e de subjetivação.
No plano intermediário das relações sociais, o acionamento do proibido para
representar o crime vai se estabelecendo como uma tentativa de um coletivo, uma tentativa de
aproximação através da estética como vetor que possibilita a veiculação da experiência vivida e também a apresentação reiterada de lógicas e racionalidades que não são facilmente apreendidas pelos discursos representativos, e aqui me refiro especificamente ao proceder do crime. A posta em prática do jogo no nível social transcende a ação no plano intersubjetivo, por um lado interferindo na construção do tecido do comum e aproximando-se assim da escuta social, e por outro lado construindo uma forma de habitar o crime ou lidar com seus efeitos a partir de um lugar social respeitado no próprio mundo do crime e que pode garantir a sobrevivência.
Para Wittgenstein (1999 [1953]), os Jogos de Linguagem guardam entre si semelhanças de família. As diferentes formas de jogar o jogo representar configuram membros dessa família. E representar na música é uma das formas de jogar o jogo representar o crime. Assim, nas peças de proibido que representam o crime há exaltação e celebração do mundo
do crime e do Comando, de seus valores, feitos e poder; a expressão de vivências; a
demonstração de disposição; o cumprimento do proceder. Há também formas de representar que não implicam um compromisso com o crime, mas que demonstram consideração, algo
muito valorizado. Há um conjunto flexível de regras que configuram o jogo na música, envolvendo o lugar de fala, a expectativa de escuta, a saudação e a celebração, os valores compartilhados e a finalidade que persegue.
A prática de representar, ao se repetir, pode ir se tornando uma metodologia para lidar com o cotidiano. Os Jogos de Linguagem que o sujeito repete de forma recorrente e reiterada configuram o que Wittgenstein (1999 [1953]) denominou “formas de vida”. Aquele que
representa, repetindo o Jogo de Linguagem reiteradamente em qualquer circunstância, habita
e exerce uma forma de vida (e de sobrevivência) que lhe permite lidar com os problemas práticos que enfrenta no ambiente em que vive. E assim como as espécies, os Jogos de Linguagem podem sobreviver ou desaparecer com o passar do tempo. Os jogos que permanecem em uso são aqueles que cumprem funções adaptativas, que garantem a sobrevivência: Assim que é bom, ter consideração Na pura calma, mostrar disposição Ser cidadão, seguir o meu destino Cantor de rap, artista ou bandido (A BALA come)
No trecho acima, “assim que é bom ter consideração, na pura calma, mostrar disposição”, há um aviso. É melhor agir com calma, ter consideração e mostrar disposição para poder seguir o caminho ao lado do Outro, seguindo o próprio destino: cantor de rap,
artista ou bandido. Cantores de rap, artistas e bandidos aqui correm lado a lado. O artista e o
cantor de rap caminham com consideração ao lado do crime. A ação representar o crime na música configura-se como um Jogo de Linguagem que permite conviver com o crime, mostrando-lhe consideração e disposição, sem necessariamente cometer atos criminais, sem necessariamente assumir o compromisso com o crime.
Vemos aqui uma expressão da ideia de crime como movimento que atravessa ou avança na mesma direção que outros caminhos, que se expressa em seguir o meu destino. O pronome possessivo em primeira pessoa, “meu”, estabelece uma diferenciação entre o meu destino e o destino do Outro. Ao mesmo tempo, estabelece também uma identificação. “Ser cidadão, seguir o meu destino: cantor de rap, artista ou bandido” são três destinos possíveis para diferentes pessoas, ou para a mesma pessoa, um cidadão. O destino, correr com o crime, seja dentro dele ou lado a lado.
Nas regiões afetadas pela presença direta do crime, as pessoas veem-se obrigadas a encontrar formas de lidar com o crime, seja para defender-se de seus efeitos, para encontrar formas de convivência pacífica ou para acompanhar histórias de pessoas próximas que adentraram o mundo do crime. Essas pessoas veem como conhecidos e seres queridos caem no crime. Veem-se, elas mesmas, expostas às forças do crime. Estão expostas também à presença frequente da polícia em seus bairros, seja em ações repressivas de rotina, em operações extensivas ou na contenção de crises. O conflito entre grupos rivais que disputam o controle dos negócios ilícitos, especialmente do narcotráfico, soma-se à ação da polícia, frequentemente violenta. A polícia brasileira está entre as que mais matam e mais morrem em serviço no mundo (FBSP, 2016), embora a discrepância entre o número de policiais e civis mortos seja suficientemente grande para sinalizar algo mais que meros efeitos do conflito legal (MISSE, 2010), configurando uma situação de conflito armado que afeta de maneira diferencial as parcelas mais vulneráveis da população.
Os Jogos de Linguagem são configurados e postos em uso nas situações nas quais estão inscritos, e a situação das populações expostas ao crime nas periferias das cidades brasileiras é uma situação de vulnerabilidade subjetiva, econômica, social e política. Os jogos eficazes, que permitem a adaptação às circunstâncias, às contingências e ironias que impõem muitas vezes mudanças no percurso previsto das expectativas, são jogos que permitem a sobrevivência. No mundo do crime, a palavra sobrevivência pode representar literalmente garantia de vida. Ou, ao menos, uma convivência pacífica com o crime e uma maneira de lidar com seus efeitos.
Retomo aqui o caso específico da adesão ao PCC como problema (e, às vezes, solução, ainda que a solução em si possa se converter em problema) que o sujeito inscrito no crime ou submetido ao encarceramento tem que enfrentar. A adesão ao PCC é descrita em etnografias realizadas em centros prisionais e em depoimentos pessoais de ex-presidiários como um processo voluntário. A decisão voluntária, como já se sinalizou aqui, precisa ser compreendida como uma decisão a ser tomada em contextos fortemente hostis, como pode ser o ambiente carcerário que, no caso do Brasil, está controlado por grupos criminais. Decisão, portanto, livre e, ao mesmo tempo, determinada. A recusa do convite não deve, em princípio, acarretar represálias ao convidado a fazer parte do PCC. Dependendo de sua posição no
mundo do crime, o convidado que recusou a filiação poderá participar de parcerias em
quando suas ações estejam de acordo com a disciplina do Comando (DIAS, 2011). Disciplina que opera dentro e fora do sistema prisional.
O rapper Dexter conta que um dos atributos pessoais valorizados pelo PCC nas prisões para estender o convite para formar parte do Comando é a inteligência. É também a inteligência que possibilita negar o convite de uma maneira que não gere implicações. Se aceito, o convite gera compromisso, com obrigações não apenas no plano das ações, mas também no plano moral (ENTREVISTA UOL – Rapper Dexter fala sobre o P.C.C.). A inteligência e a destreza da palavra permitem que o sujeito que nega o convite, e também trabalhadores e sujeitos que não pertencem ao crime, possam ser considerados cabulosos47
,
capazes de manter a mente blindada e ainda de influir na mente dos demais (MARQUES, 2009).
A mente é um bem precioso no mundo do crime, como já disse antes. O corpo pode ser preso e restringido, mas não a mente, ideia que inspira músicas que lembram a frase atribuída a Mahatma Gandhi: “Vocês podem me acorrentar, me torturar. Podem até mesmo destruir meu corpo, mas nunca irão aprisionar a minha mente”. A capacidade de manter a mente firme, a mente blindada, é um atributo valioso. A mente firme, blindada e tranquila, pode se proteger da influência psicológica, que pode vir do opressor ou do lado errado. Mas, além disso, a mente blindada pode, também, influir em outras mentes. A mente que é capaz de invadir a mente do Outro é valiosa e a inteligência que permite lidar com o código linguístico em Jogos de Linguagem dinâmicos como os que caracterizam o código no proibido é uma habilidade natural que potencializa a sobrevivência do indivíduo, mas também do grupo.
No plano intermediário das relações sociais, o mundo do crime põe o proibido em uso para suas tentativas comunicacionais de maneiras que permitem entrever, no nível do senso comum, uma ideia de comunicação que serve para produzir efeitos, para transformar o estado de coisas e criar outras novas. Podemos observar que apesar do acionamento funções instrumentais e informacionais como a encomenda de salves em forma de canção, os direcionamentos do proibido para representar o crime pressupõem uma ideia reflexiva da comunicação, que implica a consciência de escuta de atores externos à interação comunicativa em si mesma. A reflexividade pode ser percebida na ancoragem da fala na escuta tanto no nível intersubjetivo, se pensamos nas relações imediatas dentro do mundo do crime e adjacências (por exemplo, no posicionamento para correr lado a lado com o crime sem se
47 O emprego da palavra cabuloso foi registrado por Biondi para fazer referência ao sujeito que não deixa ninguém subjugá-lo, “entrar em sua mente”. Sujeito que é “senhor de si”. (BIONDI, 2010; 238). A cabulosidade como atributo foi também registrada por Marques (2009).
envolver em suas atividades), quanto no nível social se pensamos no direcionamento político (reivindicação da voz do crime).
Além disso, em alguns desses direcionamentos, a tripla contingência é o elemento central. O acionamento do proibido para representar o crime como um Jogo de Linguagem que permite conviver com o crime lado a lado, lidando com seus efeitos, está assentado na consciência de escuta do Outro que não está presente na interação. Essa consciência prevê as diferenças de pontos de vista e de necessidades únicas e locais, incomensuráveis em si mesmas. Existe ao mesmo tempo expectativa de escuta no Outro a quem é dirigida a interação, mas também a expectativa de escuta de um terceiro, às vezes a sociedade, e outras vezes o próprio mundo do crime.
Esses usos são perceptíveis nas justificativas que as letras dirigem para esses “terceiros em escuta”. Há menções, por exemplo, à revolta que golpeia o sujeito do crime ou ao ódio cultivado desde a infância, dirigido à sociedade em uma espécie de apelo à humanidade anterior ao atravessamento pelo crime. Essas menções são, contudo, mínimas em quantidade e intensidade nas músicas se comparadas com a exaltação da força, força para lutar, unida à
disposição que confere propulsão. Força que pode ser pensada como uma “vontade de
potência” nos termos formulados por Nietzsche, vontade de transcender a si mesmo, e força necessária também para resistir.
A consciência de escuta e da tripla contingência está presente também nas justificativas da posição de quem canta, em movimentos necessários para proteger da perseguição sob a acusação de crime de apologia. Também está presente na consciência da escuta pela
comunidade, com a que o crime mantém uma relação íntima. Cronista da favela, voz da
favela, defesa da comunidade. Consciência também da escuta do próprio mundo do crime em sua abrangência, que valida o ato de representar em sua expressão como compromisso e também como consideração.
Em algumas músicas, o MC explica que faz o que pode para colaborar na luta, ou conta como um telefonema faz a encomenda do salve em forma de canção. O lugar de fala reivindicado, e em alguns casos encomendado, não é o da vítima de injustiças sociais, mas sim o da voz do crime como voz qualificada em si mesma. Mas ao mesmo tempo em que se reivindica o lugar político para a voz do crime, busca-se justificar para o público, para a sociedade, as razões do ingresso no mundo do crime.
O acionamento do proibido pelo crime ganha forma, sentido, substância, direcionamento na posta em prática. Por isso é possível observar diferentes usos e direcionamentos tentativos para o proibido acionado como dispositivo interacional para
representar o crime. Esses direcionamentos apontam para as trocas entre muralhas e mundo do crime, a transmissão de recados e comunicados, a demonstração do proceder, a negociação
de posicionamentos locais, a interferência no tecido de partilhas políticas.
Como ação comunicativa, representar o crime no proibido aciona o dispositivo repetidamente para ajustes sucessivos. A própria ideia subjacente à onipresença de
(re)presentar pressupõe a repetição. Quem representa, representa geral. Representa sempre.
Representa em qualquer lugar. Representa em qualquer situação. Representar é repetir e reiterar o compromisso, numa espécie de confirmação continuada, neurotizada na medida em que se repete em si mesma, por isso mesmo sinalizando o conflito e a tensão subjacentes à vida no crime, no fio da navalha.
Ao acionar o proibido repetidamente e em diferentes circunstâncias, a voz do crime atualiza as formas de uso, adaptando o lugar de fala para gerar melhores ajustes e possibilitar uma maior aproximação, desenvolvendo discursos mais eficazes como discursos de legitimação baseados em textos jurídicos, na teoria da guerra justa, no discurso dos direitos humanos e constitucionais, ou discursos afetivos ou baseados no hiperrealismo. Por outro lado, a repetição está intimamente ligada à iteratividade da linguagem. A reiteração da palavra, para Derridas (199148, apud COSTA, 1994) é a condição de sua eficácia semântica. A palavra repetida jamais é a mesma, repete-se de maneira diferencial. A reiteração instala uma diferença de espaço e tempo, entre dois empregos em dois momentos diferentes.
Empiricamente, o contexto que dá sentido à palavra nunca é o mesmo, e nem os jogos de linguagem acionados são jogados da mesma forma em cada repetição. A possibilidade de eficácia derivada da reiteração poderia se ampliar, então, na medida em que o Jogo de Linguagem representar é jogado de tantas maneiras. Assim, a (re)presentação do crime, a apresentação reiterada, possibilita por um lado maior eficácia comunicacional ao ampliar as probabilidades de sucesso e, ao mesmo tempo, atualiza incessantemente o compromisso, tornando-o vivo e manifesto, inteiro, polivalente, onipresente na medida em que a cada reiteração do jogo é presentificado em situações empiricamente diferentes, atestando sua pervasão e transcendência.